quinta-feira, 31 de março de 2016

A História não nos absolverá


O futuro olhar dos historiadores depende, em grande parte, da luta política. Então, lá vai o meu conselho: caro amigo, não espere o julgamento da história.


André Roberto de A. Machado
reprodução
Em outubro de 1953, um Fidel Castro, jovem e ainda sem a inseparável barba, iniciava a sua autodefesa. O que estava em questão era a tentativa de assalto ao Quartel Moncada, a primeira ação espetacular em que ocomandante lideraria os cubanos na tentativa de derrubar o regime do ditador Fulgêncio Batista. Nada poderia indicar que aquela fala se tornaria célebre, transformada em livro com traduções em diversas partes do mundo. Afinal, o cenário era surreal: Castro fazia a sua defesa em um hospital em que estava internado, artimanha do regime para reduzir a repercussão do processo. Também não fazia uma autodefesa por se imaginar genial, mas porque o acesso aos advogados era dificultado pelo governo. A defesa é um texto de mais de setenta páginas, para não desmentir a fama dos discursos intermináveis de Fidel, que pode ser encontrada hoje em livros ou mesmos em cópias integrais na internet. Não há dúvida que o que chama a atenção no texto é a firmeza do jovem advogado que, em uma situação totalmente desfavorável, acua os seus julgadores. O maior símbolo disso é o desfecho intimidador da defesa: “Condenem-me, não importa. A História me absolverá”.
 
Os argumentos e a lógica da defesa de Fidel Castro buscam a história como lastro a todo momento. José Marti, um dos mártires da luta pela independência cubana é citado, aliás como ainda hoje é comum entre os governantes da ilha. Na defesa de Fidel, é clara a tentativa de transformar o assalto ao quartel Moncada em uma retomada dos ideias de Marti. Ainda mais do que isso, Castro põe a sua luta como um processo progressivo da humanidade em busca da liberdade. Assim, retoma o que seria seu início mais imediato nas Revoluções Inglesas, passando pela queda do Absolutismo e nas independências americanas. Por um lado, fiava-se em valores que descrevia como universais e imutáveis. Buscava exemplos até na Antiguidade, para demonstrar que o direito à rebelião contra a tirania era reconhecido nessas sociedades. Por outro lado, é nítido que Castro compartilhava da visão de uma história em contínuo progresso. Dentro dessa lógica, defendia estar lutando pelos valores mais avançados que seriam historicamente necessários sob o risco de um retrocesso. Na sua ótica, isso tornava a sua luta justa. 
 
Por isso, para Castro, não importava a opinião dos seus juízes: a história, pensava ele, o absolveria. Apesar das várias citações históricas ao longo do texto, não há dúvida que é essa afirmação, inclusive transformada em título da defesa, que torna o discurso tão impactante. Isto porque há algo no nosso imaginário sobre a história e os historiadores que dá potência a essa sentença. De toda forma, como se sabe, Fidel espertamente não esperou o julgamento da história. Alguns anos mais tarde, fez ele mesmo a história, derrubando Fulgêncio Batista e instaurando uma revolução em Cuba. 
 
A História como juiz

 
A frase de Fidel encontra tanto eco em nosso imaginário porque, de fato, a maioria de nós imagina a história como um juiz. Para isso contribui a ideia de isenção do historiador e distanciamento dos fatos. Não é à toa que durante muito tempo pregou-se abertamente que os historiadores só deveriam tratar de fatos muito distantes do seu tempo, talvez 50 ou 100 anos para aqueles que trabalhassem com assuntos “recentes”. Só há pouco tempo temos no Brasil, por exemplo, revistas especializadas no que chamamos de “história do tempo presente”, discutindo-se episódios muito atuais. 
 
Mesmo que o tratamento de temas recentes não seja mais um tabu absoluto entre os historiadores, apesar de algumas resistências, o que ainda predomina é a ideia de que assuntos polêmicos, especialmente em tempos de crise, serão revisitados décadas depois por nossos filhos ou netos, amparados em documentos que lhe permitirão enxergar o que nós, no meio das disputas políticas, não conseguimos discernir. 
 
Essa ideia da história como juiz, como aquele que paira sobre as paixões políticas, nunca esteve tão presente como nos últimos dias em razão da alta polarização política que estamos vivendo. Na base da sociedade esse é um discurso recorrente no nosso grande botequim: as redes sociais. Nas últimas semanas, há várias e várias sátiras, uma hora pensando nas dificuldades dos futuros professores de história para explicar o que está acontecendo agora, outras dizendo como serão muito mais difíceis as questões de história do ENEM daqui a vinte anos, quando se tiver que responder perguntas sobre o que a política brasileira de hoje. Em todas essas piadas, revela-se a permanência dessa perspectiva básica sobre a história: em primeiro lugar, isso só será alvo de debate no futuro, talvez daqui a vinte anos. Em segundo lugar, a esperança comum é que os historiadores consigam dizer o que está acontecendo, uma vez que não estarão mais premidos pelos conflitos de hoje. 
 
Na verdade esta é uma percepção que não está presente apenas nos memes e hashtags. Há epidemia desse discurso entre os políticos e até mesmo entre os jornalistas. Em fevereiro de 2016, ao analisar o acirramento dos ânimos políticos, o ex-ministro Cid Gomes ancorou-se nessa lógica: “(...) Acho que a história irá reservar ao Lula o lugar que lhe é merecido: nem o Deus do pós-eleição Dilma, nem o diabo agora”. Em 2015, logo após Michel Temer entregar sua famosa carta a presidenta Dilma, para a alegria do anedotário nacional, o ministro Miguel Rossetto condenou a ação do vice-presidente dizendo que seria a história que julgaria as ações dos políticos. O próprio Lula, em mais de uma ocasião, disse que esperava da história um julgamento justo do seu governo. Poucos dias atrás, o jornalista Kennedy Alencar – talvez tomado pelo clima de Brasília – usou um raciocínio semelhante ao dizer que um possível impeachment da presidenta Dilma seria julgado pelo “olhar impiedoso e desapaixonado da História”.  
 
É bastante curiosa a sensibilidade que os políticos têm em relação a esse julgamento da história. Para quem trabalha com história política, em muitos casos é visível o esforço de políticos e de instituições para produzirem registros que serão mais tarde usados por historiadores, o que aumenta as dificuldades de interpretação dos eventos. E não é só em tempos de crise ou de aumento das polarizações que isso se revela. Fernando Henrique Cardoso se queixava dos professores dos seus netos pela forma como ensinavam aos alunos a história do seu governo. No filme Selma, de Ava DuVernay, a narrativa constrói a ideia de que, além da repercussão mundial em torno da repressão à marcha dos negros em Selma, um dos fatores que teriam feito o presidente Lyndon Johnson rever as garantias do direito ao voto dos negros americanos  seria a insistência de Martin Luther King de que ele deveria se preocupar em como seria retratado pela história.  
 
Se isso realmente pesou para a decisão de Lyndon Johnson, pouco importa aqui. Muito mais importante é destacar que este é um argumento crível para um filme de distribuição mundial. 
 
A História não é juiz...
 
Não, os historiadores não escrevem o que lhes dá na telha, o que desejam, o que acreditam, o que acham. Toda a obra historiográfica precisa ter um lastro em documentos, em dados, o que comumente generalizamos como fontes. Fora disso, o que temos são obras de ficção e aos interessados nesse tipo de literatura recomendo a leitura de romances, ao invés de engodos historiográficos. Isto não quer dizer que o historiador seja isento, pois o documento, o dado não faz nenhum sentido sem uma interpretação. Por exemplo, parece fora de questão que os portugueses chegaram em 1500 na região onde hoje é a Bahia. Mas o que isso significou? A descoberta do Brasil? Mas existia o Brasil ou esse território estava fadado a ser o Brasil? Foi uma descoberta? Foi uma conquista? Foi o início de um massacre? Foi o pontapé para a transposição de uma civilização europeia para os trópicos, ou a montagem de uma engrenagem de exploração econômica da América pela Europa? Veja que não há como historiador pensar esse momento histórico, ou mesmo narrar esses fatos, sem se posicionar em relação ao seu significado. 
 
O mais interessante a se pensar é que as próprias perguntas do historiador só são possíveis em determinados momentos históricos. Dias desses um acontecimento fortuito me lembrou a infância. Fazendo um descarte de muitos e muitos papéis, localizei um caderno que tinha sido do meu irmão caçula e que guardei porque tinha anotações das minhas impressões sobre um livro ou algo assim. A parte do caderno que cabia ao meu irmão e tinha mais de vinte anos (sim, sou um acumulador), eram páginas e páginas de textos de história, provavelmente o registro ainda comum da odiosa prática de obrigar os alunos a copiarem trechos de livros didáticos repassados na lousa pela aluna mais boazinha da classe, a mesma que depois passará o final de semana fazendo a sua cópia no próprio caderno. Ao ler aleatoriamente essas anotações, me deparei com um tópico: o que é o fato histórico? E dei boas risadas ao ver que o texto era tal qual eu me lembrava da infância. Em resumo, e certamente muitos leitores se identificarão, o texto alegava que interessava para a história apenas o que dizia ser um fato histórico. Por sua vez, o fatídico fato histórico seriam os grandes acontecimentos produzidos pelos grandes homens. Mais ou menos nessa linha, dizia que um acordo entre presidentes era um fato histórico, mas eu comer toda quarta-feira uma feijoada, não. 
 
A lição era bem clara: a história é feita pelos grandes homens, presidentes, príncipes, não por vocês, guris. A não ser na condição de coro grego ou daquele figurante que faz o papel do morto. Boa parte da historiografia brasileira se fez nesse tom e até hoje mesmo estratos mais ilustrados da nossa sociedade enxergam episódios capitais da história brasileira como um xadrez entre as elites. É assim, por exemplo, em relação à independência, ainda tida por muitos como uma operação palaciana, ou talvez um acordo entre grandes senhores de terra. No entanto, hoje nesse e outros episódios sabemos muito mais sobre a participação de outros grupos sociais. Documentos demonstram que negros, índios, trabalhadores a jornal, entre outros, não eram “bestializados” e tampouco ficaram restritos ao papel de perplexos, como o que Pedro Américo reservou aos vaqueiros no famoso quadro “Independência ou Morte”. Ao contrário disso, vemos como os índios negociavam politicamente desde o início da colonização, assim como os escravos não estavam destinados apenas a escolher o papel entre o Zumbi e Pai João, entre o guerreiro e o que se submete. Todos esses homens tinham uma leitura dos fatos políticos, ainda que essa não fosse igual ao dos ilustrados.
 
...É parte da luta política
 
O importante a se perceber é que esses personagens não apareciam antes na nossa história e nossos livros didáticos porque essas perguntas não eram possíveis. Os movimentos sociais, a luta dos negros, dos índios, das mulheres, o avanço das liberdades, enfim tudo isso muda o quadro das perguntas do historiador. Exemplo prático disso é a evidência de que os nossos estudos sobre a África foram impulsionados na universidade a partir de reivindicações da educação básica e a implementação da obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana nas escolas. É essa preocupação não só com outros grupos sociais, mas também com o cotidiano, que vai mudando as nossas perguntas. É isto que torna até a minha feijoada de quarta um possível objeto de estudo, tanto para uma cada vez mais interessante história da alimentação ou mesmo como mote para estudos sobre o abastecimento. 
 
Além disso, evidentemente, a história também pode ser moldada pelo poder. Vale a pena lembrar que D. Pedro I patrocinou o Visconde de Cairu na elaboração da primeira história do Império do Brasil, aliás fato muito questionado pelos pares do Visconde no Parlamento. Mais tarde, nosso segundo imperador não se conteve em apenas patrocinar o nascente Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, que existe até hoje e no século XIX era o principal órgão de produção historiográfica no Império. Ao invés disso, D Pedro II trouxe a sede do IHGB para o próprio Paço, onde não só assistia como opinava sobre os encaminhamentos do Instituto, além de provavelmente dar suas famosas cochiladas. O próprio sítio do Museu Paulista e do Monumento à Independência só foi possível pela persistência de grupos paulistas em firmar o sete de setembro como data nacional, a despeito do papel secundário que teve em boa parte do século XIX. Por sua vez, a própria narrativa do Monumento, aliás muito visitado por alunos indefesos, imprime em bronze, para toda a eternidade, um discurso que beira o ridículo. Transformar os revolucionários pernambucanos de 1817 ou mesmo Tiradentes em ardorosos defensores da Independência do Brasil só demonstra como, em muitos casos, fazer história é esquecer.
 
Mas não é preciso ir ao século XIX para discutir isso. Há dois acontecimentos que ocorrem agora e ilustram como a construção da história é um pedaço da luta política. De um lado, teve ampla circulação a notícia de que o Ministério Público Federal de Mato Grosso, baseado em uma reportagem de uma revista, iria abrir uma investigação sobre os livros de História recomendados no Programa Nacional do Livro Didático sob a suspeita de que eles não eram plurais politicamente. Quem definirá o que é a régua da pluralidade política do historiador? Supõe-se que o Ministério Público agora criará um critério análogo ao dos debates pré-eleitorais, obrigando-se que nos livros de história mencione-se qualidades e despautérios em equilibrada quantidade para diferentes governos ou políticas econômicas. É uma nova história, em que todos os governos são igualmente bons e ruins.
 
Outro acontecimento importante é o debate da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que servirá de parâmetro para o ensino de História na educação básica. A proposta inicial foi muito atacada na imprensa, por alguns entenderem que se diminuía o peso do estudo da História Europeia. O próprio ex-ministro da educação, o filósofo Renato Janine Ribeiro, se disse horrorizado com a possibilidade dos alunos não aprenderem mais sobre o Renascimento. Os defensores da nova proposta curricular, no entanto, argumentam que não se trata de uma supressão da história europeia, mas de trazer para o centro do debate novos personagens como os indígenas, os escravos e a história africana. Lembram ainda que, os que lamentam pela diminuição de tópicos da história europeia, nunca se importaram com o fato de não se discutir nas escolas, por exemplo, a história dos povos indígenas e as consequências do seu contato com os brancos, ou mesmo a história de outros continentes como a Ásia. Quando o leitor estudou a história dos indígenas nos bancos escolares para além da Primeira Missa ou a fundação das reduções jesuíticas? O que você sabe sobre a História da China? 
 
Evidentemente, as discussões sobre o BNCC estão muito simplificadas acima e merecem um artigo específico. Mas não é por acaso que tenha sido justamente na área de história que está acontecendo o debate mais acalorado na imprensa. Se a BNCC tem um mérito inegável, é o de lembrar que ensinar história é fazer escolhas, é imprimir sobre o passado um olhar. Quem vencer essa batalha certamente terá uma influência decisiva nas perguntas dos futuros historiadores. 
 
Assim, o futuro olhar dos historiadores depende, em grande parte, da luta política. Então, lá vai o meu conselho: caro amigo, não espere o julgamento da história. Como diz a canção, hoje tão atual, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.       
 
André Roberto de A. Machado é historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo

(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)

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