sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Intolerância: Pai, afasta de nós esse cálice




José Luiz Gomes


Em nossa mensagem aos amigos(as), nesta data do ano, pedi que fizéssemos uma reflexão sobre o problema da intolerância, que parece ter tomado conta do país, do Norte ao Sul. Praticamente todos os dias estão sendo registradas cenas como aquela protagonizada pelos jovens de classe média do Leblon que agrediram o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda. Os petistas e simpatizantes do partido estão sendo agredidos nas ruas, nas livrarias, nos saguões de aeroportos, nos restaurantes. A presença de várias etnias superlotando esses saguões de aeroportos, nessa época do ano - numa evidente demonstração das oportunidades sociais proporcionadas pela Era dos Governos de Coalizão Petista - pouco consegue aplacar a ira de alguns segmentos sociais sobre a suposta associação do partido aos casos de corrupção investigados no país. 

Dada a enorme repercussão do episódio nas redes sociais, muita coisa já foi escrita sobre o assunto, com Rolezinho programado - onde mais de 8 mil pessoas já confirmaram presença - além da solidariedade da atual presidente Dilma Rousseff, e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Da solidariedade dos amigos e admiradores, o compositor Chico Buarque não pode se queixar. Até nessas horas - ou sobretudo nelas - o status social do indivíduo conta bastante. Um internauta observou, não sem alguma razão, que a assessoria da presidente Dilma não teve a mesma agilidade em informá-la sobre a necessidade de manisfestar solidariedade às famílias daqueles 05 jovens chacinados, na periferia do Estado do Rio de Janeiro, por integrantes da Polícia Militar. Até o fez, mas não com a mesma agilidade com que manifestou solidariedade ao cantor.

Há também alguns exageros por aqui, como a conclusão de que o ato poderia representar a gota d'água para o fechamento desse círculo em torno das mobilizações que pedem o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Nada nos sugere - muito menos isso - que 2016, seja um ano sem as conhecidas turbulências econômicas políticas que marcaram o ano de 2015. Infelizmente. Um outro exagero são as chamadas "carteiradas", do tipo: Você sabe com quem está falando? Chico é um compositor, um cantor e escritor consagrado. Quem são seus agressores? filhinhos de papai, playboys do Leblon. Essas carteiradas aproximam o compositor muito mais do antropólogo Roberto DaMatta do que propriamente do seu pai biológico, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda. 

Não seria de bom alvitre criticar a intolerância que recrudesce no país, usando do mesmo expediente, o que contribui, isto sim, para o agravamento do problema, remetendo-o às consequências previsíveis. Falta muito pouco, pois todas as condições estão dadas, para as agressões físicas começarem a ocorrer entre petistas e não-petistas, como bem observou o senador Cristovam Buarque, numa carta endereçada ao cantor. Isso se restringirmos essa disputa entre petistas e não-petistas, pois, se ampliarmos essas manifestações de caráter fascistas para outros segmentos sociais - como homossexuais e grupos religiosos - elas já atingiram esse estágio. Isso é tão sério que alguns grupos na internet postaram alguns vídeos com supostas ilações sobre a homossexualidade de um dos agressores do cantor, numa manobra para desqualificá-lo pela condição de sua opção sexual. 

Repetiu-se com Chico essa onda de agressividade e intolerância dirigida àquelas pessoas diretamente vinculadas ou simpatizantes do PT. Absurdo a proporção que isso vem assumindo no Brasil, dando razão àqueles observadores que afirmam que o monstro do fascismo já está solto entre nós. Antes que nos crucifiquem - um pouco antes da data - desejo informar que não compactuo com os possíveis equívocos do PT na condução da máquina pública, tampouco recebo qualquer tipo de remuneração para defendê-lo, como, normalmente, os comentadores costumam sugerir.Aliás, aqui não há uma defesa do PT, mas dos princípios da convivência democrática que deve prevalecer na relação entre as pessoas.  

Na realidade, nossa preocupação é com essa "onda de intolerância" que tomou conta do país, que pode nos conduzir a índices de violência intoleráveis. Como poderemos conviver sem a aceitação do outro, intransigentemente rejeitando opiniões diversas da nossa ou deixando de se orientar por princípios ou regras que nos conduzam à construção de consensos? Seria a volta da barbárie, do Estado Hobbesiano. Pai, afasta de nós esse cálice fascistoide. 

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