segunda-feira, 1 de junho de 2015

Tijolinho Real: E a universidade, quem diria, foi parar na Papuda.


 

São muitos os comentários sobre a crise nas universidades públicas brasileira, embora circunscritos àquilo que poderíamos chamar da ponta do iceberg, como as dificuldades de verbas; indicativo de greve do professorado; travamento da máquina, em função do não pagamento aos terceirizados etc. Mas, a crise que passa a universidade pública não termina por aí. Como já afirmamos em outras ocasiões, com um corte de 13 bilhões do orçamento do MEC, certamente, o futuro ministro Renato Janine Ribeiro vai precisar de muita criatividade pela frente. Seu trânsito e seu conceito no campo acadêmico talvez possam facilitar esse diálogo.

Não queremos aqui partidarizar essa discussão, mas, uma ressalva não pode deixar de ser feita. Os governos da coalizão petista foram muito sensíveis ao pleito da academia.Talvez por isso mesmo tenha havido tanta ponderação em termos de deflagração de uma greve. No tocante à recomposição salarial, inclusive, os docentes tiveram direito a aumentos diferenciados entre as demais categorias dos servidores público do executivo. Os argumentos do professor Daniel Aarão Reis, da UFF, contrário à greve, com link nessa postagem, reforçam essas nossas observações.

Algumas particularidades do campo acadêmico são bastante conhecidas, como os ritos de seleção para os programas de mestrado e doutorado; os critérios adotados na seleção de professores; a clivagem adotada na determinação das  bibliografias, linhas de pesquisa ou definições de cátedras, a "linha de produção" de artigos  etc. O campo acadêmico, entretanto, sempre procurou estabelecer algumas diferenças em relação a outros campos, como o campo da política, por exemplo. Afinal, ali, pelo menos aparentemente, permeava-se alguns princípios mais nobres, como a formação de uma massa crítica, a produção de pesquisa e conhecimento, a preocupação em oferecer subsídios para uma vida melhor em sociedade, entendida aqui em toda a sua complexidade. 

No entanto, dois aspectos mereceram nossas considerações sobre o que anda ocorrendo com as nossas universidades. A eleição para reitores é um deles. Se no campo político isso ocorre por conta da besta fera, tudo sendo permitido, por ali, no campo acadêmico, existia, digamos assim, um certo "pudor" que, gradativamente, está sendo corroído. Hoje as eleições para reitores envolvem acordos espúrios, compra de votos, ofertas de cargos, liberações de editais de bolsas e contratações etc. Seguem, em última análise, os mesmos expedientes adotados pelo campo político, ou seja, o favorecimento e a "proteção" dos vassalos que se submetem ao esquema, que jogam com o mesmo baralho da putaria, com a permissão da licença poética dos nossos leitores.

Há uma espécie de degenerescência da instituição universidade. Há um outro aspecto que todos poderiam concluir como decorrente deste. Num país como o nosso, nenhum campo social parece imune à corrupção. Aqui e ali sabia-se de alguns casos de projetos não executados; da duplicidade no recebimentos de bolsas de estudos; de prestações de contas não concretizadas; de uso indevido de recursos etc. O que há de novo nisso é que esses processos de corrupção envolvendo atores da academia e de outros órgãos "conveniados" estão assumindo proporções assustadoras nos últimos anos. Difícil mesmo é encontrara lisura e respeito ao dinheiro público nesses convênios. 

Um dos grandes mecanismos usados até recentemente eram as chamadas fundações, algumas delas criadas apenas para facilitar as coisas, como posteriormente seria verificado. Não precisa ir muito longe, não. Aqui por perto os exemplos saltam aos olhos. Recentemente, no Maranhão, a Polícia prendeu 04 pessoas envolvidas no desvio de 34 milhões de reais, através de cursos de educação a distância, ligados à estrutura universitária.Viviam uma vida de ostentação. Pois é.Os gestores devem ficar muito atentos a esses tais convênios de conveniências.Mas como, se na maioria dos casos, eles também estão envolvidos?

Sei que este caso que vou relatar aqui é apenas a ponta do iceberg, mas serve como ilustração desses desmandos que estão tomando conta das IFES brasileiras. Uma certa instituição estabeleceu um convênio para a realização de um mestrado profissional. O convênio foi com uma universidade pública federal do Estado. As despesas dos alun@s eram regiamente pagas pela tal instituição, posto que foram selecionados entre o seu quadro de servidores. Num dado momento, descobrimos que um determinado cidadão fez o curso. Detalhe curioso: Nem tem vínculo orgânico com a instituição, tampouco com a universidade. Ficamos com uma pulguinha atrás da orelha. O tal convênio permitia essa "flexibilidade"? Quem custeou esse cidadão? Pay attention, teacher!

P.S do Realpolitik: Encontrei esta foto de Michel Foucault, em visita ao Brasil, num raro momento de descontração. Vamos entrar em contato com os autores para saber mais detalhes sobre este flagrante. Resolvi ilustrar esta postagem com ela, em razão da polêmica criada pelos gestores da PUC/Rio sobre a criação de uma cátedra naquela universidade em homenagem ao filósofo francês. Uma outra razão é que as instituições "corretivas" foram fruto das reflexões do filósofo dos deserdados. Foucault de calça "boca sino"! Pode? Pessoalmente, possuo alguns flagrantes do filósofo marxista, Louis Althusser, curtindo férias aqui no Recife. Impagáveis!

Não deixe de ler também:

Daniel Aarão Reis afirma que greve federal não é legítima 

Nenhum comentário:

Postar um comentário