quinta-feira, 30 de junho de 2016

Editorial: O encontro secreto entre Temer e Cunha. Uma imoralidade.




Quando publicávamos nossos artigos num blog local - além do nosso, claro - fazíamos questão de responder a todos os comentários dos internautas, até mesmo aqueles mais cabeludos e injustos. O debate de ideias sempre foi algo que nos fascinou. Creio que o hábito está na raiz de nossas convicções democráticas. O jornal Folha de São Paulo segue uma linha editorial que não precisamos entrar em maiores detalhes aqui com vocês. Mas, por outro lado, tem em seus quadros alguns dos nomes mais respeitados do campo jornalistico, como o jornalista Jânio de Freitas. Esse "capital simbólico", acumulado por Jânio no meio jornalístico, permite a ele uma certa "liberdade" de atuação, mesmo que contrariado, não raro, numa mesma edição, pelos editoriais do jornal dos Frias. Foi numa dessas "fendas" que ele, Jânio de Freitas, escreveu um excelente texto tratando do encontro entre o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o presidente interino da república, Michel Temer, no Palácio Jaburu. 

O artigo do jornalista Jânio de Freitas ocupou um espaço bem relevante no trend do microblog Twitter. Logo sugiram as ilações de que ele teria afirmado que Temer seria tão bandido quanto Cunha, mas, ipsi litteris, não há nenhum registro no seu texto sobre isso. Ele é duro em suas críticas, é verdade, comentando sobre as possíveis "tratativas" de ambos, a inadequação desse encontro, bem como uma possível manobra do presidente em exercício em salvar da degola o pescoço do amigo conspirador, responsável pela aceitação do ato formal que começou a solapar o mandato da presidente afastada Dilma Rousseff, na condição de ainda presidente da Câmara dos Deputados. Nas entrelinhas, talvez possamos concluir de suas afirmações de que o ato, em si, tratou-se de uma imoralidade. 

Nós gostaríamos muito de saber como os golpistas irão se arrumar entre eles. Cunha é uma espécie de "lixo radioativo", um sujeito cujo descarte não é assim tão simples, pois sabe muito dos estertores da política, daquele submundo em que se transformaram nossas instituições políticas, submersa numa corrupção sistêmica. Vocês conseguem imaginar o estrago de uma delação premiada do senhor Eduardo Cunha?, que conhece como poucos, toda a engrenagem de funcionamento das práticas, digamos assim, pouco republicanas da nossa política. Cunha está desgastado, é um fato, mas convém não aborrecê-lo. 

Não haveria condições de saber qual foi o acordo firmado entre ele e o presidente interino, Michel Temer, mas, seja qual for os seus termos, será muito difícil de cumpri-lo, dadas as tamanhas evidências do envolvimento de Cunha em denúncias de malversação de recursos públicos, deixando sua imagem mais baixa do que pau de galinheiro junto à opinião pública. Chegamos a um estágio em que ele terá que ser "entregue", embora as manobras recentes na Câmara dos Deputados, logo após esse encontro, indicam que há movimentos que sugerem que os atores ligados ao staff dirigente interino ainda desejam preservá-lo.    

Creio que os operadores dessa engrenagem do golpe institucional estão muitíssimo preocupados com a "solução" Cunha. O que fazer com um ator político que já cumpriu o seu papel, precisa ser descartado, mas sabe muito e suas revelações podem comprometer muita gente. Eis aqui um bom teste para o establishment golpista, ou seja, o conjunto de forças que estiveram envolvidas nessas manobras contra a presidente Dilma Rousseff. Confesso a vocês que não nos surpreenderia que, em meio a essas tensões, o senhor Eduardo Cunha resolvesse "suicidar-se", sob aquelas condições conhecidas, dignas dos melhores romances policiais de Andrea Camilleri. Salvar Cunha tornou-se um "custo" muito alto até para os golpistas, que se encontram às turras com a opinião pública brasileira e com a comunidade internacional. 

No dia de ontem, foram registrados alguns incidentes com professores que protestavam nas dependências do Ministério da Educação, em Brasília. Os últimos informes dão conta de que alguns deles teriam sido até detidos e encaminhados para a Polícia Federal, enquanto outros foram agredidos por seguranças até com tesouradas. Os professores protestavam contra os recentes anúncios de desvinculação dos gastos com educação com a receita da União. Um outro retrocesso seria desobrigatoriedade do pagamento do Piso Nacional dos Professores. Antecipamos que a "luta pela educação" tornou-se um palco de disputas políticas dos mais acirrados neste momento, sobretudo em razão das propostas indecentes do ator pornô Alexandre Frota para a área. Fiquem atentos sobre o que ocorre por ali. É bom termômetro da luta pela "redemocratização" do país. Jamais poderíamos imaginar que voltaríamos a usar essa expressão, mas voltamos.

P.S.: Do Realpolitik: A decisão de deixar de publicar nossos artigos em outros blogs foi pessoal. 


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