terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Luiz Gomes: A morte de Che Guevara nas selvas bolivianas.




O elo de ligação da guerrilha  com os movimentos e partidos que faziam oposição à ditadura boliviana era uma espiã nascida na Alemanha Oriental. Na realidade, uma peça-chave do movimento guerrilheiro, obtendo informações importantíssimas para os insurgentes que se encontravam nas selvas daquele país, em condições sensivelmente fragilizadas, conforme exposto nos capítulos anteriores. 

                                    Essa espiã, dizem que muito bonita, conseguiu penetrar no coração do aparato de segurança do Estado boliviano. Vivia uma vida absolutamente normal, freqüentava encontros sociais, trabalhava e era casada com um cidadão do país, não levantando, portanto, nenhuma suspeita sobre suas reais atividades. Chegou a manter alguns encontros com os guerrilheiros nas selvas, inclusive com o próprio “Che” Guevara. Durante o período em que teve sua identidade preservada, forneceu informações importantes sobre a movimentação de tropas e os planos oficiais de combate à guerrilha. Incorporou novos combatentes ao grupo e os manteve abastecidos com armamentos, munições e alimentos. Diferentemente do que ocorrera na Sierra Maestra, onde os guerrilheiros passaram a contar com a simpatia dos camponeses - alguns deles até se engajando na guerrilha - no caso da Bolívia havia um forte resistência dos camponeses em relação ao movimento, um gravíssimo erro de avaliação de Guevara, que previa o contrário, sobretudo em razão de suas precárias condições de vida.

                                   Em certa medida, essa espiã cumpria um pouco o papel que a revolucionária Celia  Sánches exercia na guerrilha cubana, resguardando-se o fato de que Sánches, comenta-se, era amante de Fidel Castro. Quando suas reais atividades foram reveladas, foi um choque para a guerrilha. Ela sabia demais. Ainda tentaram destruir os documentos e os planos que a ligavam aos guerrilheiros, mas não adiantou muita coisa. Em torno desse mesmo período, o escritor Régis Debrey teria sido capturado tentando sair da Bolívia. Sob tortura, Debrey acabou confessando o que já se suspeitava, ou seja, que o comandante “Ramon” era, de fato, Ernesto “Che” Guevara.

                                    Agindo em conjunto com as forças de segurança da ditadura boliviana, os agentes da CIA não pouparam esforços para rechaçar o foco guerrilheiro, sobretudo pela importância que ele assumia, tendo o comandante “Che” Guevara na sua liderança. Ocorreu um expressivo deslocamento de tropas para região, culminando com alguns ataques bem sucedidos, dizimando vários guerrilheiros. Um desses ataques foi no Rio Grande, um rio muito referenciado nos diários do “Che” sobre a campanha da Bolívia.

                                    Isolados na selva, vítimas de uma perseguição implacável, denunciados por camponeses amedrontados, sem recursos, comunicação, alimentos, medicamentos e com a moral em baixa, a luta guerrilheira parecia caminhar para um desfecho trágico. Todas essas dificuldades são relatadas em detalhes nos diários da Bolívia, escritos pelo “Che”, que depois de sua morte teria ficado sob os cuidados de Barrientos, ditador da Bolívia. Com poucos guerrilheiros e empreendendo uma fuga desesperada, “Che” chega ao vilarejo de La Higuera, departamento de Santa Cruz, onde o grupo foi emboscado, refugiando-se nos arredores, mas logo em seguida alcançados por tropas leais à ditadura.

                                    Ferido, Guevara foi capturado ainda com vida, sendo transportado por um brasileiro até uma escolinha no vilarejo de La Higuera. De La Paz, pelo rádio, através de código, veio a ordem para eliminar fisicamente “Che” Guevara. O sargento Mário Terán apresentou-se voluntariamente para a tarefa. Há diferentes versões para a reação de “Che” ao saber que seria morto. Nove de outubro de 1967. “Che” morreu aos 39 anos de idade. Aquilo que os americanos temiam com um possível enterro formal do terrorista Osama Bin Laden, ocorre em relação ao local onde o revolucionário Guevara foi assassinado. Alguns pertences pessoais do guerrilheiro foram preservados e o local é visitado frequentemente por centenas de admiradores do líder argentino-cubano.

Nota do Editor: Em 2011, por ocasião do lançamento do blog, publicamos uma série de reportagens sobre a campanha da Bolívia, uma tentativa de "Che" Guevara em implantar um foco guerrilheiro na América Latina, que envolvesse todo o continente. Por aquela época, sempre com boa recepção do público, publicamos algumas matérias sobre alguns fatos políticos relevantes, entre os quais a "Campanha da Bolívia", baseados em nossos leituras de adolescentes sobre o assunto. A tentativa de implantar um foco guerrilheiro continental a partir da Bolívia, como todos sabem, é marcada por inúmeros problemas, como logística, articulação, apoios, inclsuive envolvendo algumas questões diplomáticas. Estávamos no auge da Guerra Fria e, no tabuleiro das relações internacionais, a então União Soviética havia fechado um acordo com os americanos de não ingerência em sua esfera de influência. Os possíveis aliados bolivianos nunca concordaram com a ideia de que "Che" Guevara liderasse o movimento guerrilheiro, contando este, concretamente, tão somente, com antigos companheiros da Sierra Maestra. São notórias as suas divergências com o líder do Partido Comunista da Bolívia, que não concordava com a ideia. O local, embora isolado na selva boliviana, nas avaliações do "Che" era estratégico do ponto de vista militar, uma vez que se tratava de uma fronteira entre diversos países, além de contar com uma espécie de "fermento" social. Desconfiados de que o "Che" liderava o movimento insurgente, a CIA passou a emprestar total apoio ao exército boliviano. A captura do escritor Régis Debrey confirmaram a suspeita. A investida, então, tornou-se desproporcional, culminando com sua captura e posterior execução. Embora contingenciado diplomaticamente, até hoje se especula se Fidel Castro não poderia ter ajudado o antigo companheiro, praticamente abandonado nas selvas bolivianas. Poder é poder. Já no desfecho da Revolução Cubana, comenta Jorge Castañeda, propositadamente, Fidel ampliou o percurso de "Che" para chegar, sozinho, triunfante, a Havana.

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