quarta-feira, 8 de junho de 2016

Editorial: A republiqueta golpista vem abaixo? Janot pede ao STF a prisão de Renan, Sarney, Jucá e Cunha.



Em artigo publicado no dia de ontem, aqui no blog, o cientista político Michel Zaidan, ao final, depois de demonstrar uma profunda inquietação sobre os rumos que o país está tomando, nos deixa uma interrogação: Aonde vamos parar? A pergunta faz todo o sentido se considerarmos a nossa conjuntura política. Em despacho, como já seria previsível, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lawandowski, acaba de recusar o recurso impetrado pela defesa da presidente Dilma Rousseff, que pedia a anexação dos áudios de Sérgio Machado aos autos. Na Câmara dos Deputados, permanecem as manobras para evitar a cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha(PMDB). No Senado Federal, foi arquivado o pedido de cassação do Senador Romero Jucá, segundo o relator, por falta de provas. 

Para não dizer que não falamos das flores, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao STF a prisão do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros(PMDB), do ex-presidente da República, José Sarney(PMDB), e do senador e ex-ministro do governo interno do senhor Michel Temer, Romero Jucá(PMDB). Eles são acusados de manobraram para estancar as investigações da Operação Lava Jato. Janot também pediu a prisão do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha(PMDB), mas por outro motivo, embora Cunha tenha o rabo preso com a Lava Jato. Cunha, embora afastado da Presidência da Câmara dos Deputados, continuou exercendo sua influência naquela Casa. 

O pedido de prisão ocorreu logo depois da divulgação dos áudios gravados pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, onde os ilustres atores acima foram grampeados em conversas que tinham como objetivo atrapalhar o andamento das investigações da Operação Lava Jato, e, em última análise, livrar a cara de alguns envolvidos.Nada nos leva a simpatizar com este cidadão que atende pelo nome de Sérgio Machado, ex-senador da República, até porque ele está envolvido até a medula nas falcatruas de desvio de dinheiro público ocorrida na estatal, além do fato de ser afilhado político do senhor Renan Calheiros. Mas, não se pode deixar de reconhecer que, mesmo que por vias tortuosas, ele tornou-se um ator político importante para se entender como funcionava a engenharia de desvio de recursos públicos instalada na estatal, assim como o ardil de negociatas com as autoridades públicas da nossa república. 

Tenho a informação de que ele sabia quem seriam as raposas graúdas que a Procuradoria-Geral da República deseja pegar, dai facilitando a homologação de sua deleção premiada. Como barganha, ainda negociou a delação premiada do filho,Expedito Machado Neto, um homem bomba, posto que cumpria o papel de operador do PMDB. Ontem li um artigo, publicado no Portal Carta Maior, e preferimos não republicá-lo no blog em razão dos termos duros com os quais os articulistas se referiam ao governo provisório do senhor Michel Temer. Mas, eu diria, sem eufemismo algum, que estamos diante de um governo provisório de temerário, que rebaixou o Brasil à condição de uma republiqueta de bananas, do jogo pesado, do vale tudo. Na condição de presidente do PMDB, Temer também foi grampeado por Sérgio Machado e, certamente, em conversas comprometedoras. 

Seu ministério é quase todo bichado. Cai, em média, um ministro a cada 10 dias. Já estão na bimba do boi, o ministro do turismo Henrique Eduardo Alves(PMDB) – também em razão da Lava Jato – e Fátima Pelaes, Secretária de Políticas para as Mulheres, acusada de desviar 04 milhões de emendas parlamentares. Não é uma tarefa das mais difíceis encontrar um “coxinha”. Eles estão por toda parte, até mesmo dentro dos nossos núcleos familiares. Gostaria muito de conversar com algum dele para saber como eles estão se sentindo neste momento, ao saber que apoiaram uma escória política, que ascendeu ao poder através de expedientes escusos e estão enlameando a imagem do país, chafurdando em denúncias de corrupção. É um governo ilegítimo, golpista, sem credibilidade. 

Seus apoiadores não estão tendo sossego nem em seus redutos políticos tradicionais. O senador Cássio Cunha Lima(PSDB), um dos seus operadores, tomou uma estrondosa vaia na abertura do tradicional São João de Campina Grande. Campina Grande é uma espécie de curral dos Cunhas Lima. Cássio já venceu eleições para prefeito daquela cidade com mais de 80% dos votos válidos. Para se ter uma ideia do capital político da família na cidade, nas últimas eleições presidenciais, Campina Grande foi a única cidade do Nordeste onde o então candidato Aécio Neves conseguiu ganhar de Dilma Rousseff, para desespero do professor Durval Muniz, um dilmista de coração. Pois bem. O senador recebeu a maior vaia do mundo, ao coro de golpista! golpista!golpista! 
Em décadas, é a primeira vez que um rebento dos Cunha Lima é vaiado na abertura daquele evento. Durval, finalmente, foi redimido.

Creio que as nossas frágeis instituições da democracia chegaram ao seu limite. No Legislativo, um ex-presidente da Câmara Federal na iminência de ser cassado, enredado nas mais nebulosas denúncias de corrupção. É pedida a prisão – também pelos mesmos motivos – do presidente do Senado Federal. O clima no Judiciário – apesar de raros rompantes de lucidez – ainda é de muita insegurança jurídica. O Executivo é conduzido por golpistas enredados em denúncias de corrupção. A economia não vai bem, há um déficit de 170 bilhões nas contas públicas. Estamos próximos, portanto, da agudeza de uma crise institucional, política e econômica. O STF encontra-se em polvorosa, sobretudo em razão do vazamento dessas informações sobre os pedidos de prisão - que deveriam ser mantidas sob o mais estrito sigilo.A cada 10 dias Temer precisa afastar um dos seus auxiliares. Ontem disponibilizei aqui no blog um artigo do professor de filosofia, Gabriel Cohn, onde ele apontava que estávamos presenciando apenas a ponta do iceberg dessa crise sistêmica. Infelizmente, ele pode ter razão. Não se vislumbram nuvens claras no horizonte. 

Em razão da idade e por razões de saúde, o pedido de prisão do ex-presidente José Sarney prevê que ele poderá cumpri-la em regime domiciliar. Embora isso traga alguns danos psicológicos, o velho oligarca deve abrigar-se em sua ilha, adquirida numa reserva de mata atlântica, no Maranhão.Pelas redes sociais, não param de ser editados memes ironizando sobre esta prisão, pedindo que Janot também decrete a sua, pelos mais criativos motivos. É só dá uma olhadinha no microblog Twitter.  A turma é boa!

A charge que ilustra esse editorial é do músico e chargista Renato Aroeira. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário