terça-feira, 26 de julho de 2016

Editorial: O atentado maior foi o cometido contra a democracia.




No ano de 2014 o país realizou uma Copa do Mundo.  Perdemos, como se dizia em nossa época de peladeiro, dentro e fora de campo. Não sei qual foi o vexame maior. Se dentro ou fora de campo. Depois daqueles episódios, perdi completamente o entusiasmo pelo futebol, algo que alimentava desde a mais tenra infância. Até hoje o país paga um ônus altíssimo em função da realização daquela Copa. São obras inacabadas, superfaturadas, somas vultosas de desvios de recursos públicos na construção das arenas, além de um "desgaste" de capital político envolvendo atores brasileiros e estrangeiros. Logo depois da realização daquela Copa, além dos protestos das Jornadas de Junho, a presidente afastada, Dilma Rousseff, segundo dizem, teria iniciado ali o seu inferno astral, a partir das vaias dos coxinhas presentes aos estádios. Vaias e xingamentos, registre-se. Era a "senha" de uma campanha com o propósito de afastá-la do exercício da Presidência da República. Pouco tempo depois também estourariam os escândalos envolvendo os dirigentes da própria FIFA, aqui e alhures, que tornou-se uma organização mais parecida com uma máfia do que propriamente uma entidade que dirige o futebol mundial. 

Convém aqui esclarecer que os manifestantes das Jornadas de Junho, na realidade, questionavam a realização de uma Copa do Mundo no país - com gastos exorbitantes - quando se poderia destinar esses recursos para outras finalidades, como educação, por exemplo. Em muito pouco tempo estaremos dando início a um evento esportivo de grande magnitude. As olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Assim como ocorreu com a Copa de 2014, as olimpíadas também serão realizadas sem as condições ditas ideais. Na semana passada foi anunciada, com grande estardalhaço, a prisão de supostos terroristas do Estado Islâmico que estariam planejando atentados durante os jogos. Concretamente, até o momento, nada sugere que algum atentado estava sendo planejado para ser executado no país. O que salta aos olhos mesmos é a dureza da lei antiterror aplicada aos suspeitos, cujos advogados ainda não tiveram permissão de vê-los. Isso é grave. Atentado, mesmo, foi o cometido contra a democracia brasileira.

Com a chegada das delegações estrangeiras, mas um vexame. Duas delas já abandonaram a vila olímpica alegando falta de condições de higiene para se manterem no local. Isso, como ensinava nossos avós, era o mínimo que se poderia oferecer aos anfitriões. Se nem isso nós conseguimos oferecer, nada sugere que as delegações estrangeiras possam deixar o país, depois da realização dos jogos, com uma boa impressão. Assim como ocorreu durante a realização da Copa de 2014, estamos cumprindo uma marca que nos caracteriza no estrangeiro: vamos de "jeitinho", comendo o mingau quente pelas beiradas, na base do tudo de ajeita, tudo se improvisa. No final "tudo" acaba bem. Particularmente, tenho muita resistência a esse tal "jeitinho", mas ele é visto até com bons olhos por algumas escolas de administração, que advogam que racionalidade demais, às vezes, atrapalha. 

Se não ocorrer nenhum atentado terrorista, creio, já está de bom tamanho. Como disse, com questões de segurança pública não se brinca. Torço sempre para que os atores políticos envolvidos com esta questão acertem o passo e evitem possíveis ocorrências. Segurança pública diz respeito a toda a sociedade. Quando o aparelho de Estado erra aqui, quem sofre as consequências pode ser qualquer um de nós. Em Nice, por exemplo, 83 pessoas inocentes aguardavam o espetáculo da queima de fogos de artifício durante as comemorações da Queda da Bastilha, um feriado francês. As autoridades devem ser cobradas,sim, mas nós devemos fazer a nossa parte. 

A grande questão, no entanto, é que esta guerra ao terror certamente deve ter contribuído para este Estado de Exceção Permanente, ora observado em todo o ocidente. Precaução é sempre um dado importante para que atentados sejam evitados, mas, no caso específico do Brasil, há um consenso de que houve um certo exagero nas medidas tomadas pelo Ministério da Justiça. Os chargistas, como já dissemos por aqui, são quem melhor traduzem essas situações. No dia de ontem, em sua timiline da rede Facebook, mais uma charge do genial Aroeira, desta vez retratando que o terrorismo no Brasil, na realidade, pode ser apenas coisa da cabeça certas autoridades do governo interino. Que assim seja. Outro dado ainda mais importante é que o uso dessa lei antiterror não seja banalizado e usado com outras finalidades, como observou o cientista político Michel Zaidan Filho, em conversa com o editor do blog. 

P.S.: Do Realpolitik: Até o momento, as delegações australiana e sueca pediram para sair da Vila Olímpica, alegando falta de condições de higiene e segurança, mas existem outras delegações insatisfeitas.


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