sábado, 12 de dezembro de 2015

Oposição cozinha o golpe em fogo brando

A estratégia adotada por Cunha e pela oposição é protelar tanto o processo do impeachment quanto a cassação do presidente da Câmara.


Najla Passos
Lula Marques
Diário do Golpe – 8/12/2015
Está marcada para esta terça (8) a instalação da comissão especial, formada por 65 deputados, que irá analisar a pertinência ou não do pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, aceito pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O que ninguém sabe é se o procedimento será, de fato, realizado.  Inicialmente prevista para esta segunda (7), a instalação da Comissão foi adiada para as 14 h desta terça por decisão unilateral de Cunha, que descumpriu em uma só tacada duas promessas que fizera na semana passada.
A primeira é a de que os partidos indicariam uma cota pré-fixada de deputados para uma comissão única, que seria aclamada por consenso, conforme acordado pelos líderes na semana passada. Acontece que, mesmo depois de firmarem o acordo, os representantes dos principais partidos de oposição – PSDB, DEM e PPS - decidiram descumpri-lo e, em reunião realizada na tarde desta segunda, convenceram Cunha a apoiá-los.
Agora, esses partidos vão apresentar uma proposta de comissão alternativa - com maioria de membros pró-impeachment, é claro –  para conduzir o processo. E o presidente da Câmara irá submeter a dissidência ao plenário, segundo ele em duas votações diversas: uma eleição e outra eleição suplementar. Com isso, a expectativa dele próprio é que a instalação da Comissão possa acabar ocorrendo só na quarta (9).
“Não posso impedir o direito de um parlamentar de querer propor uma chapa avulsa. Eu preferia que isso não ocorresse e espero que, até amanhã, se consiga compor isso dentro dos partidos. Mas se isso está ocorrendo é porque há dissidência dentro dos próprios partidos. O próprio PMDB, meu partido, indiciou 8 titulares e 8 suplentes para a chapa oficial e para a alternativa”, justificou Cunha.
A segunda é que ele não iria interferir na análise do Conselho de Ética sobre sua cassação, acusação da qual ele não consegue se defender, depois de já ter adiado reuniões, marcados sessões da Câmara para o mesmo horário, entre outros artifícios. Não por acaso, a sessão do Conselho de Ética, adiada na semana passada devido às manobras do próprio Cunha e de sua tropa de choque, também está marcada para ocorrer na tarde desta terça. A tendência, portanto, é que um evento esvazie o outro e ambos acabem adiados.
E se o adiamento da análise do processo de cassação favorece diretamente Cunha, o adiamento da instalação da Comissão Especial do Impeachment favorece a oposição, que têm esperanças de construir um ambiente mais favorável à cassação do mandato da presidenta Dilma do que tem hoje. A aposta dos favoráveis ao impeachment é que o processo seja conduzido por um parlamentar menos queimado do que Cunha, que pode ser preso a qualquer momento.
Aliás, a grande dúvida é por que não foi até agora, já que o argumento que justificou a prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) em flagrante também é mais do que suficiente para embasar a sua: tentativa de obstrução da justiça. A diferença é que a tentativa de obstrução de Delcídio foi flagrado por uma gravação feita por um de seus interlocutores. Já a de Cunha está cravada até mesmo nos diários oficiais da nação, tamanho o número de manobras que fazem parte do seu estilo de presidir a Câmara, sempre em benefício próprio e dos seus.  
A oposição acredita também que, com mais tempo para os monopólios de mídia atuarem na (de) formação da opinião pública, possa conseguir também mobilizar mais do que meia dúzia de pessoas para ir às ruas clamar pelo impeachment. Um trabalho que, até agora, não tem surtido os efeitos desejados. Há um ato pró-impeachment convocado para o dia 13/12, coincidentemente data de aniversário da promulgação do Ato Institucional nº 5, a mais antidemocrática de todas as legislaturas da história brasileira.
A presidenta Dilma, ao contrário dos seus adversários, tem pressa. Nesta segunda (7), defendeu que o Congresso suspenda o recesso tradicional para analisar o impeachment no menor prazo possível. Segundo ela, em um momento como este, de crise econômica e política, não é possível parar o país e esperar que os parlamentares retornem só daqui a dois meses. “Não só prefiro que não haja recesso como acho que não deve haver recesso. Vivemos um momento em que não podemos parar o país até dia 2 de fevereiro”, afirmou.
A presidenta, aliás, começou a semana com uma agenda mais do que positiva: recebeu no Palácio do Planalto um grupo de juristas que evidenciou a ilegalidade do impeachment. À noite, participou da abertura da 10ª Conferência Nacional de Assistência Social, onde recebeu o apoio dos participantes e partiu para o ataque. "Vou lutar com todas as minhas forças para que a gente tenha um Brasil que respeite as instituições, que constrói a estabilidade. Vou lutar contra o processo de interrupção do meu mandato", ressaltou.

Crédito da foto: Lula Marques
(Publicado originalmente no portal Carta Maior)

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