sexta-feira, 20 de maio de 2016

Editorial: Crise? Desliga a Globo que passa!







Em nossas caminhadas matinais, aqui na orla da praia de Casa Caiada, ficamos sempre atentos às conversas da elite que apoiou o golpe, aos adesivos dos carros, às pichações dos muros. Muitas dessas observações nos permitiram entender um pouco do que se passa no país. As investidas do presidente provisório Michel Temer contra os direitos humanos e sociais, por exemplo, encontram apoio em determinados segmentos sociais que por ali transitam, notadamente os "velhinhos" bem conservados, possivelmente do estamento militar, que costumam manter a forma nessas caminhadas. Vocês precisavam ouvir os "sarros" que eles tiram com programas como o Bolsa Família ou o Minha Casa, Minha Vida, hoje praticamente extinto pelo presidente interino Michel Temer. Nos muros, uma pichação: Nunca Temer!. Nos adesivos, um deles nos chamou a atenção, pois, certamente, não se tratava de um carro de algum "coxinha": Crise? Desliga a Globo que passa.


Creio que o PT deveria ter ficado mais atento quanto a esse ranço de luta de classe ainda existente no Brasil, um pais de desigualdades tão acentuadas. Esse jogo de conciliação de classe, aliado à construção de um consenso mínimo, que permitiram a execução de políticas redistributivas de renda para o andar de baixo, como já seria previsto, foi um projeto com prazo de validade muito bem definido. Quando o andar de cima resolveu que ele tinha que acabar, partiram para as artimanahs com tudo. Quando foi decretado o afastamento de Dilma, em declarações, Lula chegou a afirmar que os pobres mal sentiram o "gostinho" da cidadania. Sim. É por isso que todos os brasileiros comprometidos com um projeto de inclusão social não podem baixar a guarda.

Aberta a porteira, através de um golpe institucional, a "onda conservadora" vai provocar um estrago de proporções gigantescas. A palavra que mais caracteriza os primeiros meses do governo interino de Michel Temer é "retrocesso". Há quem afirme que recuamos, com o anúncio do ministério congressual e as primeiras medidas, algo em torno de 50 anos. O modelo de governo da coalizão petista permitiu que o Estado financiasse a mídia golpista durante os treze anos em que o PT esteve no poder. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso ficaria assustada com o montante de recursos federais, oriundos do orçamento da comunicação institucional, destinados às Organizações Globo e congêneres. Como a Globo agora é uma alinhada do atual governo, espera-se que a injeção de recursos não seja alterada. Mas, já em relação a quem defende a "democracia" ou lhes faz oposição, a rebordosa do governo provisório será sem trégua.  

A blogosfera nunca foi devidamente beneficiada com verbas publicitárias estatais. Há uma briga estrutural em relação a isto, uma vez que os blogs ainda não são bem considerados pelas agências de publicidade. Há projetos de lei em análise que preveem que um montante específico desses recursos sejam destinados à blogosfera. Por enquanto, os blogs vão sobrevivendo como podem, contando, quase sempre, com o apoio dos leitores que os patrocina. Mas, há algumas exceções à regra, ou seja, blogs que são mantidos com recursos federais. Como Temer emite sinais de que não agirá como o PT - que cevou urubus - a tendência é que esses patrocínios sejam solenemente cortados 

Um bom prenúncio disso ocorreu mais recentemente. Os ditos "blogs sujos" preparam um encontro em Porto Alegre, em defesa da democracia, que deverá contar a presença da presidente Dilma Rousseff. Estava previsto que a Caixa Econômica Federal deveria investir cem mil reais no evento. Por uma decisão, segundo dizem, do próprio Michel Temer, essa verba foi cortada. O jornalista Fernando Brito, editor do Tijolaço, criou uma polêmica sobre o assunto ao divulgar que a tesoura de Temer tem lá suas preferências ou seletividades. Há um instituto de um membro do Supremo Tribunal Federal - dá para adivinhar de quem se trata - que continua recebendo verbas de patrocínio de bancos estatais sem qualquer problema.  Claro que o Brito quis criar uma polêmica em torno do assunto. Dando nome aos bois: Gilmar Mendes.

Polêmicas, no entanto, como observava o filósofo francês Michel Foucault, neste caso, não será uma ética da discussão, orientada pela busca conjunta de uma verdade relevante, mas uma moral de extermínio do adversário. Dizem que Lula anda um pouco apreensivo e, de fato, há motivos para isso. Hoje foi desencadeada uma operação da Polícia Federal na cidade portuária de Santos, que atinge algumas pessoas diretamente ligadas ao ex-presidente ou à sua esposa Marisa Letícia. O ministro Teori Zavascki acrescentou mais elementos nos processos que envolvem o ex-presidente. Tem muita gente interessada em prender o Lula, pois ele é o ator político mais relevante quando se está em jogo a retomada de um projeto político que tratava o pobre como gente.   

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