quinta-feira, 19 de maio de 2016

Em Cannes, contra o golpe

A luz do cinema e a escuridão de um golpe foram comunicadas por seus protagonistas e suas vítimas.


Iván Granovsky*
reprodução
Primeiro estão os iates, os jatinhos, os helicópteros e as Ferrari. Logo aparecem os famosos e os flashes. Em terceiro lugar, a indústria do cinema. E, por último, a arte. Porém, com a arte, chega a política. E com a política, chega Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, único filme latino-americano na competição oficial do 69º Festival de Cannes. A obra foi produzida e rodada em Pernambuco, no Nordeste do Brasil. Este pequeno estado brasileiro se relaciona atualmente com o mundo por duas coisas: porque sua produção cinematográfica é de alta qualidade e porque nessa região se viu como centenas de milhares de pessoas ascenderam na escala social, graças às políticas de Luiz Inácio Lula Da Silva e Dilma Rousseff.

Aqui em Cannes, a estreia mundial de “Aquarius” ocorre a menos de uma semana de vida do governo “interino” de Michel Temer, depois que o Senado brasileiro aprovou a abertura do processo de impeachment contra a presidenta. Mas a palavra “interino” não se usou em nenhum momento, no protesto que os brasileiros e latino-americanos realizaram na terça-feira, 17 de maio, no tapete vermelho da sala Lumière, do Festival de Cannes. A palavra usada foi “golpe”, escrita em português, inglês e francês.

Na porta de um hotel de Cannes, onde havia entre 20 e 30 integrantes da equipe do filme, outros colegas e amigos se somaram à iniciativa de distribuir os cartazes, que diziam: “the world can’t accept this illegitimate government”, “sauvez la democratie bresilienne”, “we will resist”, “Brazil is not a democracy anymore”, “a coup took place in Brazil”, “#StopCoupInBrazil”.

Numa foto coletiva, todos os presentes traziam alguma bandeira ou levantavam papéis. Depois, cada um foi tomando seu para a sessão de Aquarius. A equipe ia em carros e vans, os demais faziam uma fila comum.

Os que estavam na fila, depois de passar o controle de segurança, começaram a caminhar pelo tapete vermelho, até subir as famosas escadas do Palais des Festivals de Cannes. A primeira ação, embora pareça naïve, foi tomar uma foto com uma produtora brasileira que levantava um cartaz contra o golpe. Automaticamente, um segurança se aproximou e tirou o cartaz das mãos dela. Quando viu que eu tinha outro, também tirou o meu, e fez o mesmo com todos os colega que estavam ao nosso lado. Os gritos de “isso é censura” não surtiram efeito, e o segurança não devolveu os cartazes. Após o segundo e último controle, poucos metros antes de entrar na Sala Lumière, uma produtora de São Paulo (a cidade mais pró-impeachment do Brasil) se aproximou e tirou da bolsa outro cartaz, guardado justamente para o caso dos primeiros cartazes serem proibidos. Entramos na sala e cada um tomou o seu lugar. A tela da Lumière transmite ao vivo e mostra aqueles que entram pelo tapete vermelho, até o começo do filme. Ali, pudemos ver os rostos de todos os brasileiros que participaram do filme. Qualquer um poderia dizer que a organização não estava de acordo com a realização dessa “performance” contra o golpe no Brasil. Depois de alguns minutos, os integrantes da equipe do filme chegaram. Pararam em frente aos fotógrafos, que estão acostumados a aguardar os atores de Hollywood e modelos de passarela. Todos mostraram seus cartazes. Os que já estavam dentro da sala começaram a aplaudir e mostrar seus próprios papéis, os que sobraram pelo menos. Os aplausos aumentaram. Depois desse primeiro momento, foi a vez do diretor Kleber Mendonça Filho, da produtora Emilie Lesclaux e dos atores Sonia Braga, Maeve Jinkings e Humberto Carrão. Os primeiros metros foram tradicionais, sorrindo para as câmeras. Claro, apesar da tragédia política brasileira atual, ninguém pode esquecer que o país também trouxe este maravilhoso filme para as telas do mundo. Nos seguintes metros, após subir a escalinata até a Sala Lumière, onde, como sempre, estavam sendo esperados por Thierry Fremaux e Pierre Lescure – diretor e presidente do festival, respectivamente –, vieram novos momentos emocionantes. Os metros mais políticos. Os metros mais artísticos. Foram esses os metros que tornaram este dia histórico. Porque a luz do cinema e a escuridão de um golpe eram comunicadas por seus protagonistas e suas vítimas. Na fila, um ao lado do outro, diretor, produtores, atores e autoridades, diante da imprensa internacional. Cada um tirou do bolso o seu papel. Com rostos sérios, graves, se mantiveram três minutos na mesma posição. Em Cannes, a mensagem era única: o cinema não pode estar a favor de um processo tão ilegítimo como o que o Brasil se está vivendo atualmente.

Entraram na sala, e lá toda a equipe do filme, e todos os que estavam distribuídos pelos outros setores, levantaram seus papéis. No Festival de Cannes, sempre se espera um escândalo. E graças a isso, as câmeras oficiais entraram em cena e a transformaram num pedido, aos gritos, de justiça verdadeira.

O mundo inteiro viu.

* Cineasta argentino.

Tradução: Victor Farinelli
(Publicado originalmente no portal Carta Maior)
P.S.: Do Realpolitik: Há uma polêmica aqui em Pernambuco - muito alimentada pela mídia que esteve do lado dessa ruptura institucional - no sentido de questionar se o diretor do filme, o cineasta e roteirista Kleber Mendonça, deveria ou não ser afastado de suas funções de cargo de confiança exercido numa instituição pública vinculada ao Ministério da Educação e Cultura. Kleber Mendonça é o coordenador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Creio que uma questão como esta, pelos motivos apresentados  - a liberdade de expressão – não era, sequer, para ser cogitada. Mas, num país, onde se outorga autoridade a um juiz de primeira instância para a instauração de um tribunal inquisitorial nos moldes da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, que condena à fogueira um cidadão apenas por professar uma crença petista, outras violações constitucionais não seriam surpresa. Afinal, como afirmou o novo Ministro da Saúde, as garantias constitucionais são apenas um detalhe. Ontem foi um dia de muita inquietude para mim. Este blog criou uma identidade junto aos seus leitores e leitoras. É um blog cuja linha editorial é regida pela altivez, independência, críticidade, orientado pelos valores da democracia e identificado com a res pública. Não recebemos nenhum tipo de ajuda ou patrocínio dos governos da coalizão petista, assim como ocorre com alguns blogs conhecidos.O que fazemos, fazemos por pura convicção e ideais. De acordo com Luis Nassif, a próxima investida dessa “onda conservadora” deverá atingir os blogs "sujos". Uma das primeiras medidas seria cortar o patrocínio dos bancos e estatais. A próxima poderia ser a censura mesmo. Mudar a linha editorial do blog não vamos fazê-lo. Seria uma decretação de sua morte. Vamos manter essa linha editorial, mas prevejo tempos sombrios pela frente. Os leitores não se espantem se começarem aparecer algumas receitas de bolo por aqui. Garanto apenas que não seriam do bolo Souza Leão. Seria um bolo dos pobres, dos excluídos, a quem este blog sempre esteve vinculado.Coerência e lealdade são as nossas marcas. Acabo de ser informado que, por determinação do próprio Temer, a Caixa Econômica cortou o patrocínio de um encontro de blogueiros em Belo Horizonte. Bastante pertinente a observação do jornalista Fernando Brito, do Tijolaço, ao comentar a matéria da Folha de São Paulo, informando que o evento teria sido vetado sob o argumento de que se tratava de um evento em "defesa da democracia". E se fosse contra, poderia? Vale salientar que há um ministro do STF que tem os eventos do seu instituto patrocinados pelos bancos estatais. Não seria o caso de cortá-los?
 
Créditos da foto: reprodução

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