domingo, 5 de junho de 2016

Mendoncinha, o "Libertador!"

O atual Ministro da Educação, Mendonça Filho (Mendoncinha), evoca constantemente, em suas locuções públicas –em geral, naquelas em que precisa se defender da acusação de “reacionarismo”- o fato de ter sido aluno da Escola Parque do Recife. Na última entrevista à Folha de São Paulo, chega a afirmar que “Estudei na escola privada mais radical de esquerda do Recife, a Escola Parque, cujas fundadoras também fundaram o PT”! E afirma, entre outras, que aquela era a “escola da diversidade”. Tais declarações, no fundo, depõem contra o autor: se tivesse aprendido algo com Myrtha, Dosa ou Malba não defenderia governos que fazem da cultura uma experiência menor ou socialmente irrelevante. Nem convidaria para sua assessoria (SESU) defensores de verbas públicas para o bolso de lucrativíssimas faculdades privadas.
Fui fundador da EPR (1978) e professor de história dele entre os anos de 1978 e 1985, e penso que, decididamente, tenho que me aposentar para não ficar produzindo personalidades deste tipo.
Calado, gentil e intelectualmente mediano, Mendoncinha expressava recorrentemente opiniões conservadoras em uma escola de classe média alta que não tinha nada de cultora de “diversidades” (foi, no fundo, apenas a “escola da Abertura”), muito menos das diversidades “culturais” que, pelo visto, nosso Ministro parece não gostar muito. Lembro perfeitamente quando, em uma de minhas aulas, pedi aos alunos a leitura da peça de Brecht, “A exceção e a regra”, para posterior discussão, e os pais dos alunos –entre eles o de Mendoncinha (José Mendonça)- exigiram uma reunião com a direção para pedir minha cabeça: foi a resistência altiva das três professoras que impediram que eu perdesse meu emprego. Mendoncinha continuou na escola, provavelmente para aprender mais sobre “diversidade”!
Sua serena e convicta aceitação do fim do Ministério da Cultura, no entanto, merece um comentário. 
Quem leu o Mal Estar na Civilização (1930) sabe que Freud afirmava que o preço que teríamos pago pela cultura era o de abdicar do princípio do prazer: consubstanciada no super-ego, a cultura, com suas normas, valores, moral, interdições e repressões, servia para conter pulsões libidinais que, “sublimadas”, viravam obras de cultura. Reich achava que enquanto não experimentássemos a liberdade sexual –que instituições culturais como a família reprimem severamente- não podíamos falar de liberdade política. A frase de Benjamin mais repetida é a famosa ‘Toda obra da cultura é também obra da barbárie!”.
Foi lembrando e refletindo sobre estes autores (alguns claramente “de esquerda”) que compreendi a aceitação de Medoncinha pelo fim do MinC: se cultura é repressão e impede que os sujeitos possam ter uma vida saudável; se as obras da cultura produzem a barbárie das sociedades tecnológicas, se as instituições culturais (como a Escola Parque) produzem mais desigualdade sob a forma da “violência simbólica”, então, conclui nosso Ministro, o fim do MinC é o primeiro e decisivo passo para libertar a sociedade e os sujeitos de suas invisíveis amarras culturais.
Não sei se foi isto o que ele aprendeu na Escola Parque naqueles anos, mas, convenhamos, é uma engenhosa forma de liberdade social e política que nem as “fundadoras da Escola Parque” ousariam imaginar. Com toda a sua... “diversidade”!


Flávio Brayner é Professor Titular da UFPE

Um comentário:

  1. #‎ImpeachmentSansCrimeDeResponsabilitéEstCoup‬ - #FarsaJurídica #OMundoSabeQueéGolpe - Me perdoem vocês que foram pra rua bater panela, enroladxs na bandeira, pedindo pelo FIM DA CORRUPÇÃO e pela HONESTIDADE!!! ... É o dedo sujo que simboliza a desonra da elite brasileira. ... É o dedo da entrega do país agora no governo golpista, novamente aos grupos estrangeiros. ... É o dedo do golpe contra a população brasileira. ... ‪#‎GolpistasNãoPassarão‬ ‪#‎CunhaNaCadeia‬ ‪#‎BrasilContraoGolpe‬ ‪#‎VoltaDilma‬ ‪#‎VoltaQuerida‬ ‪#‎NãoaoGolpeFascista‬

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