quinta-feira, 21 de julho de 2016

Editorial: Tribunal Internacional conclui que houve um golpe de Estado no Brasil.









Este editoral foi escrito no epicentro da crise política que desencadeou o golpe de Estado na Turquia. Mantido em banho-maria, somente um pouco depois ele foi publicado, em razão de nossa prudência em aguardar o rumo dos acontecimentos. Golpes, seja militar ou parlamentar, exigem amplas negociações com os atores neles envolvidos. Não é incomum que, numa primeira tentativa fracassada, os golpistas possam se aventurar novamente na tomada do poder. Talvez seja por isso que os expurgos naquele país atingem números tão expressivos: 50 mil até o momento, de acordo com algumas fontes, entre militares, juízes e professores. Ainda não entendi muito bem porque tantos professores estariam supostamente envolvidos nessas armações golpistas. Será que existe alguma Escola Sem Partido por lá? O chamamento do título do editoral não corresponde tão organicamente ao conteúdo do texto, pelo que peço desculpas aos leitores. O Tribunal Internacional que se reuniu em São Paulo recentemente, de fato, inocentou a presidente Dilma Rousseff, concluindo que ela foi vítima de um golpe de Estado. Em algumas ocasiões, os golpistas não precisam usar baionetas. Optam por alguns veículos de comunicação, conforme ilustra o gênio do Aroeira. 

Como disse aqui outro dia, os chargistas, através dos seus traços, são insuperáveis em traduzir a realidade política do nosso país. Além dos traços, não raro, eles arriscam seus comentários pelas redes sociais, sempre carregados de malícia e sapiência. O alagoano Léo Villanova, por exemplo, que publica suas charges no jornal Gazeta de Alagoas, através de sua timiline, da rede Facebook, questiona porque os golpistas turcos não tentaram afastar o presidente Recep Tayyip Erdogan acusando-o de ter cometido aquelas esfarrapadas pedaladas fiscais sobre as quais Dilma Rousseff foi injustamente acusada. Ciente de que depois do parecer do Ministério Público Federal, que inocenta Dilma de qualquer responsabilidade sobre o tema - o que deveria interromper o processo de impeachment ora em curso - raciocina que talvez os golpistas brasileiros estejam pensando numa alternativa mais radical: Um golpe militar tradicional, com tanques na rua e tudo. Observaria ao Léo que os golpistas ainda possuem uma carta na manga: o TSE. Em todo caso, convém colocar as barbas de molho. Nunca se sabe. Quem poderia imaginar uma quartelada como a que ocorreu na Turquia?

Os golpistas da Turquia foram, digamos assim, menos sutis ao atentarem contras as instituições da democracia naquele país. Deram uma quartelada como aquelas que se faziam pelas décadas de 60, colocando tanques nas ruas, tomando setores estratégicos, matando alguns civis, que esboçaram uma reação impressionante. Foram 265 mortos, entre militares legalistas, golpistas e civis. Ainda temos poucas informações para fazer uma análise mais precisa sobre a engrenagem deste golpe, mas o que se sabe é que os partidários do governo legal estão promovendo uma verdadeira assepsia anti-golpista no país, expurgando militares, juízes, professores, entre outros.  

Como disse uma fonte ligada ao presidente Recep Tayyip Erdogan, a situação está 90% sob controle. Nessas circunstâncias, também ocorre uma poderosa guerra de informações, impondo-nos algumas reservas sobre as notícias que circulam, sobretudo dependendo dos atores. Por enquanto, a situação aparentemente está sob o controle das forças legalistas, que promovem um verdadeira devassa no estamento militar e jurídico do país, como disse. 2200 militares foram afastados, assim como 2.745 juízes comprometidos com a conspiração de caráter golpista. Essas urdiduras, normalmente, são como ervas daninhas, que voltam a crescer em algum momento. Tenho curiosidade em saber como os juízes movimentarem a máquina golpista por lá.  

O que nos deixa felizes é a ver a população nas ruas, festejando a volta da normalidade democrática no país. Isto, sim, nos remetem a um certo otimismo quanto à saúde da democracia naquele país, a despeito dos problemas étnicos que criam alguns embaraços, como já frisamos em momentos anteriores. Por aqui, Léo, apesar de os conspiradores terem optados por outros métodos, nem mesmo o parecer emitido pelo procurador do Ministério Público Federal, Ivan Cláudio Marx, solicitando o arquivamento do inquérito que acusava a presidente afastada Dilma Rousseff de ter cometido as pedaladas fiscais, no que concerne ao Plano Safra - observado por ele como um simples inadimplimento contábil - arrefeceu o ânimo da turma que pretende afastá-la do poder definitivamente. 

Acabamos de produzir um editorial sobre o papel da imprensa em três momentos da história recente do país. Três momentos, ressalte-se, cruciais. O parecer do procurador Ivan Cláudio Marx foi praticamente ignorado pela grande mídia, mesmo em se tratando de um parecer que põe por terra as acusações que pesavam contra ela no processo de impeachment, portanto tornando-o inócuo. Confesso que tive dificuldades em encontrar os elementos que embasaram a decisão do procurador, que afirma que as operações do Plano Safra, sequer, podem ser tipificadas como operação de crédito, muito menos crime. Ou seja, houve ali um simples inadimplimento contábil, desses que costumam ocorrer com o mais comum dos mortais, sobretudo nesses momentos difíceis. 

A charge que ilustra este editorial é do músico chargista Renato Aroeira. 

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