terça-feira, 19 de abril de 2016

Editorial: O olho vesgo de Brasília ( ou o caráter do conde Drácula)




Depois de um certo estágio das articulações, alguns atores políticos ligados ao Planalto já anteviam os problemas que a presidente Dilma Rousseff poderia enfrentar na votação sobre o processo de impeachment, que ocorreu no último domingo, na Câmara Federal. Esses possíveis problemas se confirmaram durante a votação e o Governo perdeu a batalha. Uma batalha, como dizem os governistas. Não a guerra, que deverá ser travada em inúmeras outras frentes mais adiante, a começar pela apreciação do processo pelo Senado Federal.  

Na nossa modesta opinião, o mandato popular obtido pela presidente Dilma Rousseff, nas urnas, nas eleições de 2014, foi solenemente usurpado. A decisão de afastar o PT do poder já havia sido tomada antes mesmos daquelas eleições. Eleita, Dilma não teve um só momento de sossego. Na realidade, não conseguiu governar, sendo fustigada sistematicamente por essa oposição golpista que não foi capaz, sequer, de encontrar os argumentos que pudessem embasar ou justificar juridicamente o seu pedido de afastamento. Não existiam. Daí a utilização do termo "usurpação". Ou, como desejam outros, um golpe institucional, admitido até mesmo pelos grandes jornais americanos.  

Fiz questão de acompanhar a votação, voto a voto. Foram poucos os parlamentares que se debruçaram sobre o que, de fato, estava sendo julgado no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Nem mesmo as frágeis pedaladas fiscais foram mencionadas. Ao contrário, as falas dos deputados remetem a algumas situações preocupantes, como os flertes militaristas, sexista, religiosos, bem ao estilo da tradição, família e propriedade. Mais do que a desinformação, isso apenas confirma o "fermento" dessa onda conservadora disposta a tudo para varrer o PT do poder. 

Se diz por aí que a turma de esquerda é mais inteligente. A julgar pelos discursos proferidos durante o momento de votação, essa tese se confirma. Gostaria de destacar aqui os discursos da deputada federal do PCdoB do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, do deputado Jean Wyllys, do PSOL, do Rio de Janeiro. Aliás, louve-se aqui os discursos dos parlamentares do PSOL e do Partido Comunista do Brasil. Em certa medida, eles foram até mais contundentes do que os discursos dos parlamentares do Partido dos Trabalhadores, numa demonstração de que alguns integrantes da legenda não estavam dispostos a ir às últimas consequências na defesa da presidente Dilma Rousseff. Não deve ser por outro motivo que o próprio Temer já afirmou que pretende contar com eles no seu possível governo. 

A engrenagem avança, conduzindo representantes do povo como massa de manobra, incapazes de se darem conta da repercussão dos seus atos. O deputado Jair Bolsonaro prestou uma homenagem aos militares durante a votação, inclusive a um conhecido torturador do estertores do regime militar instaurado no país com o golpe civil-militar de 1964, o coronel Brilhante Ustra, falecido recentemente. Dizem que Jean Wyllys teria cuspido em sua direção. Como afirmou o cientista político Michel Zaidan, em dois artigos publicados aqui no blog, citando Sérgio Buarque de Holanda, a democracia entre nós é um grande mal-entendido. Recomendamos por demais esses dois artigos, uma verdadeira aula sobre a "impossibilidade" da democracia no Brasil. 

Ainda das tardes de seminários do CFCH/UFPE, lembramos de um artigo do professor Paulo Henrique Martins sobre o "Olho vesgo de Brasília". Os parlamentares que votaram a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, afinal, para onde estavam olhando? certamente não estavam preocupados com a defesa do Estado Democrático de Direito, com o aperfeiçoamento de nossas instituições democráticas, com o respeito às liberdades civis ou públicas. 

No day after, abatida, Dilma Rousseff acusou a traição do senhor Michel Temer, tratando o caso como estarrecedor. Há um amigo, professor da UFMA, que, em nossas conversas pelas redes sociais, costuma sempre se referir a uma observação de Maquiavel sobre como chegar ao poder. Diz Maquiavel que o príncipe pode até contar com forças auxiliares para chegar ao poder, mas, uma vez lá, precisa construir sua independência pois pode ser solapado por essas forças auxiliares. Nos parece que essa lição se aplica ao Governo da presidente Dilma Rousseff. Qual o caráter do Conde Drácula, Dilma? o caráter do Conde Drácula é sugar o sangue de mocinhas incautas. Você não sabia disso? 

A charge que ilustra esse editorial é do Renato Aroeira. 






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