quinta-feira, 14 de abril de 2016

É HORA DE SUJAR AS MÃOS. Impeachment. Day After e...Mais Além





Fernando Magalhães.


Num texto célebre, e bastante divulgado, Marx (1968, p. 15) declarou que os “homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem nas circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam, ligadas e transmitidas pelo passado”. A despeito das opções limitadas, interpreto esta frase, extraída de “O 18 Brumário de Luiz Bonaparte”, como uma convocação às transformações sociais sob condições possíveis e adequadas, à medida que não dominamos os acontecimentos que nos antecedem. 

Contudo, herdar um evento do qual não tivemos participação, não constitui obstáculo para assumir as rédeas de uma trajetória político-econômica. Marx, porém, tem um predecessor de talento em relação as suas observações. No penúltimo capítulo de seu livro “O Príncipe”, intitulado “De quanto pode a Fortuna nas coisas humanas e de que modo se lhe deva resistir”, Maquiavel, esse grande patriota, muito (mal) falado, pouco lido e, menos ainda compreendido – mais de 85% de seus comentaristas atuais o consideram um republicano que pretendia unir sua pátria para fazer frente às invasões estrangeiras, particularmente Espanha e França, diante de uma Itália desunida e dilacerada –, atestava: “Não me estranha que muitos têm tido e ainda possuem a opinião de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna [o acaso, o inesperado, na terminologia maquiaveliana] e por Deus, de tal modo que os homens, mesmo com sua prudência, não possam alterá-la nem evitá-la por qualquer meio; por isso seria possível imaginar que não conviria investir muito na coisas, mas deixar-se governar pela sorte(...).

Pensando nisso inclinei-me, por vezes, a admitir essa opinião. Não obstante, para que o nosso livre arbítrio não seja extinto, julgo poder ser verdade que a fortuna seja árbitro da metade das nossas ações, e que ainda nos deixe governar a outra metade, ou pelo menos próximo (“presso”) a isso (MACHIAVELLI, 1992, p. 295). Isso significa, para ambos os autores, que temos condições de tomar o curso da história em nossas mãos, domá-lo e dirigi-lo, ainda que o resultado final seja incerto. Acredito que, mais do que nunca, é hora de levarmos a sério as expressões políticas desses dois grandes vultos da ciência e filosofia políticas. Não há escolha aleatória, ou mesmo destinada a esperar o momento propício para decidir o “que fazer”. 

A história não contempla, ou melhor, não concede prêmios (nem perdoa) os indecisos. “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”, proclamava o poeta. Nesse aspecto, um grande “evento”  bate à nossa porta: a  2 Escrevo o termo evento em letras minúsculas e aspeado para distinguir do belo conceito que lhe empresta o filósofo francês, Alain Badiou (2010, p. 203,220), em seu magnífico trabalho sobre o nascimento desse acontecimento: “O Evento é um sítio, um acontecimento singular que se manifesta por si mesmo no aparecer de 2 possibilidade de expulsar de nossa casa, o pouco que resta das conquistas pós-ditadura de 64, isto é, nossa tímida e frágil democracia, e com ela as liberdades individuais e civis violentadas cotidianamente, inclusive por magistrados que não respeitam as leis do país e aviltam a Constituição. 

O evento que falo, neste momento, é o golpe de Estado a ser perpetrado pelas elites políticas e econômicas brasileiras e suas perpétuas aliadas de todos os instantes: a mídia e a direita. Em outros termos, vivemos um período de grave crise política e institucional, em que se procura depor uma presidente, legitimamente eleita pelo voto popular, por um “impeachment” sem fundamento jurídico ou moral, o que já serviu de ironia para que um cientista político pernambucano (Michel Zaidan) parodiasse Pirandello em um pequeno artigo publicado num blog (Blog Síntese) com o sarcástico título: “Um Impeachment à Procura de um Crime”. Impeachment ou golpe? O que esperar do dia seguinte, qualquer que seja o resultado da votação no Congresso? Esta introdução serve de amparo político ao ensaio que se segue. 

O trabalho, em boa parte, não constitui novidade, à medida que data, em sua gênese, de 2006, uns poucos meses antes das eleições presidenciais daquele ano. A inexistência do Facebook, e a extensão to texto, impediram uma maior divulgação. Finalizadas as eleições, não havia razões para uma publicação em revistas acadêmicas, e as considerações apresentadas limitam-se aos grupos de endereços eletrônicos – os e-mails, hoje quase esquecidos – reproduzidos, no período que antecedeu as eleições, pelos amigos (e os amigos desses) entre si. Relendo-o por acaso (nem tanto; descobri-o vasculhando os arquivos do meu computador no esforço para encontrar notas e documentos que me auxiliassem na elaboração de um texto), percebo que permanece atual, ainda que o tempo tenha modificado, relativamente, o conteúdo, em função das alterações políticas, econômicas e sociais determinadas pela realidade. 

Assim, repito em parte, a versão anterior nos momentos necessários, muito embora veja-me obrigado a acrescentar dados novos e modificar a estrutura fundamental do artigo tendo em vista os anos que nos separam (e as condições que mudaram o clima eleitoral e político de ambas as épocas). A pós-modernidade encarregou-se de eliminar o antigo dilema entre a tragédia e a farsa. Em nossos dias, ambas andam de mãos dadas. A globalização, em seu papel de alcoviteira universal, esconde que a corrupção não é “privilégio” brasileiro – que o diga a explosão detonada pelo mais novo escândalo internacional: o PANAMA PAPERS – e, muitos de seus próprios epígonos, hoje arrependidos, procuram purgar os seus “pecados” orando contra os deuses do mercado. 

As redes sociais contribuíram para suprir uma lacuna antes existente: a desinformação generalizada da população, inclusive dos próprios intelectuais. Denuncia-se, no presente, o que a grande imprensa internacional jamais teve coragem de mostrar, exceto em raras notas em páginas secundárias dos jornais nacionais. Joseph Stiglitz, ex-economista-chefe do Banco Mundial, revela como os governantes americanos (leia-se Clinton) corrompem os parlamentares no Congresso americano, cujo “valor da compra” envergonha qualquer “mensalista” brasileiro. E vai mais além. 

Em seu livro, Os Exuberantes Anos 90 (2003, p. 270-275), ele desmistifica o estilo americano apontando a suspeita relação entre as fraudes nas grandes empresas e o apoio às candidaturas ao maior cargo do país, particularmente aqueles que se vinculam a Bush. uma situação; é fazer aparecer no mundo algo que não existia anteriormente”. Badiou referia-se, na citação, ao nascimento da Comuna de Paris, em 1871. 3 Não é apenas no Brasil que a memória é curta e o desconhecimento é grande O escândalo proporcionado pela Enron no exterior, particularmente na Índia, é hoje esquecido por políticos e Chefes de Estado em todo o mundo. Os telefonemas que saíam dos gabinetes presidenciais (Bush e Clinton), estranhamente sempre por funcionários menos graduados, pressionavam os clientes em nome da empresa, coincidentemente financiadora dos grandes partidos estadunidenses. 

Dentro desses dois governos, a lista dos que recebiam “propinas” (Stiglitz usa o termo “dinheiro”) da empresa era longa. Incluia, até mesmo, Lawrence Lindsey, presidente do Conselho Econômico Nacional, e o Procurador Geral da Justiça, John Aschcroft que recebeu, em 2000, uma contribuição da companhia de U$ 574.000,00 – bastante dinheiro para a época. Para manter a influência da Enron, o governo a auxiliava com assistência financeira “pública” de U$ 3,6 bilhões. É o capitalismo de compadres, como ele qualifica. Simultaneamente, o cineasta Michael Moore, em seu documentário, Capitalismo, uma história de amor, escancara para o mundo a verdade sobre a fraudulenta vitória de Bush em sua primeira eleição. 

O juiz que ordenou o cancelamento da recontagem de votos, na Flórida, era pai de um dos advogados das empresas de Dick Chaney, vice-presidente dos Estados Unidos. A essa altura assaltam-me duas breves perguntas: 1) Tem alguém na prisão? 2) Houve pedido de impeachment? Afinal, como muitos dizem por aqui: se isso fosse nos Estados Unidos já estariam presos. Na Itália, Berlusconi, enquanto Primeiro-Ministro, ordenava às autoridades a retirada da escolta de um dos juízes que faziam parte da “operação mãos limpas”, que prendeu vários chefões da Máfia, porque aquele atreveu-se a investigar movimentações financeiras suspeitas em suas empresas de comunicação (Berlusconi é o maior proprietário de jornais e canais de televisão da Itália). 

Permitam-me, aqui, um rápido parênteses, uma vez que o assunto merece atenção. Num artigo intitulado MÃOS LIMPAS E LAVA JATO, publicado recentemente, no Blog O Cafezinho, meu amigo e professor da UFPB, Giuseppe Tosi, italiano de origem, mas brasileiro por opção – está há mais de 20 anos no país – demonstra, olhando os fatos à distância de duas décadas, a situação em que ficou a Itália após a operação “mani pulite”. O resultado foi o desmoronamento de todo um sistema político e sua substituição por outro muito pior. A corrupção não só continua como se agravou. E foi no vazio desse sistema partidário que a política foi preenchida por Berlusconi e sua aliança com as organizações fascistas. 

Adicionalmente, Tony Blair, no Reino Unido, falsifica um relatório para auxiliar a farsa montada por Bush para invadir o Iraque, e Asnar, antes de perder o posto, na Espanha, proíbe a imprensa de divulgar a origem dos atentados e cria versões oficiais por medo de perder as eleições. Mas são “estadistas” do primeiro mundo e, consequentemente, estão “isentos” de atos de corrupção. É suficiente, porém, membros de um partido dito de esquerda, numa zona de países emergentes, que perde o rumo de casa e seus princípios, enveredar pelo mesmo caminho (neoliberalismo e corrupção) para que se considere que toda a esquerda esteja corrompida. A direita não está habituada a ficar fora do poder. Seu instrumento principal é o terror, seja lá qual for o sentido que se dê a esse termo. 

Hoje, grande parte da direita, predispõe-se à ofensa física e ao comportamento fascistizante. Em algumas regiões nacionais, especialmente São Paulo, é quase “proibido” usar uma peça de vestimenta vermelha sem sofrer algum tipo de agressão. Ela (a direita) não só corrompe populações inteiras como assassina multidões em todo o mundo por meio da simples busca do lucro. Cerca de 500 crianças morreram em um ano no Iraque devido ao embargo de medicamentos por questões de patente; e isso bem antes dos acontecimentos de 11 de setembro. Quando alguns anos atrás, a África do Sul solicitou o 4 licenciamento de medicamentos para diminuir o sofrimento de 2 milhões de infectados pelos vírus da AIDs, naquele país, e mais 36 milhões de pessoas no restante dos países daquele Continente, os Estados Unidos e a Organização Mundial do Comércio (OMC) recusaram apressadamente sob a alegação de que romperia todos os mecanismos que regem as leis do mercado. 

No entanto, quando menos de um ano depois, particularmente após os atentados contra as Torres Gêmeas, algumas dezenas de autoridades norte-americanas passaram a receber cartas contendo Antraz, o governo dos Estados Unidos exigiu a quebra de patente do antibiótico Cipro para salvar essa pequena minoria que, em seus argumentos, devia valer muito mais do que milhões de pobres africanos. Esse esboço de âmbito geral é apenas uma forma de demonstrar como age a direita em todo o mundo: direta e indiretamente. Por que seria diferente no Brasil? Ao lado de factóides previamente programados (muitas vezes até reais, é verdade), uma cruzada falsamente moralista irrompe como uma espécie de “vacina ética” para debelar a epidemia de corrupção que assola o país. 

Tem “nossa direita” autoridade para falar em ética? Um pequeno exemplo pode mostrar a diferença entre o discurso e a prática. Aqui, porém, o pouco já é muito. As investigações estão funcionando, o procurador-geral não engaveta processos3 (ou se o faz é em reduzido número) nem aborta CPIs, como fez com 60 delas, na Assembléia paulista, o Alckmin. Atualmente, a Polícia Federal age permanentemente: investigando. “O PT é o único que não interveio na investigação”, relatou o Promotor da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos, numa palestra proferida em São Paulo. “Os governos anteriores mantinham as instituições sobre o controle(...)”Aqui temos um ponto positivo que os governos investigados do PT têm a seu favor. 

Boa parte da independência atual do Ministério Público decorre de uma não intervenção do poder político. Isso foi importante e é fato que tem que ser reconhecido como algo deste governo. Governos anteriores realmente mantinham controle sobre as instituições. Mas esperamos que isso esteja superado — afirmou, em referência ao governo Fernando Henrique Cardoso(1995-2002).4 Há muita lama, muita sujeira, e a fiscalização – e também a denúncia – é dever e obrigação de qualquer esquerda séria e vigilante.5 É impossível manter-se em silêncio diante das evidências. Mas o governo anterior, o que fez? E o silêncio de alguns intelectuais? Quando o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, envolveu-se em escândalo, durante o governo de 3 Aos que sofrem de amnésia moral recordo, apenas, o título com o qual foi agraciado o Procurador Geral da República à época do governo GHC: “Engavetador Geral da União”. 4 http://oglobo.globo.com/brasil/procurador-da-lava-jato-defende-independencia-de-investigacaoem-eventual-governo-temer-18981536#ixzz456WvgIeu. Declaração ao Globo em 03/03/2016. Ver também: www.pragmatismopolitico.com.br/ Acesso em 06/04/2016. 5 

Naquela época, com apenas 4 anos de mandato e as classes de menor poder aquisitivo obtendo algumas melhorias, tornava possível imaginar, ainda, a consistência de um governo social-democrata, a despeito das medidas liberais tomadas pela administração petista. 5 Fernando Henrique Cardoso – entre eles o de conceder informações privilegiadas a banqueiros e suspeita de depósito de mais de um milhão de dólares no exterior –, o presidente, que estava no exterior, mandou apurar a responsabilidade? Não! Fez exatamente o contrário do que hoje faz o atual governo. Demitiu o superintendente da Polícia Federal. Com o PSDB/PFL era assim: bandido na rua; polícia censurada. 

FHC escondeu o que existia de podre em seu governo “dinamarquês”: privatizações escandalosas, CPIs abafadas, caso do Banco Econômico com financiamento ilegal a políticos que apoiavam o governo do PSDB e a compra de deputados para efeito de reeleição. Nesse aspecto é sintomática a posição do filósofo José Arthur Giannotti. Em entrevista concedida à imprensa ele, agora um ex-marxista envergonhado, dizia que FHC não podia ter feito outra coisa senão abafar [vejam bem, não tem qualquer problema em abafar quando a direita comete seus crimes] a CPI da compra de votos, pelo fato de que sua instalação coloca obstáculo ao desenvolvimento da administração[no caso atual é isso que a posição deve fazer para obstruir as ações do governo]. 

O cinismo da declaração é o choque que provoca com as atuais delações: por que haveria de opor obstáculos à atuação do governo nos dias de hoje? Não são elas (as delações) o resultado de sua paralisia? Responder no mesmo estilo do artigo de Giannotti é compactuar com a imoralidade. O preço a pagar pela incompetência nas ações governamentais é prosseguir com as investigações. Contestar a conduta da eminência parda de FHC, utilizando o mesmo raciocínio, é o mesmo que admitir a cumplicidade com os acontecimentos em voga. Nenhum governante está acima da lei. Não satisfeito com sua moralidade de dois pesos, Giannotti acrescentava: “Não sei se é moral ou não comprar deputados com emendas do orçamento, mas moral e política não se misturam”.6 

Agora, que ele e seu aconselhado encontram-se fora do poder, a política e a moral reatam o divórcio. Voltam caminhar juntas? O professor de Lógica precisa, urgentemente, retornar à sala de aula – mas como aluno. Não conseguiu apreender que o conceito de ethos implica o convívio na polis. Assim, a ética é uma espécie de costume, um estilo de vida e, por isso mesmo, não pode separarse da política. Ela já nasce enquanto tal. Curiosa a postura de Giannotti, porquanto ele mesmo afirma que a crise está na raiz da modernização do capitalismo brasileiro. Em todo caso, é interessante notar como a imprensa não abastece o noticiário (ou muito pouco, reduzidíssimo) quando a negociata vem do lado do “Partido dos Santinhos”, como era chamada a dobradinha PSDB/PFL. A corrupção do tucanato jamais era exposta. 

É ainda o procurador da Lava Jato que exibe a postura de Fernando Henrique Cardoso: o MP sofreu pressão, por parte do ex-presidente, no caso Banestado. O Ministério Público Federal apurava a “maracutaia” que envolvia a Cervejaria Paraense S/A, fabricante da Cerveja Cerpa. A denúncia figura no inquérito 465/PA que tramitava no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e revelou que ela abasteceu a campanha do governador Simão Jatene nas eleições de 2002 com R$ 16,5 milhões. Em contrapartida, o PSDB concedeu à Cerpa perdão e incentivos fiscais no valor de R$ 47 milhões. No inquérito, Jatene é acusado pelo STJ de corrupção passiva. E no que resultou essa investigação? Não se trata, portanto, de uma questão de ética; ou melhor, trata-se sim, de um tipo de ética específica: a ética do mercado, do lucro, do capitalismo, do individualismo. 

Ela atinge qualquer governo que ponha o mercado em primeiro lugar – e por isso mesmo convive com a administração petista que, possuída pelo espectro da ambição do poder deixou-se banhar nas águas turvas do ocultismo financeiro. A ética não é uma palavra de fácil 6 Entrevista ao jornal O Globo em 13/05/2001. 6 compreensão. Sua origem remonta há mais de 2.500 anos e nunca foi objeto de um conceito unitário. Sua origem se enraíza no vocábulo grego ethos, transliteração dos ternos ηθος e έθος, ambos pronunciados de forma semelhante, mas com significados ligeiramente distintos. O primeiro, iniciado com a letra “eta”, imprime o sentido de morada do homem, habitação etc. 

A palavra seguinte, que começa com o “épsilon” grego, conota o hábito, o costume, o caráter, o modo de viver em comum. A união desse grupo de sílabas implica em algo mais profundo do que uma simples formação de sinônimos. Os gregos jamais conseguiam separar, de maneira nítida, a relação público/privado. O ethos caracteriza, precisamente, esse ponto de partida. O objetivo de uma família, de uma morada, é a sua felicidade. A felicidade do cidadão de Atenas, por exemplo, respaldava-se na satisfação de sua integração e participação na polis. Como poderia o indivíduo ser feliz se a cidade sofria de apatia? A práxis refletia seu júbilo. 

Em direção inversa, empolgar uma família constituía o reconhecimento do lado harmonioso da exaltação poética. A unificação desses dois ambientes acende a chama dionisíaca, ativa, política do estilo de vida de uma sociedade. O cidadão satisfaz-se plenamente se sua cidade corresponde à alegria de sua habitação – e viceversa. De que forma uma família constituiria seu bem viver, caso a cidade fosse entregue à infelicidade? Ao contrário, é a unificação ética de ambos os locais que forma o estilo de vida de uma sociedade. Assim molda-se o caráter, o costume de uma formação social. A ética, manifestação verbal derivada do ethos, passa, então, a ser definida como um conjunto de normas e condutas adotadas por uma sociedade e indivíduos em determinado momento histórico. Dadas essas premissas, possuir um escravo – pensemos não em termos modernos, mas em cada momento em que um padrão ético é objetivado – jamais poderia ser considerado ilegal ou antiético. 

O mesmo vale para todo aquele que vive no sistema capitalista e o aceita como a sociedade mais adequada à liberdade humana. Adapta-se ao interior de um sistema ético e o admite como válido (que, não raro, é o caso da maioria). Sua qualidade é incontestada pela maior parte da população, e por ser normatizada não enxerga ilegitimidade ou ilegalidade em sua regência. Justifica-a integralmente. Sua atividade, contudo, não é desprovida de fragilidades ou exageros. Abre-se, dessa maneira, o caminho para os pressupostos morais. A moral, por sua vez, é o modo pelo qual as pessoas, individualmente, fazem suas escolhas dentro desse sistema. Aqui, entretanto, a questão não é tão simples, já que o problema moral faz parte da individualidade – e mesmo da individualidade coletiva (várias empresas com visões diferenciadas em relação à maneira de agir no interior do regime). 

Sob esse ponto de vista, o sistema forja seus próprios limites que podem ou não ser obedecidos. Imagino, por exemplo, como se sentem os cidadãos de várias partes do mundo diante dos “ensinamentos” do capitalismo pós-moderno, intitulado por alguns de capitalismo selvagem. Não sem uma oposição de contrários. O foco, portanto, é de uma luta de classes, independentemente de todos os problemas que estamos enfrentando. Nesse sentido é possível entender as opções que surgiram naquele longínquo primeiro turno. Até quase a reta final, cheguei a pensar em votar nulo no ano de 2006.. Mais por uma questão de princípios do que por moralismo. Podemos investir exclusivamente no parlamento, na representação indireta? Devemos secundarizar os movimentos sociais e as lutas extraparlamentares? Nossa cidadania é violentada todos os dias à medida que só decidimos uma vez em cada quatro anos. 

Qual a razão para votar, então? No entanto, após alguns meses de troca de correspondência por e-mails com vários amigos, a reflexão crítica, ou melhor a autocrítica, prevaleceu. 7 Percebi que, de modo geral, muitos dos nossos liberais (falo daqueles que estão dispostos a respeitar as instituições e que, mesmo não sendo de esquerda, combateram a ditadura) já se foram, e uma boa parte da esquerda tornou-se aliada do novo (?) liberalismo. Não que esses liberais pudessem ter meu voto; mas era possível acreditar que, em última instância, não poriam nossas já medíocres instituições em risco. Este não é o caso dos atuais “liberais” ou socialdemocratas. 

Os recentes episódios divulgados pela imprensa (será paranóia minha?) lembram um pouco o que a direita fez por ocasião das eleições de 1989, quando a televisão mostrou os sequestradores do empresário Abílio Diniz vestidos com camisetas do PT. Estranha, também, que a imprensa privilegie os mentores de seus interesses e negligencie os documentos de seus adversários supondo, sem qualquer investigação que, a priori são sempre questionáveis. Vale tudo para a conquista do poder. Talvez eu só tenha visto isso tarde demais. Entretanto, apenas o meu voto não mudaria o curso dos acontecimentos, uma vez que, meu anonimato não tem o poder de mudar o rumo da história. Mas aqueles que são os atores principais do processo não podem ausentar-se de suas responsabilidades. 

A despeito de tudo isso, é preciso reconhecer que a situação desses envolvidos no processo eleitoral é diferente daqueles que agem individualmente. O compromisso coletivo impõe responsabilidades que não se modificam instantaneamente. Se isoladamente posso mudar meu voto, é difícil para um partido ou uma coligação dar uma guinada repentina, mesmo percebendo o perigo. A validade desse argumento, todavia, não se aplica aos nossos tempos, em que a dança das cadeiras move-se com rapidez segundo os acordes da música. Afinal, para que serve uma eleição em dois turnos? As alternativas estão postas. Posso compreender que se trata de uma opção legítima. Contudo, há limites para a ausência de bom senso. 

Um grupo, uma corrente, uma associação etc., não pode desconhecer o principal inimigo sob pena de comprometer sua própria vitória ou, em caso de derrota, ter condições de torná-la digna. Eis que a surdez política e a cegueira ideológica fizeram sua entronização no palco das vaidades e interesses privados, e a dignidade foi a primeira senhora que se dispôs a pedir o divórcio, mesmo que os segredos da alcova tenham chegados à tona antes que o naufrágio da prostituição ameaçasse a sua descoberta. Assim, as palavras moral e corrupção não se inserem nessa situação de modo casual. O pretexto, como não raro ocorre nas grandes conspirações conservadoras, alicerça-se sobre bases abstratas e ideológicas, ainda que seu verdadeiro propósito se oculte sob o manto do “discurso ético”. 

Como se o “ethos” do sistema não representasse, em si mesmo, o Outro obsceno de sua própria imagem. O “leitmotiv” de seu projeto apropria-se do “condão” da moralidade transformando a categoria da generalidade em seu Único desamparado de qualquer natureza positiva. O desprezo pela dialética atribui a uma só “persona” (a máscara esconde todo traço de virtude, deixando espaço, exclusivamente, para a figura do vilão) o que é patrimônio de todo um modo de vida. Aqui e alhures. Sim, porque essa falsa consciência é universal. Não é acidental que o livro de Giorgio Agamben, “Estado de Exceção”, generalize o argumento para todo o globo terrestre. 

Convenhamos, é um conceito pouco usual – até extravagante, em princípio, mas não errôneo e fora de propósito – para uma época “aparentemente democrática”. Não se encontra “forra dos eixos”, no entanto, se o preceito tradicional que nos lança à origem da fórmula democrática for hermeneuticamente estudado. A democracia como governo do povo (demos kratos) perdeu seu valor primitivo e real desde o surgimento da democracia representativa. Na medida em que o conceito manifesta o direito do cidadão participar das principais decisões que uma sociedade exige e que afeta a vida de todos – ou, pelo menos, da maioria –, e posto que essas decisões são colocadas nas mãos de um punhado de políticos, que decide em foro 8 relativamente fechado os anseios da multidão – não raro ou quase sempre, em direção contrária à sua expectativa em benefício dos interesses próprios e das grandes corporações –, a democracia abdicou de sua validade há, pelo menos, uns três séculos. Marx (1975, p. 198) diz, esplendidamente, que o povo é chamado a cada três ou quatro anos para escolher quem vai lhe oprimir pelo mesmo espaço de tempo. 

A imagem que temos – ou a ilusão – de que nossas aspirações são atendidas é uma simples caricatura de uma realidade; ou melhor, vivenciamos a cópia imperfeita de um mundo real, acreditando que essa cópia é mais fiel à realidade do que nossa própria existência. Permanecemos prisioneiros da Caverna platônica com um agravante dimensionado: já não existe uma caverna. Difícil, nesse contexto, entender perfeitamente o significado dessa terminologia. Notadamente porque, nos períodos de crise política, e como tais devem ser compreendidos no terreno político e não no jurídico constitucional, as medidas encontram-se na situação paradoxal de medidas jurídicas que não podem ser compreendidas no campo do direito, e o estado de exceção apresenta-se como forma legal daquilo que não pode ter forma legal (AGAMBEN, 2003, p. 11-12). Vive-se uma terra de ninguém entre o direito e o fato político, entre a ordem jurídica e a vida, isto é, uma “guerra civil legal” (Id. p. 12). “O estado de exceção [o totalitarismo pós-moderno] apresenta-se, nessa perspectiva, como o patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo” (Id. p. 13). 

Entende-se a ínfima denegação de um projeto de lei antiterrorista, por parte do governo, em que se inclui a rejeição do direito de manifestação dos movimentos sociais, ao mesmo tempo que se tolera o rompimento da ordem constitucional, no país, por razões puramente políticas – a ausência de aceitação da derrota eleitoral pelo lado da oposição – da estrutura mental (desequilíbrio emocional) do candidato que viu escapar, de suas garras, a chance de pôr as mãos no troféu presidencial. Em sua esteira perfilam-se o rancor latente pelo prolongado luto que sofre a “democraciasocial” em seu frustrado desempenho de retornar ao poder, e com ela toda uma linhagem reacionária: dos conservadores moderados à extrema direita.

Não é à toa que a melancolia desatou o nó que reprimia a depressão que enferrujava o partido e seu suposto líder que, transtornado pela perda do objeto de desejo (FREUD, 2006, p. 249-265), não suportou a pressão de se ver vencido depois de contar a vitória como certa. Sem chances de recuperar o objeto de desejo, a libido – aqui entendida não só como parte da vida sexual, mas outros tipos de satisfação – despertada pela perda de seu alvo afetivo, retorna ao Ego do “líder” – representado na figura do candidato derrotado – fazendo aflorar seu narcisismo ferido, o que abriu espaço para o aparecimento de uma neurose obsessiva. Esta terminou por depositar a frustração na revolta contra o opositor vitorioso. A revolta contida desabrochou em forma de fúria, contaminando toda a estrutura partidária que, contendo em si os sintomas político-econômicos da decepção, não soube lidar com a perda.

A única forma de superar a rebelião interior era torná-la pública. Agressão e hostilidade substituíram a impossível recuperação do objeto perdido e inalcançável.7 Obviamente os problemas não se resumem à esfera nacional. O totalitarismo norte-americano mostra sua face todos os dias não só com a promulgação do Patriot Act pelo Senado, em que 7 Sobre a Neurose Obsessiva devido a perda do objeto perdico, Cf. FREUD (1996a, I, p.260ss, particularmente as p. 263-264 e 302, e 1996b, III, p. 53-69. 

Todos são culpados até que prove sua inocência, mas com os detentos de Guantánamo e o permanente estado de guerra contra qualquer país considerado “suspeito” de atentar contra a soberania nacional. É o estilo estadunidense de extravasar sua dor desde 11 de setembro de 2001.Todo esse contraste entre o jurídico, o político e o psicológico é extensivo à Europa. Comenta-se, negativamente, - alimento predileto da imprensa quase que totalmente parcial - a queda do PIB como algo à margem de qualquer situação internacional, confinando os problemas que afetam nossa economia no campo estritamente doméstico, sem qualquer vínculo com a economia mundial apontada como enérgica e dinâmica. 

Omite-se, de forma generalizada, as medidas “quase” (?) criminosas praticadas pelo Banco Central Europeu que, para maquiar o PIB, dos países da União Europeia, passou a incluir, em seus cálculos, parte da economia ilegal: prostituição, tráfico de drogas e contrabando.8 Deixo de lado, contudo, as vicissitudes alheias e restrinjo sua caracterização aos acontecimentos que dominam o cenário político brasileiro. A essência dos fatos encontra-se fixada na questão do poder e do que Wilhelm Reich (2001), em seu “Psicologia de Massas do Fascismo”, denominou de “Economia Sexual”[por questões que foram expostas acima, prefiro chamar de “economia libidinal”], ou seja, o modo como o indivíduo lida com sua energia biológica. 

A essência dos fatos fixada na questão do poder, no entanto, é uma maneira de evitar que a realidade se revele, pois o verdadeiro caráter do dispositivo ideológico mede-se pela sua aparência e move-se no terreno do moralismo abstrato. Não é difícil, dessa forma, transferir para o Único aquilo que é herança de uma grande família chamada Brasil e, de resto, um legado, pertinente, igualmente, aos Estados do mundo inteiro. A narrativa dos acontecimentos ilegais e as fraudes são produzidas e publicadas no país e no exterior há décadas. Tome-se como fato incontestável o escândalo que emergiu desde o mensalão, agravado pelas denúncias dos últimos tempos. 

Algumas provadas, políticos e empreiteiros encarcerados e outros estranhamente livres, em que pese uma imensidão de provas documentais, como é o caso do presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha que, inusitadamente, conduz o processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Surpreendente não é a investigação dos crimes conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, mas o fato de todo o processo de corrupção estar representado na sigla de um único partido, não obstante todo tipo de manobra ser comum aos governos anteriores. O silêncio da imprensa sobre o tema é ensurdecedor. Com efeito, a incompetência administrativa e o autoritarismo presidencial são de uma nitidez formidável. 

Mas crise econômica, sem um crime grave que a acompanhe é motivo para impeachment? Ora, a política econômica do PT, de Lula à Dilma, só difere nas ações dos governos precedentes em grau e não em sua natureza. É, porém, a distinção do nível econômico, de sua graduação liberal e dos programas sociais que mantinha o Brasil como sociedade privilegiada entre os mais pobres. Contudo, a acomodação diante da crise dos subprime de 2008, considerada por Lula como uma “marolinha”, acabou por se constituir uma das maiores negligências econômicas que um governante pode cometer, seja pela ausência de percepção organizativa estatal, seja como modo de ocultar os fatos tendo em vista futuras eleições. É verdade que era difícil prever uma forte desaceleração do crescimento da China – o grande parceiro comercial brasileiro, particularmente nas exportações das commodities – e a queda das ações e da bolsa. Corrigir os rumos da crise no momento pós-eleitoral (e mesmo antes) deveria ser o principal ingrediente da política nacional. 

Mas algo impediu o avanço do processo político 8 El País. HTTP://brasil.elpais.com/brasil/06/07/2014. Acesso em 04/04/2016. 10 brasileiro. Primeiro o boicote da oposição aos ajustes (liberais, é verdade) do governo Dilma por razões estritamente eleitoreiras e revanchistas. A crença da escassez de credibilidade ou ilegitimidade do(s) eleito(s) para continuar governando ganha duas versões. Uma a de que vingou uma gravidez crítica jamais vista na história desse país. A mídia confirma o discurso oposicionista e, aqueles que já estão predispostos a saltar do barco – por puro oportunismo ou completo desconhecimento (ou os que se opunham antecipadamente por motivos ideológicos) – sequer buscam informação nos inúmeros canais que operam longe das telas de TV. 

Quando no passado, o PSDB decidiu engajar-se no programa neoliberal recebeu, como presente, pela sua ousadia, o enfraquecimento da economia brasileira, quer dizer, os efeitos das crises internacionais. E o governo foi obrigado a recorrer ao FMI repetidas vezes (MARTINS COELHO, 09/2015, p. 10). “No final do governo do PSDB, a balança comercial era deficitária, a dívida pública havia saltado de 28% para 58% do PIB, e o desemprego estava na casa dos dois dígitos, 12,6% (Id. p. 10).9 Decerto os governos petistas não reverteram a liberalização promovida nas suas três administrações. Ampliaram, inclusive, em alguns aspectos (Id. p. 11). O desemprego superou, igualmente, os dois dígitos, e a inflação aproximou-se deles perigosamente. O mesmo vale para percentual de desemprego. 

Comparativamente aos governos anteriores, e a despeito da crise, os números demonstram outra coisa. A inflação encontra-se em processo de queda (9, 39%) e o desemprego por volta dos 10%, inferior ao de vários países europeus e próximo dos Estados Unidos em sua maior alta (10,8%), e o prognóstico da dívida pública para o final do ano é de 18,15%. Onde se esconde a maior crise do país? Provavelmente nas fábricas da crise política do Estado brasileiro: os partidos de oposição e a mídia. A outra versão levanta uma indagação ética. Qual a dimensão da crise sob uma moral não oposicionista e expressa por órgãos “insuspeitos”, segundo os mentores do impeachment? Inviável o impedimento pelas vias normais, restava à composição derrotada o recurso à corrupção. Sejamos honestos. Há elementos suficientes na literatura político-jurídica atual para lotar containers de documentos sob atos irregulares praticados por membros do PT. 

Não me parece, contudo, um argumento convincente, tendo em vista o envolvimento de quase todos os partidos em atos de corrupção, a maioria deles em situação bem menos favorável no ranking das instituições que avaliam o volume de ilegalidade praticável pelas organizações partidárias. Independentemente das inúmeras denúncias arroladas contra os mensageiros da moralidade – acredita-se que, dos 65 membros da Comissão encarregada de elaborar o relatório sobre o impeachment, 40 respondem a processos na justiça. Seria capaz de escrever durante horas ou dias sobre as opiniões de ambos os lados envolvidos nesse debate. A notoriedade desse fenômeno, entretanto, apesar de sua divulgação e discussão é tão polêmica e enfadonha para o leitor médio que já possui algum conhecimento da lamentável tradição “adúltera” e pervertida do nosso (sic) capitalismo, que me satisfaço em mencionar umas poucas informações capturadas do artigo (publicado pela Folha de São Paulo em 21/11/2014), por um empresário filiado a um dos partidos (PSDB) que mais acusam a veia corrupta e corruptora da administração atual, o bacharel em Direito e administrador famoso internacionalmente, Ricardo Semler. Ironicamente, o breve ensaio tem o título de “Nunca se Roubou Tão Pouco”. 9 

Dados do IBGE. Consultar www.fpabramo.org.br 11 Evocando sua situação de tucano, ele confessa sentir-se à vontade para expor, de forma tão nítida, a “farsa” (ele não utiliza este termo, mas é o que se pode inferir da narrativa) de que a corrupção tem o nome de PT. “Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobrás nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito(...)Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos “cochons des dix pour cent”, os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas. Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobrás. Santa hipocrisia. 

Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão – cem vezes mais do que o caso Petrobrás – pelos empresários? Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse? Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido. Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país. É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. 

Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo(...)Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.(...). A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.(...). Deixemos de cinismo. 

O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido”. Depois do depoimento de um empresário sério e proveniente das hostes peessedebistas, é preciso dizer mais alguma coisa? Precisa sim. Que apesar de toda a sinceridade de um membro da oposição (o único, talvez, e, ainda assim não é político no sentido profissional do termo), após uma aula de Direito Financeiro e Constitucional ministrada pelo Advogado Geral da União (AGU), Luís Eduardo Cardozo, demonstrando a diferença entre Lei Orçamentária e Gestão Financeira, entre Abertura de Créditos e atrasos de pagamento, a Comissão que produz o relatório optou pela alternativa político-ideológica e retaliadora, pois é difícil acreditar que homens habituados a discutir as leis e suas contestações, no parlamento, não entendam o mínimo de direito. 

O problema vai mais além do simples debate político entre uma ou outra agremiação. Objetiva-se em um processo muito mais complexo e que não pode, jamais, ser esquecido: a velha e duradoura luta de classes ou ressentimento, na lúcida avaliação de Christian Dunker. Passadas as eleições em seu primeiro turno, percebe-se o personalismo e oportunismo de certos candidatos (ou candidata) que sem projeto e sem propostas (ou melhor, seu assessor econômico é o thatcherista Eduardo Giannetti que muito se assemelha, em princípios, às premissas econômicas de Armínio Fraga) navega no vazio sem justificar, em uma única nota, sua relação com os negócios do marido, acusado (e réu) de improbidade administrativa no caso da Usimar e por 12 contrabando de madeira10. 

Nos idos de 2006, O JB On Line, por exemplo, acreditava que o sucesso de Lula se devia à queda da miséria constatada pela Fundação Getúlio Vargas. É verdade que, no governo FHC, segundo ainda a publicação, a pobreza diminuíra em relação ao passado. Mas enquanto este último o fez em 8 anos, o PT conseguiu entre 2003 e 2005. E o jornal A Tarde acrescentava que a diferença entre os dois governos é que a ênfase de Lula incidia sobre a parcela mais pobre da população. Eis a causa do ressentimento de nossas elites. Danuza chegou a dizer que ir a Paris ou Nova York havia perdido a graça porque já não era algo exclusivo – uma vez que até o porteiro do prédio pode realizar esses desejos.11 E o “filósofo” Luiz Felipe Pondé nega-se a andar na classe econômica não pelo maior conforto, mas por considerá-la “um galinheiro de gente” e cita um amigo que constuma dizer que “no futuro gente culta e rica não poderá mais viajar porque o mundo será um grande bingo”. (2012, p. 17 e 19). 

É esse procedimento, o deprezo oelas massas, pelos que melhoram de vida que causa a ira dessa platéia de criminosos que agridem as pessoas nas ruas pelo fato de não concordarem com os matizes de suas roupas. Pode-se dizer o mesmo do candidato paranóico que, voluntariamente ou não, deflagrou uma “guerra de cores” pelo país, “elevando” a disputa ao plano das agressões verbais e físicas? O mais interessante é que depois de estimular as massas, desaparecia de cena para ser encontrado nas águas frias da praia do Leblon. A essa espécie de conduta que os gregos davam um nome bem específico. Chamavam hipocrités, diferentemente da prosopon que era a própria máscara (ou persona, para os romanos). Esta última era o objeto com que o ator de teatro cobria o rosto em sua apresentação. No entanto, ele mesmo, pela sua atuação como personagem, era um fingidor, daí o termo hipócrita. Ao estimular esse tipo de comportamento, o candidato do PSDB deixou cair a máscara que usava e passou a atuar fingindo ser (ah! Fernando Pessoa) o que realmente sempre fora: um instrumento da direita. 

Agora, não há como omitir. O que está em jogo não é apenas uma mudança de “pessoa” no governo. É um projeto inteiro de sociedade que, mesmo com todos os equívocos o PT, jamais pensou em realizá-lo. A direita não tem a pretensão apenas de desmoralizar a esquerda – um de seus objetivos –, mas de colocar a última pá de cal no pouco que resta do que nos habituamos chamar de social. Uma década atrás, Marco Aurélio Weissheimer, em Carta Maior, denunciava o andamento de um projeto de total destruição dos resíduos públicos. Em janeiro desse mesmo ano, o jornal Valor Econômico publica: “Alckmin toma aulas para a campanha”. O que propõem os professores do candidato peessedebista, grupo, à época, denominado de “A República dos Bandeirantes”? Hoje, refletida do espelho da farsa, veste-se de trajes paulistas, ainda que, por todos os cantos, o que se escuta é o sussuro em voz alta clamando por um novo modelo de regime: “A República de Curitiba”. 

A história volta a se repetir. O bordão é o mesmo. Uma reforma trabalhista radical, com cortes de encargos e direitos; o fim do abono de férias e do pagamento do FGTS, redução de despesas e o fim do 13º salário. Hoje, a agenda da oposição prevê o retorno das privatizações e a retomada do projeto privativista até sobrar muito pouco ou quase nada, nas palavras de Armínio Fraga. Eis porque a direita está tão 10 epoca.globo.com/.../bfabio-vazb (05/09/2014 e veja.abril.com.br/ (13/05/2011. Acesso em 12/042015 11 www.geledes.org.br/ 08/12/2014 13 ansiosa por expulsar Lula (que, aliás, poderia estar fora, mas por razões que remontam ao ideário liberal). É possível comparar as duas forças em jogo? Só o personalismo cego, o oportunismo, a ignorância política, a ingenuidade e a má fé ideológica são capazes de fechar os olhos à realidade. Não há mais opções. 

Impõe-se deixar a hipocrisia de lado e – com permissão de Sartre – sujar as mãos. Todo aquele que defende um ideário de esquerda e que se omitir estará contribuindo não para uma suposta “revolução”, mas representando o papel de autocoveiro. Teremos saudades do passado. Quem não se recorda do entusiasmo que sentimos com a queda do Muro de Berlin, na esperança (ingênua, percebemos hoje) de ver florescer o verdadeiro socialismo, a partir, inicialmente, de um “mercado” socialmente controlado? Criticamos tanto o “socialismo real” que fomos incapazes de notar que seu sucessor já tinha todas as condições de substituir uma ditadura burocrática por uma tirania de mercado, transformando a pobreza em desgraça absoluta. 

Kosovo, Bósnia, Chechênia que o digam. Não estou propondo com isso uma volta ao status quo anterior. Lembro apenas as lições que devemos aprender com a história. No caso brasileiro, seguramente teremos que enfrentar o governo do PT se novas forças (o antigo texto mencionava alianças) não forem construídas à base de uma plataforma social sólida. Talvez haja mesmo a necessidade de se criar um movimento de “novo tipo”, um movimento radical democrático que entenda que o poder não tem outra alternativa a não ser um “poder constituinte”. A experiência tem demonstrado que todo poder que se institui corrompe-se invariavelmente. Isso implica qualquer resultado procedente do day after. Um regime de democracia direta (conselhos, assembleias) que só lenta e vagarosamente é possível sua consolidação. 

Preside, então, a nova sociedade, um sistema (e não sem urgência) que recomponha a multidão, provisoriamente, em torno de um modelo de eleições mistas: uma democracia representativa de tipo novo, ampliada de tal forma que impeça a (re)eleição de qualquer político que se encontre sob investigação ou denúncia; adote um sistema de candidatura avulsa (sem filiação partidária com critérios a serem definidos), e que todos os mandatos sejam revogáveis a qualquer momento. Está claro, em tudo que foi dito, que se trata de uma concepção de mundo diferente do atual sistema, seja lá qual partido for. Mas sugere, simultaneamente, uma total repulsa ao golpismo e ao impeachment. Não tenho ilusões a respeito do governo que nos rege. Mas se vivemos uma luta de classes, e escolhas devem ser feitas. 

E não tenho escrúpulos em “Sujar as Mãos”. Enfim, o pior é, em geral, o pior mesmo. Penso, neste momento, numa metáfora que pode servir de ilustração. Há duas décadas, aproximadamente, assisti a um filme, intitulado Anjos Rebeldes (uma boa alegoria política), em que uma parte do Paraíso e os homens da Terra se aliam a Lúcifer. Razão do acordo: Gabriel, enciumado com a criação divina – o homem -, havia organizado uma revolta no Éden. Queria transformar o Céu em outro Inferno. Não é a mesma coisa contida no discurso de Churchill, quando ele diz: “Se Hitler invadir o inferno apoiarei o diabo”? Muita gente que tem as mãos aparentemente limpas esconde o câncer que as corrói internamente sem que se dê conta da doença. 

Por sua vez, uma boa ducha pode sempre lavar a sujeira que cobre nossa pele. Não se sugere atos de imoralidade. Contudo, é preciso levar em conta que alguns princípios serão rompidos. Refiro-me, porém, a princípios antagônicos ao ethos de uma outra sociedade e à concepção do autogoverno. São preceitos que os adversários “quebram” a todo momento, porque pensam a multidão em termos de grossas camadas de lixo. Enquanto isso, e depois de todas as justificativas elaboradas pela defesa, qualquer alternativa a favor do impeachment é uma afronta 14 não só às regras jurídicas promulgadas no país, mas uma violação à Constituição. Em outras palavras: um impeachment nesse momento é nada menos do que um ataque mortal do pouco que resta da nossa frágil democracia. 

Sujar as mãos é muito pouco diante de uma “restauração”. Antes a lama do que chafurdar nos excrementos. Pois é isso que nos espera em caso de GOLPE. Mesmo quando Lula afirma não ter conhecimento dos escândalos que ocorrem à sua volta pode estar mentindo, ou pecar por incompetência. Já para os ex-aliados, agora “descrentes” (não me contagia aquilo em que não acreditava) e se põem ao lado dos adversários – ou talvez inimigos –, aluga a habitação da ingenuidade ou compra a morada da traição. O que seria da política se não existisse a semântica (linguagem também é luta de classes!)? Há uma questão inegável em tudo isso e a explicação vale para ambos os lados. Maquiavel dizia que o príncipe era responsável pelas ações de seus ministros, o que em parte é verdade. A quantidade de escalões intermediários e inferiores, porém, é de tal ordem, que os “príncipes” da pós-modernidade são incapazes de controlar seus próprios colaboradores. É a chaga insanável do capitalismo. 

O problema é estrutural, e não se restringe ao Brasil. O que importa, entretanto, é compreender o momento à margem do moralismo abstrato. A idéia de “sujar as mãos” implica em não aderir a esse modelo de ética e não se envergonhar; é optar pelo que já foi denominado de “minus malus”. O que sei é que, eleito Temer, Aécio, Marina, Serra ou Alckmin, a estação do inferno não será uma parada isolada; compreende o túnel inteiro. E a primeira providência da coligação PMDB/PSDB/OPOSIÇÃO será afixar – à maneira de Dante – uma tabuleta na entrada de cada aeroporto, casa, fábrica, porto, empresa e instituições de ensino e saúde do país com a seguinte inscrição: “Abandonai toda esperança, vós que entrais”. 

BIBLIOGRAFIA AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo, 2005. BADIOU, Alain. The Communist Hypothesis. Londres: Verso, 2010. FREUD, Sigmund. “Extratos dos Documentos Dirigidos a Fliess. In: Obras Completas. Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996ª. _____. “As Psiconeuroses de Defesa”. In: Obras Completas, Vol. III. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. _____. “Luto e Melancolia”. In: Obras Completas. Vol. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 2006. MACHIAVELLI, Nicolò. “Il Principe”. In: Tutte Le Opere. Florença: Sansoni Editore, 1992. MARTINS COELHO, Roseli. “PSDB, assim como no passado”. Le Monde Diplomatique Brasil, setembro de 2015. MARX, Karl. 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Escriba, 1968. _____. “A Guerra Civil na França”. In: Textos. Vol. 1, São Paulo: Edições Sociais, 1975. PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. São Paulo: Leya, 2012. 15 REICH, Wilhelm. Psicologia de Massas do Fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 2001. SEMLER, Ricardo. “Nunca Se Roubou Tão Pouco. Folha de São Paulo. 21/11/2014 STIGLITZ, Joeseph. Os Exuberantes anos 90. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.


Fernando Magalhães é professor de filosofia aposentado, da UFPE. Tem Mestrado em Ciência Política pela UFPE e Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia pela USP. Tem diversos artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais, capítulos de livro em coletâneas, várias coletâneas. Possui, igualmente, seis livros publicados, dois deles como organizador.



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