quarta-feira, 20 de julho de 2016

Editorial: E o Datafolha falhou de novo. Alguma novidade?



Nesses momentos sombrios de insegurança institucional, noutros tempos, esperava-se da imprensa uma oposição dura à quebra contratualista do regime democrático, assim como às violações dos direitos individuais e coletivos. No Brasil de hoje, são raros os meios de comunicação que, de fato, cumprem o seu papel inerente de informar corretamente o cidadão, fiscalizar o exercício da gestão pública, além de propugnar a absoluta liberdade de expressão. Três episódios recentes nos deixam espantados com o comportamento de setores midiáticos brasileiros, que não escondem sua simpatia pelo afastamento temporário - ilegal e irregular- da presidente Dilma Rousseff do poder. A cobertura da mídia sobre os recentes pareceres emitidos por procuradores do Ministério Público Federal, que a inocenta de ter cometido qualquer crime de responsabilidade, por exemplo, tiveram pouquíssima repercussão na mídia. Escrevemos um longo editorial a esse respeito, informando que até "Marx" saiu em defesa da presidente afastada. Em breve, o publicaremos aqui para vocês.

Um outro episódio diz respeito ao embate entre os advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os juízes da chamada República do Paraná. Assim como a presidente afastada Dilma Rousseff, o ex-presidente parece que também conta com um bom corpo de advogados em sua defesa. Eles alegam vários problemas com os processos movidos contra o ex-presidente, bem como sobre a necessidade de o juiz Sérgio Moro não mais ficar responsável por eles, uma vez, em diversos momentos, de acordo com a defesa de Lula, ele demonstrou absoluta ausência de isenção para julgá-los. Incontáveis vezes, ainda de acordo com os advogados de Lula, Sérgio Moro já teria cantada a pedra, ou seja, antecipado a sua decisão sobre o assunto. Isso teria saído até em jornais como o New York Times. Por aqui, nenhuma linha. 

O terceiro episódio é mais dantesco. O Instituto Datafolha - depois de uma longa trégua ao governo interino - resolveu voltar a realizar suas pesquisas. Há alguns dias atrás o jornal Folha de São Paulo divulgou uma pesquisa sobre a atual conjuntura politica brasileira, ou, mais precisamente, sobre o governo interino de Michel Temer. Há, ali, naquela pesquisa, uma falha clamorosa, admitida pela gerente do instituto, Luciana Schong, que, em última análise acabou favorecendo o governo interino. Claro que sem essa intenção, dizem. Entenda como quiserem. Tratou-se, tão somente, de um erro "metodológico". O fato alcançou, como já seria esperado, ampla repercussão nas redes sociais, com os internautas baixando a lenha através da hashtag #Datafalha. Por ali, é possível remontar a possíveis outros "erros" cometidos pelo instituto, em momentos distintos de nossa história. 

Há bem pouco tempo, institutos como o Paraná Pesquisas, o IBOPE e a próprio Datafolha divulgaram pesquisas acerca do desejo da população brasileira no que concerne à novas eleições presidenciais, diante desse imbróglio político em que estamos metidos. Nos três institutos, com, ligeiras variações, o percentual de brasileiros que desejam novas eleições chega a 63%. Pois bem. Nesta última pesquisa do Datafolha essa opção não foi posta para os entrevistados, levando o instituto a concluir, não se sabe como, que apenas 3% da população desejaria novas eleições. De acordo com o instituto, 50% da população deseja que Temer continue, 32% desejam a volta de Dilma. 

De acordo com o jornalista Gleen Greenwald, correspondente do Intercept no Brasil, ocorreu uma fraude. O jornalista também afirmou que os meios de comunicação brasileiros representam uma ameaça à democracia e a liberdade de expressão ao incitar golpes e manipular informações para que eles se consolidem. Uma pena que setores de nossa imprensa se prestem a este serviço, o de ocupar um espaço tão privilegiado nessas urdiduras, ao ponto de , num futuro próximo, entrarem para os estudos sobre o tema com um status bastante elevado. Não há como negar o papel decisivo exercido por esses órgãos no processo que culminou com a materialização de um golpe parlamentar no Brasil. Este jovem jornalista Green Greenwald é muito bom.  

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