sábado, 11 de junho de 2016

Editorial: Afinal, o que desejam os golpistas?




Não passou na Globo, mas ontem, dia 10, ocorreu uma mega mobilização anti-golpe, pró volta de Dilma, na Avenida Paulista, com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez questão de avisar que , quanto mais o provocam, mas ele se dispõe a disputar uma eleição presidencial em 2018.Um dos aspectos que mais se sobressaem nos discursos do ex-presidente Lula são as analogias com a sua história de vida. Ontem ele voltou a lembrar que, de onde ele veio, quem sobrevive até aos 05 anos não morre mais de fome, tampouco tem medo de alguma coisa na vida. Isso nos fez lembrar de uma palestra, realizada na Fundação Joaquim Nabuco, em homenagem ao grande sociólogo pernambucano Josué de Castro. 

O microfone foi entregue a um representante da Comunidade de Ilha de Deus, aqui nos arredores do Recife. A Ilha de Deus é uma espécie de gueto, habitada por pessoas bastante humilde, de precárias habitações, sem as mínimas condições de saneamento básico. As pessoas que ali residem sobrevivem praticamente do que conseguem colher dos mangues que a cerca. Nada mais emblemático para a ilustrar os trabalhos sobre as condições de vida dos recifenses, realizados pelo sociólogo, ainda na década de 40. Na platéia, uma senhora escutava atentamente a fala do jovem. Depois, mostrou-se indignada com o fato de uma criança de 05 anos já acompanhar os pais na labuta cotidiana, retirando sururus, mariscos e caranguejos do mangue. Depois de ouvi-la, calmamente, o rapaz retrucou-a: Minha senhora, na Ilha de Deus, um rebento que aos 05 anos não sabe nadar, pescar e trabalhar não sobrevive. 

Em seus discursos, o ex-presidente parece se inspirar bastante em sua história de vida. Quando se referiu ao governo interino de Michel Temer,  foi bastante incisivo, afirmando que o que eles desejam é o "desmonte do país". A ordem é privatizar e para privatizar não há a necessidade de governantes, mas de agiotas. De fato, o governo interino do senhor Michel Temer estaria, segundo analistas, entrando na sua fase hard, caracterizado pelo início dos anúncios das primeiras privatizações e as medidas drásticas contra os direitos trabalhistas. Segundo o economista André Singer, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, este seria o objetivo principal da montagem dessa engrenagem golpista que afastou temporariamente a presidente Dilma Rousseff do poder.

Não vejo aqui nenhum motivo para discordar do professor André Singer. Essa agenda seria previsível desde de o início, quando começaram as urdiduras para solapar o mandato legítimo da presidente afastada, mesmo com a ausência de uma fundamentação jurídica. Mas a grande inquietação que se coloca para todos os brasileiros - analistas sociais ou não - é a incerteza sobre o que vem por aí, possivelmente previsto entre os conspiradores. Embora a gente saiba como começam essas urdiduras de caráter golpistas, a questão é saber até onde elas podem chegar, até mesmo ao limite de fugir ao controle dos seus artífices.

Do ponto de vista político, supostamente, eles conseguiram "isolar" o PT e a sua liderança maior, Luiz Inácio Lula da Silva. Ontem comentávamos aqui sobre o real papel da Procuradoria-Geral da República nessa engrenagem. Ou, mais particularmente, do senhor Rodrigo Janot que, segundo observadores, estariam agindo em conluio com a trama. Curiosamente, ontem ele pediu ao STF que transferisse para o juiz Sérgio Moro processos que correm contra Lula. Parece não haver dúvida, como afirmou o filósofo Gabriel Cohn, que um dos objetivos dos conspiradores é destruir a "figura pública" do ex-presidente. Sua prisão, cumpriria esse objetivo.

Cumprida essa etapa em relação ao PT, quem parece estar perdendo a blindagem é o PMDB. Cunha já não interessa mais, mas possui alguns trunfos que incomodam profundamente o staff golpista. Parece infenso, resistindo como pode na sua trincheira - com métodos bastante conhecidos - aliados a comparsas temerosos sobre o que ele poderia revelar numa situação limite. Agora é a sua esposa, que também está sendo arrolada, em razão de possíveis farras com dinheiro público.  

A charge que ilustra este editorial é do chargista Renato Aroeira. 

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