terça-feira, 12 de abril de 2016

Editorial: Temer, o conspirador.








Já se tinha uma expectativa de que nesta semana as forças golpista lançariam toda a carga no sentido de criar as condições favoráveis para aprovar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, com votação prevista para o dia, 17, no Plenário da Câmara dos Deputados. Desde o início que essas forças agem em conjunto, de forma muito bem articulada, com o propósito de retirar do exercício do mandato - sem um crime de responsabilidade que o justifique - uma presidente eleita pelas urnas, dentro das regras previstas numa democracia representativa, nas eleições de 2014. Como já afirmamos aqui outras vezes, a tecitura foi muito bem montada e não se pode negar que o Governo Dilma começa mal a semana. 

Hoje foi desencadeada mais uma etapa da Operação Lava Jato, a 28ª, denominada de "Vitoria de Pirro", até o nome vem à calhar, com centenas de policiais federais cumprindo seus mandados de apreensões de materiais, conduções coercitivas e prisões, tudo isso com a prestimosa e impecável cobertura da emissora do plim plim. O "peixe" mais graúdo dessa fase é o ex- senador Gim Argello, do PTB, que usava CPIs, concebida para investigar corrupção, para chantagear os investigados.  Ontem, também repercutiu bastante um áudio que teria "vazado' por engano, onde o vice-presidente, Michel Temer, antecipa um provável discurso depois da "aprovação" do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Pela linha sucessória, caso se confirme o impedimento da presidente, quem deve assumir é ele. 

Quem acompanhou a entrevista concedida por Michel Temer, logo após o episódio, fica, no mínimo, desconfiado desse vazamento, ocorrido por um "engano". O mais provável mesmo é que o áudio tenha sido vazado deliberadamente com o propósito de criar mais um clima favorável ao desfecho que eles desejam na votação do impeachment, que está prevista para ocorrer no próximo domingo. Vejo aqui uma falência completa do nosso sistema político. Seja qual for o resultado do impeachment, estaremos sempre em mal lençóis, caso não se concretize uma reestruturação completa do sistema. É este o caráter do homem que ocupa hoje a vice-presidência da república. Se Dilma consegue escapar da degola, em que condições será mantida essa chapa? com escaramuças sendo urdidas constantemente contra ela, pelo seu próprio vice. Se ela cai, como diria Barroso, é essa a nossa opção de governabilidade? 

Os traidores costumam ser acometidos por pesados encargos de consciência. Não vejo outro adjetivo para enquadrar o vice-presidente Michel Temer. Ele, por outro lado, ao se referir ao áudio, apresentava aquele semblante que o caracteriza. Nenhum pouco constrangido com o episódio, daí a nossa conclusão de que tudo pode não ter passado de uma grande armação - mais uma - dentro do contexto dessa conspiração com o propósito escuso de apear a presidente Dilma Rousseff do poder. Toda a imprensa trabalha com a hipótese de "vazamento" acidental deste áudio. Assim como os áudios vazados no caso do grampo do ex-presidente Lula, tenho cá minhas dúvidas. 

Isso nos faz lembrar uma expressão utilizada há alguns anos atrás, por um ingênuo operário da construção civil. O fato nos foi relatado por um amigo. Segundo ele, esse trabalhador tinha chegado à capital até recentemente e havia obtido um emprego na construção civil. Certa vez, ao voltar de um banho para trocar de roupa, no final da tarde, observou que o seu sapato - ainda novo e conservado, divinamente engraxado - brilhando que só catarro na parede, como se diz - não se encontrava no alojamento.No seu lugar, havia apenas um pá de sapatos, de igual tamanho, mas velho, estragado, com o couro já comprometido pelo cimento. Sua inusitada conclusão foi a de que algum peão havia calçado o seu sapato por "engano". 

Aqui na província, faleceu aos 88 anos de idade o ex-senador da República, Ney Suassuna. Atualmente trabalhava como assessor do ex-presidente Fernando Collor de Mello, que deixou a presidência depois de sofrer um impeachment. Um dos aspectos mais enfatizados na personalidade do político pernambucana foi a sua fidelidade ao ex-presidente, mesmo nas circunstâncias mais adversas. Julgamento sobre Collor a parte, essa característica do ex-senador das alpercatas foi enfaticamente destacada pela imprensa. Talvez tenha sido por isso que o chefe de gabinete da presidência, Jaques Wagner tenha recomendado ao Temer a renúncia. Depois do vazamento desse áudio, ele já não reúne a menor condição de continuar como vice da presidente Dilma Rousseff.  

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