terça-feira, 2 de agosto de 2016

Editorial: Lula réu. Relatório de Anastasia condenando Dilma. O ciclo está se fechando.






É preciso ficar bastante atento sobre os movimentos do nosso sistema judiciário, sobretudo nesses momentos de turbulência politica, caracterizados por muita insegurança jurídica. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu à Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, argumentando sobre violações de direitos no Brasil. Dependendo das fontes, já li diversas avaliações sobre o assunto, inclusive um editorial de um jornal da chamada "grande" mídia, afirmando que Lula havia dado um tiro no pé e que, com isso, encerrava de forma melancólica sua carreira política, sem a menor chance de candidatar-se novamente. Não é segredo para ninguém que os atores envolvidos nas urdiduras desse golpe parlamentar, em última análise, desejam inviabilizar o maior capital político dos desfavorecidos deste país. O editor do jornal pode ter razão ao afirmar que talvez Lula esteja precipitando os fatos. Mais perdido do que cachorro em dia de mudança, com aquela sensação terrível de que poderá ficar para trás. Essa é a opinião do editor da Folha.

O que alguns analistas políticos calculam é que, mais uma vez - a primeira foi por ocasião do vazamento ilegal dos áudios - Lula provocou o judiciário novamente, tornando-se susceptível a uma rebordosa. Torna-se réu, a partir de uma decisão do juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10º Vara da Justiça Federal, de Brasília, segundo esses analistas, é uma primeira vingança. De fato, é um divisor político na trajetória do ex-presidente da república, mas, a rigor, isso se tornaria um fato concreto mais cedo ou mais tarde. Uma outra medida - essa tida como um golpe de mestre, pelos seus admiradores na grande mídia - teria sido a decisão do juiz Sérgio Moro em libertar o marqueteiro João Santana e sua esposa Mônica Moura, depois do pagamento de uma fiança superior a R$ 31 milhões. Salvo por essa quantia exorbitante paga como fiança, o acordo foi selado em condições bastante amigáveis, donde se pode concluir que, em sua delação premiada, o ex-marqueteiro do PT poderia comprometer o ex-presidente no futuro, o que se deseja desde o início dessas urdiduras.

Uma outra leitura que se faz é que essas acusações que correm contra Lula é apenas a ponta de um iceberg. Eles estariam preparando acusações bem mais graves contra o ex-presidente, o que o teria levado a pedir uma espécie de habeas corpus preventivo na Organização das Nações Unidas, antecipando-se aos fatos. Consolidado o processo de afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff, algo que se prevê que ocorra no finalzinho de agosto, em nossa modesta opinião, essas muçuranas irão jogar todas as suas forças para devorar a jararaca. Ainda se o Lula fosse uma cobra coral...mas não é. As muçuranas resistem ao veneno das jararacas. Ao optar por governar com a elite, numa espécie de conciliação de classe, o PT cometeu o grave equívoco de afastar-se dos movimentos sociais, cujas forças estão desorganizadas, fragilizando a resistência. 

Acaba de sair o relatório do senador Antonio Anastasia(PSDB), relator da Comissão Especial de Impeachment do Senado Federal. Um calhamaço de 441 páginas, sem nenhuma surpresa naquilo a que ele se propôs desde o início: condenar a presidente Dilma Rousseff. O terreno está preparado para a sua degola, a despeito das opiniões de especialistas afirmando que a presidente não cometeu nenhum crime de responsabilidade. Anastasia era um quadro técnico - professor universitário - antes de ser arrastado para a política pelas mãos do senador Aécio Neves. É formado em direito e professor universitário, como já disse. Não sei nada sobre a sua experiência como advogado. É preciso entender, no entanto, que ele aqui cumpre um papel político, que parece ter desempenhado muito bem, consoante os interesses em jogo, com os quais ele se identifica. Este é o editorial que não gostaria de ter escrito, mas ele traduz um quadro político previsível, o que nos contingencia a redobrar os esforços para a estratégia de resistência, entendendo que algumas batalhas, infelizmente, estão irremediavelmente perdidas.


P.S.: do Realpoliitk: É, de fato, muito difícil se contrapor a essas urdiduras. Elas são muito bem planejadas e executadas com precisão cirúrgica, deixando poucas chances de reação para as suas vítimas. O fato de o ex-presidente ter recorrido a um organismo internacional dá muito bem a dimensão do problema. Seus direitos estão sendo violados por quem deveria assegurá-lo e protegê-los. A brincadeira com a cobra coral e a muçurana é que a muçurana não resiste ao veneno da cobra coral. Creio que uma das poucas que conseguem, com o seu veneno, impedir as ações da muçurana. Importante lembrar aqui que o ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, foi deposto em 36 horas, num julgamento de exceção. Em Honduras, Manuel Zelaya sequer teve seu direito de defesa assegurado. Isso é muito sério.  

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