segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Editorial:#MenosOdioMaisSabatella







O grande Millor Fernandes não gostava muito da frase: uma imagem vale por mil palavras. Talvez porque o seu inegável talento estivesse muito além do traço. Millor também escrevia muito bem. Em todo caso, as duas imagens acima comunicam muito, quiçá talvez até dispensado este escriba de maiores comentários sobre o ocorrido neste último domingo, dia 31, quando das mobilizações sociais dos "coxinhas" e "mortadelas". Em Curitiba, quando participava de uma manifestação contra o golpe institucional ora em curso no Brasil, a atriz Letícia Sabatella foi duramente agredida por manifestantes "coxinhas". Um desses cidadãos, já devidamente identificado, dirigiu-se à atriz com palavras de baixo nível, o que poderia ser caracterizada por uma prática fascista, que vem se tornando comum nesses tempos nebulosos que estamos vivendo. 

O país está mergulhado numa profunda crise política, como resultado de uma conjunção de fatores, cujo desfecho é imprevisível. Difícil predizer o que poderá ocorrer daqui para frente. Neste clima de animosidade e beligerância, até mesmo um "fechamento" maior do sistema entra como uma das possibilidades possíveis. A mobilização dos "coxinhas" foi um verdadeiro fracasso. Creio que a pior de todas até aqui. Os mais consequentes já se deram conta de que entraram numa canoa furada. Apoiaram a derrubada de uma presidente legitimamente eleita e colocaram no poder uma trupe mais suja do que pau de galinheiro, comprometendo o alicerce institucional de uma experiência democrática em processo de consolidação. Não sei se vocês observaram isso, mas não aparece entre os "coxinhas" os apoiadores do presidente interino. Nenhuma faixa, nenhuma cartaz. Nada. A pauta, como sempre, é uma pauta torpe, difusa, confusa, burra e agressiva. 

Os "coxinhas" formam uma massa ensandecida, perigosíssima, movidas por objetivos vis. Pedem a volta da ditadura militar, fazem apologia de estupradores e torturadores. Outro dia enfrentamos enormes embaraços por ter publicado um editorial relativo aos processos que correm contra o Deputado Federal Jair Bolsonaro. Quando eles mostram a cara, estão lá um monte de jovens - inclusive mulheres - que poderiam estar canalizando suas energias para construir um país melhor, mais justo, mais tolerante, com instituições democráticas sólidas. Ao contrário disso, embarcaram nessa canoa furada golpista, liderada por atores políticos com as fichas mais sujas do nosso sistema político, dispostos a dilapidar o patrimônio nacional - já deram início à privatização da Petrobras - constranger as liberdades coletivas e solapar direitos e garantias constitucionais. Irresponsavelmente, jogaram o país nesse lodaçal. 

Nossa preocupação, no momento, tem sido a de arregimentar as condições necessárias para este enfrentamento. A estratégia do PT em governar com a elite já mostrou o seu desfecho trágico. Ficou só. Quando foi traído por esta elite, já carecia do apoio da sua base de sustentação histórica nos movimentos sociais, que estava desorganizada, de acordo com o cientista político Luis Felipe Miguel.  Creio que todos os erros possíveis já foram cometidos pelo PT. Não podemos errar de novo. Dilma Rousseff dificilmente voltará a ocupar sua cadeira no Palácio do Planalto - afinal, golpe é golpe - e vão dar um jeito de ou prender ou tornar Lula inelegível em 2018. Alguém tem mais alguma dúvida sobre isto? Se tiver, deixe seus comentários aí embaixo. Nosso aparato judicial, hoje, move-se numa direção "x", que todos conhecem. Portanto, como se dizia na nossa época, não adianta reclamar ao Papa. Que nos perdoem os mais otimistas, mas é com estes dados que a gente precisa começar a trabalhar. 

Hoje, 31, foi um dia de convenções e mobilizações. Aqui em Olinda, a candidatura da professora Teresa Leitão(PT) foi homologada e ela está oficialmente na disputa pela Prefeitura da Cidade Olinda, numa coligação que reúne, além do PT, o PRB, o PTB, o PTdoB e o PTN, que indicou o vice, Péricles Chagas. O país vive um momento de muita insegurança jurídica e instabilidade política. No plano federal, mesmo entre os atores políticos do campo da oposição, o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff é dado como favas contadas, uma vez que os eu julgamento é político e se dará pela vontade do julgador, numa espécie de juízo imperial, como já ocorreu em casos semelhantes de golpes parlamentares em Honduras e no Paraguai. Zelaya sequer teve direito de defesa e Fernando Lugo, do Paraguai, foi submetido a um "julgamento" a jato e de exceção. 

As palavras de um dos atores políticos pernambucanos mais "engajados" no afastamento da presidente Dilma Rousseff, dão a dimensão do que estamos afirmando. Numa entrevista a um blog local, ele afirmou que o processo é "lento", criando embaraços gerenciais para o interino e a possibilidade de conspiração por parte daquela que ainda não foi apeada definitivamente do poder, Dilma Rousseff. Como se não bastassem todas as demais questões envolvidas nesse processo ilegítimo de impeachment, os caros ainda estão preocupados com a sua "lentidão". Creio que as forças democráticas deste país devem orientar suas estratégias para o pós-golpe, no sentido de impedir o desmantelo generalizado do edifício jurídico do Estado Democrático de Direito e rearticular suas forças para os próximos embates que deveremos travar daqui para frente.

Neste sentido, as próximas eleições municipais deverão se constituir num bom momento, criando a musculatura política necessária para esses enfrentamentos. A direita não perde tempo. Quem tiver a curiosidade de observar irá encontrar, nas Câmaras Municipais mais improváveis, algum projeto de lei nos moldes da Escola Sem Partido. Curioso isso, não? Nem tanto. Faz parte, na realidade, de uma estratégia muito bem urdida, com propósitos bem claros. Há alguns anos atrás, quem poderia imaginar que enfrentaríamos um retrocesso politico no país com essa dimensão? O cartaz da jovem acima pode até parecer ingênuo e "inofensivo", em razão do seu descalabro. Mas o fato é que aquilo que começou com os xingamentos à presidenta Dilma Rousseff quando ela comparecia aos estádios, culminou com o seu afastamento temporário do poder e o país metido nessa enrascada. Há muito ódio e intolerância nessa gente. 

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