quinta-feira, 28 de abril de 2016

Editorial: Nádegas indevidas ( e indecentes)


Talvez não haja, entre os políticos brasileiros, alguém que tenha protagonizado tantas cenas folclóricas quando o ex-presidente Jânio Quadros. O ex-professor de língua portuguesa construiu uma carreira política notável, saindo de vereador até chegar à Presidência da República, de onde renunciaria ao mandato. Depois de um longo inverno, voltou à cena política, na condição de Prefeito de São Paulo, este que seria o último cargo público que ele ocupou. Era uma figura controversa, populista, enigmática e muito inteligente, responsável por algumas tiradas impagáveis, como a sua conclusão de que o Brasil seria um hímen complacente. 

Aliás, pode-se concluir que o humor sarcástico era uma de sua marca política registrada. Quando desta última eleição para a Prefeitura de São Paulo, ao ser inquirido pelos repórteres sobre o seu desempenho nas pesquisas ou outras questões, saía sempre com um "nada a declarar". Vencida aquelas eleições, colocou na porta do seu gabinete uma chuteira usada, comunicando que encerraria ali sua carreira política. Mas, os aspectos mais curiosos daquelas eleições ainda estariam por vir. Certo de que seria eleito, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu entrevista sentado na poltrona de prefeito, numa presunção que não se conformaria.

Anunciado o resultado daquelas eleições, o novo prefeito Jânio Quadros tratou imediatamente de desinfetar aquela poltrona, anunciando que nádegas indevidas havia sentado ali. Essas observações vem a respeito dos comentários do senador pernambucano Humberto Costa, sobre a postura do vice-presidente, Michel Temer, que já assume a condição de presidente antes mesmo do rito do Senado Federal acerca do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, previsto para ser apreciado no próximo dia 06 de maio. Quero informar ao senador pernambucano que, pelo andar da carruagem política, estamos pessimista quanto à reversão desse quadro. Como líder do Governo naquela Casa, naturalmente, o senador cumpre o seu papel. 

Agora, quero concordar com ele sobre as diversas nuances dessas nádegas indevidas. Há bastante tempo que essas manobras golpistas contra o mandato da presidente Dilma Rousseff estão sendo urdidas, portanto não causa estranheza esse comportamento do senhor Michel Temer. E pensar que Dilma Rousseff ofereceu a ele a responsabilidade de fazer sua "coordenação" política! Em todo caso, trata-se de um comportamento reprovável. Em doses regulares, estão vazando para a imprensa os nomes que deverão compor o ministério de seu futuro governo, assim como o esboço de seu programa, que prevê a manutenção de políticas sociais como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o Pronatec. 

Naturalmente que o "Pacote de Maldades" só será anunciado quando ele tomar posse. Mas é bom que a população saiba que ele virá, na esteira de um conjunto de acertos prévios que permitiram a materialização dessa engrenagem golpista. O que se sabe de antemão é que o preço da "fatura" do golpe ficará muito cara aos brasileiros, principalmente aos pertencentes aos estratos sociais mais fragilizados, uma vez que o grande capital esteve por trás dessas manobras. Infelizmente, caro Humberto, não duvidamos que essas "nádegas indevidas" acabe sentando na cadeira que um dia foi da presidente Dilma Rousseff. 

Depois dos 50 a gente já não se surpreende com muita coisa, mas um dos aspectos que mais nos indignaram foi observar o comportamento do poder judiciário nesse processo. Como afirmou um jornalista português, o Brasil é um país que pede para não ser levado a sério. O circo dos horrores montado na Câmara dos Deputados - se considerarmos o índice de institucionalização do nosso sistema partidário - até se entende. O que não se entende é uma suprema corte permitir esse atentado às instituições da democracia representativa no Brasil, permitindo que "nádegas indevidas" possam esquentar uma cadeira conquistada com 54 milhões de votos, sem absolutamente nenhum crime de responsabilidade configurado juridicamente. 


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