quarta-feira, 2 de março de 2016

Editorial: A quem interessa uma Polícia Federal republicana?





Ainda repercute bastante a saída do Ministro José Eduardo Cardozo, do Ministério da Justiça. Cardozo afasta-se da pasta da Justiça, mas não sai do Governo. Dilma o indicou para a Advocacia Geral da União, onde deve ajudar o Governo em questões relacionados, por exemplo, ao pedido de impeachment da presidente. Creio que, daqui para frente, muita água há de rolar no rio da História, envolvendo esse episódio. Há vários ângulos por onde a questão pode ser observada, assim como acuidades distintas, dependendo da posição do observador, da capacidade de sua lupa e, principalmente, do seu interesse em enxergar os fatos em sua inteireza.

Para a oposição, a manobra é taxativa: Cardozo caiu em razão das pressões exercidas pelo ex-presidente Lula e setores do PT, com o propósito de promoverem um freio de arrumação nas investigações da Operação Lava Jato, bem como outras operações da PF onde o nome de Lula aparece envolvido. Ele não comandava a Polícia Federal. Aliás, dizem, as rusgas entre Lula e Cardozo são antigas, remontam ao período em que ele ainda exercia o cargo de Presidente da República. Cardozo já havia manifestado o desejo de sair do cargo, em mais de uma ocasião. Sua indicação para a OGU indica que ele ainda continua prestigiado junto à presidente Dilma Rousseff. 

Este é um momento fértil, por exemplo, para as teorias conspiratórias, alimentada por setores da mídia golpista e sensacionalista, informando que Cardozo temia ser morto. Temia que ocorresse com ele o mesmo que ocorreu com aquele promotor argentino, que amanheceu morto num dos cômodos de seu apartamento, Alberto Nisman. Há um pouco de exagero por aqui. Nesta tecla, a oposição vai bater sempre: Cardozo caiu porque a Polícia Federal, com as suas investigações, estaria constrangendo Lula. Vão dizer que se trata de uma polícia de Governo e não de Estado, como deveria ser. Aparelhada e instrumentalizada. 

Aqui, de fato, chegamos ao ponto que interessa: A Polícia Federal é uma polícia republicana? Age preservando os interesses do Estado e não de acordo com as conveniências dos governantes de turno ou dos grupos de interesses ligados a ele? Digamos que a Polícia Federal ainda não tenha atingido, ainda, aquele índice de republicanismo ideal ou aquele que desejamos para a saúde de nossas instituições democráticas. É aqui que a porta torce o rabo, tucanos, sobretudo se analisarmos suas operações nos últimos anos, inclusive as que, supostamente, vão de encontro aos governos de coalizão petista. 

Aqui para nós, não faz o menor sentido essa queixa dos tucanos em relação a um possível aparelhamento da Polícia Federal nos governos da coalizão petista. Ao contrário do que sugerem os tucanos, a PF nunca teve tanta liberdade de ação em suas investigações. Tanto é assim que chegou à cozinha do Palácio do Planalto, atingindo um ex-presidente da República. O que nos parece preocupante, isto sim, é a morosidade de suas operações e investigações quando os envolvidos são tucanos do bico fino. Eles estão, portanto, desautorizados de falar em termos como: Republicanismo, Polícia de Governo, Aparelhamento, entre outros. Saindo do bico de um tucano, soa falacioso, fraudulento, inconsistente. 

Na nossa opinião, a Polícia Federal precisa da liberdade de ação necessária para o exercício de suas funções, orientadas por procedimentos legais, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Estado Democrático de Direito. Ou seja, suas ações precisam estar amparadas legalmente. Seus excessos também precisam ser coibidos. Os tucanos sabem muito bem como eles exerciam influência sobre aquele órgão. Na realidade, a bem da verdade, uma PF republicana nunca interessou aos tucanos. Que hipocrisia é essa agora? As lideranças sindicais da categoria manifestam posições claramente anti-petista. 

Até recentemente, ficamos sabendo que saiu a punição para aquele policial federal que, nas eleições passadas, utilizou uma foto da presidente Dilma, como alvo, num stande de tiro. Devido às ingerências no órgão, não era incomum, num passado recente, as expressões: Polícia Federal do Serra, Polícia Federal tucana, um indicativo das simpatias ou ligações dos seus delegados por este ou aquele político.

Uma polícia federal que pode atuar consoante as circunstâncias políticas não é privilégio nosso, embora, aqui, por inúmeros fatores, essa vulnerabilidade seja muito difícil de ser corrigida. Quando, no início da década de 70, estourou o escândalo político denominado de Watergate, que afastou Nixon da presidência dos Estados Unidos, ganhou destaque na imprensa uma figura do alto escalão do FBI, até então conhecida como "Garganta Profunda". Depois, revelou-se tratar-se de Mark Felt, já falecido. Aliás, sua verdadeira identidade só foi revelada um pouco antes de sua morte. Foi Felt quem revelou aos repórteres do Washington Post, todas as tramas que estavam por trás do arrombamento do escritório do Partido Democrata, que ficava no Edifício Watergate. Nixon sabia das operações ilegais. 

Na realidade, não se tratava de um arrobamento qualquer, mas de uma ação de espionagem do comitê de reeleição de Nixon, envolvendo agentes do FBI. Acossado por essas denúncias, Nixon renunciou antes de ser deposto. À época, o escândalo expôs as fragilidades das operações de um órgão como o FBI, a Polícia Federal Americana. O mais importante, no entanto, foram as possíveis motivações de Felt, que não tinham nada de republicanas. Felt era movido pelo ressentimento. Fora preterido por Nixon em sua ambição de dirigir o órgão. 

Este relato vem a propósito de se entender como é complexo a teia de interesses que estão envolvidas num órgão como a Polícia Federal. Convém aos tucanos tirarem as traves dos seus olhos, porque, de fato, nunca interessou a eles uma Polícia Federal de corte republicano. Uma Polícia Federal republicana interessa ao serviço público, interessa à sociedade brasileira. Aos tucanos, não.  


Um comentário:

  1. O problema amigo é que os fatos são de uma quantidade fantástica. E a oposição, bolas, tem que fazer oposição, aliás como o PT na época dos tucanos. Corrupção sempre existiu e sempre existirá, e deve ser combatida em termos republicanos, ou seja, institucionais. Mas os tucanos, até onde eu saiba, não fez da corrupção um projeto de poder. Ao contrário os tucanos fizeram a transição para o PT até alegremente, e com a máxima transparência. Achavam que seriam bem tratados pelos co irmãos esquerdistas do PT. Ledo engano. Ademais, por que o PT não investigou? Prevaricou?

    ResponderExcluir