domingo, 15 de maio de 2016

Editorial: Os primeiros esboços de uma reação ao golpe.


Ainda é bastante cedo para fazermos qualquer consideração acerca do grau de resistência da sociedade brasileira à ilegitimidade do Governo Temer. Prevê-se que medidas duras de arrocho serão adotadas e, consequentemente, os segmentos sociais atingidos deverão reagir. No momento, os esboços de reação partem de uma parcela social mais esclarecida, engajada politicamente, capazes de antecipar cenários sombrios. E é bom que se diga que esses cenários sombrios se avizinham no horizonte. Acabo de pedir a um amigo a autorização para publicação de uma carta de servidores do Ministério da Saúde, que pediram exoneração do cargo em razão de não concordar com a ruptura institucional perpetrada pelo senhor Michel Temer, tampouco com as medidas que estão sendo previstas para aquele ministério, como o desmonte do  já combalido SUS.

Preocupado com as reações internas e externas ao fato de não existirem representantes dos movimentos sociais, negros e mulheres no seu ministério, o senhor Michel Temer resolveu fazer uma média e convidar uma mulher para ocupar a Secretaria da Cultura, uma forma, igualmente, de satisfazer os que se opunham à fusão entre Educação e Cultura, com a volta do velho MEC. Incumbiram a senadora Marta Suplicy de formular o convite à apresentadora Marília Gabriela. Depois de muita insistência, ela recusou o convite. Essa recusa tem sido muita explorada pelas redes sociais, mas não vejo aqui muito o que possa ser comemorado. Primeiro, pelo perfil político de Marília Gabriela. E, depois, porque sempre haverá alguém disposto a aceitar. Talvez seja o caso de convidar o Lobão. 

Neste episódio, registro importante mesmo foi o de uma jornalista e eleitora de Marta Suplicy. Quando desembarcava do aeroporto, a senadora foi insistentemente invocada a pronunciar-se sobre a ausência de mulheres no ministério do futuro governo provisório. Depois de muitas explicações esfarrapadas, já sem argumentos que demovessem a jornalista da insistência com o questionamento, a senhora Marta Suplicy perdeu a compostura e passou a agredi-la. Coerência e lealdade são dois adjetivos caríssimos ao ser humano. Se pagamos um preço alto por mantê-lo, se o perdemos aí o bonde descarrilha de vez. Penso ser este o caso de atores políticos como Marta Suplicy e Cristovam Buarque, que construíram uma carreira política na esquerda e bandearam-se para o outro lado. 

Tornaram-se uma ambiguidade ambulante. Outro dia comentamos por aqui sobre as possíveis reações do professor Cristovam ao ler seus próprios livros. Talvez esboce a mesma reação de FHC, ao pedir que esquecêssemos o que ele havia escrito. Prestigiado nesse novo arranjo de forças políticas, Cristovam foi ouvido por Michel Temer. Não sei se teria sido convidado para integrar o ministério, mas é provável. Ao PPS coube a indicação do pernambucano Raul Jungmann para o Ministério da Defesa. Logo depois,entretanto, ele andou fazendo algumas sugestões para o Ministério da Educação, através de uma entrevista concedida a um blog local. Confesso que daria tudo para ouvi-lo num diálogo com o senhor Mendonça Filho sobre este tema. 

Por falar em Mendonça Filho, sua recepção no Ministério da Educação foi ,digamos assim, "calorosa". O que poderá ocorrer com as políticas educacionais naquele ministério, certamente, merece uma análise a parte, missão para a qual já estamos debruçados. Importante ressaltar aqui, entretanto, a reação dos servidores daquele órgão no momento da presença do futuro ministro. Publicamos o vídeo aqui no blog, o que os diletos leitores e leitoras podem conferir. Nesse clima, ele não vai conseguir tomar posse. Por falar em MEC, registro aqui a atitude engrandecedora do professor Paulo Rubem Santiago, que entregou o cargo de presidente da Fundação Joaquim Nabuco - muito antes de ser solicitado - externando sua insatisfação com um governo, na sua opinião, ilegítimo. 

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