domingo, 21 de fevereiro de 2016

Editorial: De como fui nomeado chefe de gabinete






Há alguns fatos que não poderíamos deixar de comentá-los por aqui, a despeito das inúmeras incompreensões. Creio que, emitir nossas opiniões a esse respeito, certamente, provoca a ira dos poderosos de turno, além do seu séquito de áulicos e aduladores. Mas, isso faz parte do ofício. Pelo menos aquele ofício autêntico, limpo, transparente, de corte republicano, de rabo preso apenas à nossa consciência.É um fato que, nos últimos dias, o mundo político pernambucano foi tomado por um grande rebuliço, com a nomeação de dois filhos do ex-governador Eduardo Campos para assumirem cargos de relevância na máquina pública estadual e municipal, hoje controladas pelos socialistas. João Campos assume a Chefia de Gabinete do governador Paulo Câmara, enquanto sua irmã, Maria Eduarda Campos, assume um cargo de chefia na Fundação Pelópidas Silveira, onde deverá gerenciar as intervenções urbanas na cidade. 

No momento, vamos nos ater à nomeação de João Campos, deixando as postagens sobre a nomeação de Maria Eduarda para uma outra oportunidade, em razão das curiosas "explicações" dos gestores municipais sobre tal nomeação. Os analistas de discurso devem estar com a orelha em pé. Geraldo Júlio que nos aguarde com essa estória de que "isso acontece com milhares de jovens". Não se pode entender a nomeação do jovem João Campos, de apenas 22 anos, para a Chefia de Gabinete do governador Paulo Câmara sem, antes, entendermos o que, de fato, significa o ator político Paulo Câmara, no contexto da reprodução de uma nova(?) oligarquia política em Pernambuco. 

Hoje parece não haver qualquer dúvida sobre o rígido controle, por parte da família Campos,  do espólio político deixado pelo ex-governador Eduardo Campos. Peças estratégicas nesse tabuleiro foram movidas, mas consoante "acordos" previamente ajustados e, a rigor, cumpridos. Pelo andar da carruagem política, essas "peças" sentariam num barra de gelo e só se levantariam dali quando os senhores herdeiros mandassem. Vamos remontar alguns fatos relacionados à ascensão de Paulo Câmara como o "técnico" escolhido pelo ex-governador para assumir o Executivo Estadual.

1.1 - Em primeiro lugar, se nos permite governador, não consigo entender muito bem esse vínculo - quase orgânico - entre o Executivo Estadual e um órgão como o TCE, instância de controle e fiscalização das contas públicas. 

1.2 - Este fato, aliás, conforme sugere analistas políticos como o professor Michel Zaidan, de tão orgânico, tornou-se um elemento "caracterizador" da gestão socialista no Estado. Num livro que escreveu sobre o assunto, Zaidan polemiza sobre este embricamento.

1.3 - Certa feita, comentando sobre o assunto nas redes sociais, um internauta nos alertou sobre a via de mão-dupla, ou seja, os neo-socialistas tupiniquins, na medida em que selecionam quadros daquele órgão para a gestão do Estado e da Prefeitura da Cidade do Recife, também indicam nomes para o órgão, certamente para cargos hierarquicamente superiores.

1.4 - Há um caso curioso, ocorrido na Secretaria de Educação do Município do Recife. Com as contas enredadas em denúncias de malversação de recursos públicos, a "solução' foi convidar um dos conselheiros daquele órgão para assumir a Secretaria Municipal de Educação, quiçá para desbloquear as contas travadas. 

1.5 - Aliás, essa relação entre o TCE e os quadros que formam o núcleo duro do socialismo tupiniquim é bem antiga. Seus principais expoentes vieram daquele órgão, Renata Campos, Sileno Guedes, Milton Coelho, Geraldo Júlio, Paulo Câmara, Danilo Cabral, Tadeu Alencar.

1.6 - Pois bem. Antes de se tornarem militantes, gestores públicos, dirigentes partidários, parlamentares, haviam assumidos, por dever de ofício, a condição de agentes públicos investidos de zelarem pelas contas públicas. Surpreende, portanto, que tantos equívocos tem sido cometidos neste quesito.

1.7- Até mesmo princípios básicos, como o da "razoabilidade", foram solenemente ignorados, dada a evidente demonstração de "inversão de prioridades", tanto na gestão municipal do Recife quando na gestão do Governo do Estado. Num quadro como este, por exemplo, como se explica a suspensão de conclusão de UPAS, quando se honram os compromissos com a construtora da Arena da Copa?

1.8 - Como é possível que tantos equívocos administrativos tenham sido cometidos por pessoas que, em tese, tenham recebido uma sólida formação sobre o assunto, com uma expressiva experiência na máquina? 

1.9 - Nossa experiência como professor em cursos de Contabilidade e Administração nos dão a dimensão de como um percentual expressivo desses alunos demonstram uma certa rejeição às matérias mais identificadas com as "humanas", como Sociologia, Ética etc. Como, sobretudo nas instituições de ensino superior particulares, esses alunos provém dos estratos sociais mais aquinhoados, eles costumam ser bem pragmáticos, preocupados em reproduzir o capital, por vezes o da própria unidade familiar de origem. Explicar a origem do dinheiro na sociedade constitui-se num grande problema, uma vez que a preocupação é apenas ganhá-lo. Isso talvez explique porque tantos escritórios de contabilidade apareçam envolvidos em maracutaias.

1.10 - Afinal, naquela conhecida divisão entre os socialistas locais - onde existe um grupo político e outro técnico/executivo - Paulo era do grupo técnico. Foi escolhido como candidato numa estratégia de Eduardo Campos de manter os aspirantes políticos do grupo sob rédea curtas. 

1.12- Mesmo assim, convivendo com o grupo político - tendo, inclusive alguns deles como assessores próximos - Paulo parece não ter aprendido muita coisa sobre o assunto. Tivesse, pelo menos, lido os artigos do professor Michel Zaidan, e ele entenderia o significado de termos como "liberdade de expressão", patrimonialismo, oligarquização, familismo amoral, nepotismo, capitania hereditária, clientelismo, entre outros.

1.13 - A nomeação de João Campos para a sua Chefia de Gabinete mostra, pelo menos, de imediato, duas coisas: a colisão frontal com os princípios que devem reger ou orientar a regência dos negócios públicos; inabilidade ou fragilidade política, uma vez que fica claro uma ação direta de influência do clã.

1.14 - É relevante também observar a absoluta inconsistência do discurso "meritocrático" da "Nova Política", com o qual, supostamente, os socialistas flertaram. Impressionante a contradição desse discurso, absolutamente desprovido de qualquer consistência quando confrontado com a realidade observada, com as práticas de gestão. Mais do que nunca, se aplica aqui a máxima do filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, que afirmava que toda palavra é uma máscara e todo discurso é uma fraude. Talvez não seja necessário aqui falarmos sobre o "inchaço" da máquina, numa expressão feliz do sociólogo Gilberto Freyre, com os seu conhecidos DASs ou assessores especiais.

1.15 - Para ser mais sincero, um discurso cínico. Com a morte de sua figura de proa, vieram à tona fatos que demonstram o temerário modelo de gestão socialista. Ainda na época em que Eduardo Campos era vivo, indagado por uma repórter sobre o elevado número de cargos de confiança na máquina pública estadual - havia uma secretaria que, sozinha, possuía mais DASs do que alguns Estados da região - ele respondeu que essas contratações se davam pelo critério da competência, quando a gente sabe que não é. Trata-se de arranjos movidos pelo clientelismo político, na primeira instância, e pelo "capital simbólico" ao qual se referia o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que, no caso da província pernambucana, estão bastante imbricados.

1.16 - Como a nomeação de João Campos para a Chefia de Gabinete está ancorada num projeto político, é fato que ela evidencia a hegemonia e manutenção dessa oligarquia política no Estado de Pernambuco. Mas isso ainda precisa ser combinado com o eleitorado. Se ele se der conta dos malefícios de entregar a gestão de uma máquina pública a um núcleo familiar, para o bem de nossas instituições, talvez isso possa ser revertido.

1.17 - Na estratégia dos socialistas, o plano já esta rigorosamente traçado. Está reservado a João Campos o mesmo percurso político do pai, que começou a vida pública na condição de chefe de gabinete do avô, Dr. Miguel Arraes. Como ainda é muito jovem, passaria um estágio no Legislativo e se habilitaria a suceder o senhor Paulo Câmara no Palácio do Campos das Princesas(ops, perdão!). Salvo engano, Paulo já teria feito alguns comentários até mesmo para as eleições de 2018, mas acredito que eles ainda não usarão a bala de prata naquele ano. Repito, isso ainda precisa ser combinado com o eleitorado, numa era de comunicação em rede. E olha que, pelas redes sociais, a hashtag #meuprimeiroemprego alcançou uma enorme repercussão. Até nós fomos instigados a nos pronunciarmos a este respeito. Volto a falar sobre o assunto numa outra postagem, mas antecipo que não contamos com nenhum apadrinhamento.

1.18 - Em décadas passadas, o professor Manuel Correia de Andrade foi convidado por Arraes para ocupar um cargo no governo. O convite se deu, segundo ele nos confidenciou, em razão dos seus estudos sobre a região Nordeste, com diversos livros publicados sobre o assunto. Parece que Dr. Arraes era mais criterioso. Conta Manuel que, no primeiro encontro no Palácio do Campos das Princesas (ops! de novo!), externou para Arraes o seu desconforto com o convite, posto que era um homem de livros, não entendia nada das manhas da política. Depois de ouvi-lo, Arraes, como de costume, coçou o queixo, pigarreou e sapecou: Quando receber algum político e precisar negar o seu pleito, negue, mas ofereça um cafezinho. Duas coisas nos ocorrem de imediato: Quem seria o mentor político de João Campos? Paulo Câmara? quantos "cafezinhos" seriam oferecidos a esses políticos com o propósito de pavimentar a carreira político do jovem sucessor do clã?      

    

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