quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Afinal, qual o partido da Escola Sem Partido?




José Luiz Gomes da Silva

Cientista Político. 


A teoria crítico-reprodutivista em sociologia da educação é uma das mais expressivas, envolvendo pensadores franceses e americanos. Há boas referências americanas, mas os pensadores franceses acabaram se destacando mais nesta "escola". Entre os franceses, sem sombra de dúvidas, aqueles que mais se projetaram - pedindo perdão aos leitores por alguma injustiça - foram o filósofo marxista Louis Althusser e o sociólogo Pierre Bourdieu. Althusser com um livro esquemático, bastante didático, que se tornaria um clássico: Estado e Aparelhos Ideológicos do Estado.O trabalho mais conhecido do sociólogo Pierre Bourdieu neste campo de estudo é o livro A Reprodução, escrito a quatro mãos com o companheiro Jean-Claude Passeron. Depois desses trabalhos, a ideia inicial da função equalizadora da escola, no contexto de uma sociedade capitalista, tornou-se ingênua, porque, em vez de democratizar, a escola reproduz as diferenças sociais, perpetua o status quo e, por isso, é uma instituição discriminatória e repressiva, um aparelho do exercício da violência simbólica, através da imposição de uma ideologia.

O livro A Reprodução, assim como toda a obra de Bourdieu, exige uma boa disciplina de leitura, mas, superada esta fase inicial, o leitor irá se deparar com uma radiografia sem retoques sobre como as desigualdades se perpetuam no sistema educacional capitalista francês, com escolas destinadas aos filhos da burguesia e escolas destinadas aos filhos da classe operária, cada qual cumprindo um papel específico na reprodução das relações sociais de produção. Afinal, numa sociedade desigual, o aparelho escolar não poderia deixar de externar essas desigualdades, ajudando-as a se reproduzirem. Convém enfatizar que foi através das faculdades de pedagogia que as ideias do sociólogo francês penetraram na academia brasileira.

No livro de Althusser, a escola é apresentada como um dos mais importantes aparelhos ideológicos do Estado, só menos importante do que a própria família, como depois corrigiria o próprio Althusser em sua autobiografia o Futuro Dura Muito Tempo. O sistema escolar, portanto, cumpre o papel de inculcar a ideologia da classe dominante, posto que dominante num determinado momento histórico, reproduzindo seus valores e interesses. Antes que Althusser chegasse a essas conclusões, o sociólogo alemão Karl Mennheim faria uma avaliação definitiva do assunto, afirmando que a escola sempre teria um caráter "reprodutivista", independentemente do contexto ideológico onde ela está inserida, ou seja, ela é reprodutivista sob o sistema capitalista, quanto sob o sistema socialista. Ou seja, "um caráter" reprodutivista da escola é inerente, independentemente do modo de produção onde ela está inserida. 

A grande questão que se colocaria desde então é, ora, se a escola vai assumir sempre este caráter reprodutivista, o que fazer então, sobretudo numa estrutura de classe capitalista? não haveria alternativa para a disputa de projetos de sociedade, para a luta de classe, para se trabalhar as contradições sociais? É neste terreno que surgem uma série de produções teóricas apontando caminhos que poderiam ser trilhados pelos educadores no sentido de problematizar as relações sociais de produção sob a esfera capitalista, criando as condições políticas para modelos de organização social menos injustos socialmente, mais fraternos e tolerantes. Os avanços dessa teoria transformaram o espaço escolar em um espaço de constantes disputas de hegemonia e contra-hegemonia, para fazer justiça a um dos seus principais expoentes, o sociólogo italiano Antonio Gramsci. 

Assim, esse "espaço de disputa" transformou o ambiente escolar plural, democrático, tolerante, susceptível às mudanças sociais que ocorrem no contexto mais amplo da sociedade, contribuindo para a melhoria dos padrões de sociabilidade. O que a Escola Sem Partido propõe é um retrocesso sem tamanho. Voltaríamos à idade das trevas, do pensamento único, do caráter exclusivamente reprodutivista do aparelho escolar, direcionados a interesses escusos, notadamente antidemocráticos.É puro obscurantismo, possivelmente, com algumas doses de fascismo. Como diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, todo discurso é uma fraude e toda palavra é uma máscara. Esses caras estão propondo uma doutrinação escolar que exclui a discussão plural das questões políticas, da diversidade de gênero, entre outros debates fundamentais para a construção da cidadania.

Não existe discurso neutro. Essa é a verdade mais óbvia. O que eles supostamente criticam é o que eles, na realidade, desejam fazer: adotar um processo de doutrinação das futuras gerações de estudantes, possivelmente dentro da perspectiva da "ordem e progresso", que é o lema deste atual governo. Outro dia um articulista fez uma observação curiosa: até na escolha do nome há matreirice desse grupo, uma vez que sugere que o ancien regime estava tentando transformar as escolas em partidos, o que é, logo de início, uma ideia a ser rejeitada. Escola não é partido, nunca foi e nem deverá ser. Mais um ponto para eles na guerra de comunicação da desfaçatez. Mas convém sempre enfatizar que esta Escola Sem Partido, na realidade, tem partido: o partido fascista. 

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