sexta-feira, 17 de junho de 2016

Editorial: Pede para sair, Michel Temer.



A história dos partidos políticos tem alguns lances curiosos. A existência dos parlamentos antecedem a criação dos primeiros partidos políticos. Os primeiros partidos criados foram os chamados partidos de quadros, forjados nesse ambiente, com grupos bem específicos de representados. Somente com a democratização do direito do voto - inserindo no processo eleitoral contingentes cada vez expressivos e identificados com demandas distintas - inclusive das demandas da classe trabalhadora - é que surgiriam os partidos de massa, com características bem diferenciadas dos partidos de quadros. Os anos se passam e o sociólogo Maurice Duverger, com o livro Os Partidos Políticos, continua sendo o grande teórico sobre as questões envolvendo este assunto. O livro de Duverger já nasceu clássico e continua clássico até os nossos dias. Nenhum outro autor conseguiu estruturar ou categorizar melhor essa discussão, de forma que, a ausência de Duverger num debate sobre o tema está fadada a um rotundo fracasso, até mesmo fora do circuito acadêmico.

O PMDB é um partido de quadros. Ao longo de sua história sofreu algumas metamorfoses, todas na direção de uma profunda degradação programática, ideológica e de princípios de conduta dos seus atores políticos. Até mesmo seus mais ferrenhos críticos reconhecem que, num momento específico de nossa história política, o partido cumpriu um papel importante: Quando exercia a oposição consentida pelo regime militar e no período imediatamente seguinte, já no processo de descompressão do regime ou na abertura política. Por ser o único partido de oposição permitido, grandes quadros da política nacional cerraram fileira na agremiação. Aqui em Pernambuco, por exemplo, o partido tinha quadros como Egídio Ferreira Lima, Fernando Coelho, Marcos Freire, Fernando Lyra, Manuel Correia de Andrade, entre outros. 

Na década de 80, por exemplo, quando estava em discussão a criação de um novo partido político - desta vez um partido de massa, o PT - aqueles que se opunham argumentavam sempre que a esquerda no Estado já estava muito bem representada, sendo desnecessário, portanto, a criação de uma nova agremiação política. Havia até uma expressão emblemática: no Estado existia uma "inflação de esquerda". Os tempos se passaram e, como já afirmei, o PMDB mergulhou numa profunda crise moral, tornando-se uma federação de caciques regionais, extremamente fisiologista e portador de práticas políticas de caráter nada republicanas. Possuidor de uma grande capilaridade política, entretanto, tornou-se uma força imprescindível no contexto do nosso presidencialismo de coalizão, uma espécie de fiel da balança, com potencial para manter-se no poder em qualquer arranjo. Através dos expedientes baixos da realpolitik, assumiu o poder nas duas instâncias legislativas e no Executivo, através de urdiduras golpistas que culminaram com o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff. 

Quando o assunto é corrupção, portanto, nenhuma surpresa com o envolvimento dos atores políticos da agremiação peemedebista. O governo interino é tão podre que cai um ministro por semana, na média. O último a pedir demissão foi o do turismo, Henrique Alves, sobre quem também pesa sérias denúncias de irregularidades no recebimento de "doações". Este editorial seria pequeno para enumerarmos aqui as denúncias que também pesam sobre o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que tornou-se um homem-bomba, que põe em risco os já frágeis alicerces dessa republiqueta de bananas em que foi transformado o país com as ascensão ilegítima desses atores políticos ao poder. De Renan, sabe-se que até aquela cabeleira é falsa, custeada com dinheiro público, em voos irregulares nos jatinhos da FAB. 

Li hoje que os peemedebistas estão tentando desqualificar o teor das declarações do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Aliás, peemedebistas e tucanos, uma vez Sérgio incluiu o nome do senador Aécio Neves em suas delações, para usarmos um termo do chargista Renato Aroeira, "premiadíssimas". A reação do presidente interino Michel Temer é típica dos desesperados. O Jaburu soltou uma nota à imprensa taxando as declarações de Machado como irresponsáveis, levianas, mentirosas e criminosas. O final da notinha é que se torna emblemático: qualquer pessoa vítima dessas acusações não teria porque continuar à frente da condução dos destinos do país. Em outra nota, Sérgio Machado volta a reafirmar o que havia declarado, citando datas, valores e pessoas envolvidas. 

O fato ocorreu nas eleições de 2012, a mediação teria sido feita por Valdir Raupp - um preposto de Michel Temer - e o valor liberado foi de um milhão e meio, destinados à campanha do então candidato Gabriel Chalita. Machado, além de não estar mentido, é pai de Expedito Machado, o temido operador do PMDB, que também deve entrar no programa de delação premiada. Seria o caso de Temer também pedir para sair, guardada as devidas coerências com a notinha. Faria um grande favor ao país.  

A charge que ilustra este editorial é do músico e chargista Renato Aroeira. 

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