quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Crônicas do cotidiano: Che, a vida em vermelho.









José Luiz Gomes

A blogosfera nos proporciona momentos de muito prazer. Claro que isso vem acompanhado, por vezes, de algumas dores de cabeça, sobretudo provocadas por essa onda de intolerância que estamos observando no país. Há alguns anos atrás, baseados em nossas leituras biográficas e diários do revolucionário Ernesto Che Guevara, resolvemos narrar, em capítulos, a campanha da Bolívia, onde o guerrilheiro argentino/cubano tombou morto. Por incrível que possa parecer, veio dos Estados Unidos o maior interesse por essas postagens. 

Um cidadão reclamava constantemente que não conseguia acessá-las. Nunca nos revelou qual o seu real interesse nessas narrativas que, embora baseadas em fatos reais, possuía um pouco de ficção. Reconheço que o link de pesquisas do blog é realmente muito falho. Quando se sabe o que estamos procurando, melhor fazer as pesquisas pelo próprio Google. É mais eficiente do que pelo próprio blog.Localizei as matérias e as encaminhei para o admirador americano do Che, que nos encaminhou uma mensagem de agradecimento enaltecendo nossa atenção, mas ainda sem revelar suas reais intenções com aquelas matérias. Não são reveladas ali nada que já não se saiba sobre a campanha da Bolívia, mas...

Há, naquela incursão de Che Guevara pelas selvas bolivianas, enredo para livros e filmes. Um desses filmes, dirigido por Steven Soderbergh e interpretado pelo ator Benício Del Toro, há uma narrativa que envolve a luta do guerrilheiro nas selvas cubanas, até sua morte na Bolívia. Che era um guerrilheiro incorrigível. Nos acordos celebrados com Fidel, ainda no exílio, no México, deixava claro que os seus propósitos seria uma revolução continental na América Latina. A semente revolucionária teria sido plantada quando de suas famosas viagens pelo continente, com o amigo Alberto Granado, que morreu há alguns anos atrás, em Cuba, onde residia. Já vi Diários de Motocicleta, de Walter Sales, penso que cem vezes e ainda me emociona a cena quando ele volta, a nado, já sem forças, para comemorar seu aniversário junto aos doentes de um hospital para tratamento de hanseníase, em Machu Pichu. Um ponto de inflexão definitivo em sua vida, até tombar morto pelos ideais, aos 39 anos de idade.

Esse foi o compromisso para embarcar no Gramma, juntamente com o grupo liderado por Fidel e Raul,  e desembarcarem em solo cubano, subindo as montanhas da Sierra Maestra, e desencadeando o processo revolucionário. Informado pela CIA, como se sabe, a recepção dos exilados em solo cubano foi, digamos assim, "calorosa". Há algumas controvérsias sobre isso, mas apenas 07 guerrilheiros conseguiram sobreviver às forças do ditador Fulgêncio Batista. 83 homens embarcaram no México. Mesmo diante das adversidades, o ímpeto de Fidel era inquebrantável. Seus biógrafos afirmam que ele teria dito aos guerrilheiros sobreviventes, ao saber que apenas aqueles poucos haviam sobrevivido: os dias da ditadura estão contados!

A região inóspita de La Higuera,na Bolívia, não foi escolhida por acaso. Na estratégia de Che, a implantação de um foco guerrilheiro naquela região de campesinato indígena bastante empobrecida- além de ser estratégica no que concerne ao propósito de disseminar o processo revolucionário, posto que se tratava de uma região fronteiriça, inclusive com a Argentina - poderia angariar a simpatia dos moradores do local. Muitos críticos afirmam que ele foi muito infeliz na escolha do local, mas existia, em mente, esses objetivos. A trajetória é contada em nossas narrativas. Havia a suspeita, por parte da CIA, de que Guevara liderava aquele foco revolucionário. 

Essa suspeita só viria a ser confirmada com a captura do escritor francês Régis Debrey, que, sob tortura, confessou que o comandante das operações era mesmo o Che. O fato provocou uma intensa mobilização de tropas, tanto da CIA quando do exército boliviano - na perspectiva de capturá-lo. A ofensiva foi generalizada e eles não resistiram ao cerco. Ferido, Guevara foi capturado e conduzido àquela famosa escola de vilarejo, dizem que por um brasileiro. Lá, ele receberia os tiros que o abateram, desferidos por um agente cubano a serviço da CIA. 

A melhor biografia  sobre a vida de Che Guevara foi escrita por um jornalista americano: Jon Lee Anderson. Ela é mais completa do que a escrita pelo cientista político mexicano, Jorge Castañeda. Salvo algum engano, a razão disso pode ser traduzida pelo fato de que o jornalista pesquisou durante anos nos arquivos cubanos sobre o médico argentino.Ou seja, é o resultado do acesso a um bom material de pesquisa. Em homenagem ao admirador americano do Che, segue a parte final daquelas historietas, onde a morte do guerrilheiro argentino-cubano é narrada.


O elo de ligação da guerrilha  com os movimentos e partidos que faziam oposição à Ditadura Boliviana era um espiã nascida na Alemanha Oriental. Na realidade, uma peça-chave do movimento guerrilheiro, obtendo informações importantíssimas para os insurgentes que se encontravam nas selvas daquele país, em condições sensivelmente fragilizadas, conforme exposto nos capítulos anteriores. 
 
Essa espiã, dizem que muito bonita, conseguiu penetrar no coração do aparato de segurança do Estado boliviano. Vivia uma vida absolutamente normal, frequentava encontros sociais, trabalhava e era casada com um cidadão do país, não levantando, portanto, nenhuma suspeita sobre suas reais atividades. Chegou a manter alguns encontros com os guerrilheiros nas selvas, inclusive com o próprio “Che” Guevara. Durante o período em que teve sua identidade preservada, forneceu informações importantes sobre a movimentação de tropas e os planos oficiais de combate à guerrilha. Incorporou novos combatentes ao grupo e os manteve abastecidos com armamentos, munições e alimentos. 
Em certa medida, cumpria um pouco o papel que a revolucionária Celia  Sánches exercia na guerrilha cubana, resguardando-se o fato de que Sánches, comenta-se, era amante de Fidel Castro. Quando suas reais atividades foram reveladas, foi um choque para a guerrilha. Ela sabia demais. Ainda tentaram destruir os documentos e os planos que a ligavam aos guerrilheiros, mas não adiantou muita coisa. Em torno desse mesmo período, o escritor Régis Debrey teria sido capturado tentando sair da Bolívia. Sob tortura, Debrey acabou confessando o que já se suspeitava, ou seja, que o comandante “Ramon” era, de fato, Ernesto “Che” Guevara. 
 

Agindo em conjunto com as forças de segurança da ditadura boliviana, os agentes da CIA não poupariam esforços para rechaçar o foco guerrilheiro, sobretudo pela importância que ele assumia, tendo o comandante “Che” Guevara na sua liderança. Ocorreu um expressivo deslocamento de tropas para região, culminando com alguns ataques bem sucedidos, dizimando alguns guerrilheiros. Um desses ataques foi no Rio Grande, um rio muito referenciado nos diários do “Che”.


Isolados na selva, vítimas de uma perseguição implacável, denunciados por camponeses amedrontados, sem recursos, comunicação, alimentos, medicamentos e com a moral em baixa, a luta guerrilheira parecia caminhar para um desfecho trágico. Todas essas dificuldades são relatadas em detalhes nos diários da Bolívia, escritos pelo “Che”, que depois de sua morte teria ficado sob os cuidados de Barrientos, ditador da Bolívia. Com poucos guerrilheiros e empreendendo uma fuga desesperada, “Che” chega ao vilarejo de La Higuera, departamento de Santa Cruz, onde o grupo foi emboscado, refugiado-se nos arredores, mas logo em seguida alcançados por tropas leais à ditadura.


Ferido, Guevara foi capturado ainda com vida, sendo transportado por um brasileiro até uma escolinha no vilarejo de La Higuera. De La Paz, pelo rádio, através de código, veio a ordem para eliminar fisicamente “Che” Guevara. O sargento Mário Terán apresentou-se voluntariamente para a tarefa. Há diferentes versões para a reação de “Che” ao saber que seria morto. Nove de outubro de 1967. “Che” morreu aos 39 anos de idade. Aquilo que os americanos temiam com um possível enterro formal do terrorista Osama Bin Laden, ocorre em relação ao local onde o revolucionário Guevara foi assassinado. Alguns pertences pessoais do guerrilheiro foram preservados e o local é visitado frequentemente por centenas de admiradores do líder guerrilheiro argentino-cubano.




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