domingo, 11 de setembro de 2016

Editorial: O prazo de validade de Temer vence em dezembro de 2016. Mas não há motivos para comemorarmos.



Havia um professor nosso, em ciência política, que costumava ser bastante "esquemático" em suas análises, subdividindo e classificando os atores políticos e suas intenções em diferentes níveis, como, por exemplo, militares da linha-dura - para identificar aqueles militares que se alinhavam com regimes políticos de exceção - assim como os moderados, ou seja, aqueles favoráveis à abertura do regime militar e a retomada das regras do jogo da democracia procedimental. O mesmo raciocínio se aplicava aos atores políticos civis. Aliás, num simples exercício de remissão histórica sobre a nossa experiência ditatorial do passado, vamos observar que foram os atores civis os principais responsáveis pelo "endurecimento" do regime. 

Confesso que nunca fui muito simpático a este modelo de análise, mas admito que ele ajuda a entender, por exemplo, a correlação de forças e o jogo pesado de interesses que atuam no "escopo golpista", claramente divido, com escaramuças veladas entre os diferentes agrupamentos, sobretudo quando já observamos esse atores no "ringue" da realpolitik. A Teoria dos Jogos talvez tivesse dificuldade de explicar, por exemplo, em que conjuntura aqueles atores chegaram a este ringue, tampouco porque eles e não outros. Essas conjecturas escapam à sua tentativa de explicar determinados fenômenos políticos e sociais. 

Por aqui, temos apenas uma certeza. É preciso dividir bem essas análises para entendermos melhor esse jogo, evitando as costumeiras armadilhas da polarização, do tipo: golpistas e democratas. É possível que, assim procedendo, possamos perder de vista alguns lances importantes do processo político vivido pelo país neste momento. Se há uma certeza, é a de que golpistas sempre jogam "sujo". Neste cenário, não deve causar estranheza as capas de duas das principais revistas semanais, a Veja e a Época, ambas trazendo matérias desfavoráveis ao atual governo do senhor Michel Temer. Acrescentaria a esta lista o jornal da família Frias, a Folha de São Paulo, que, eventualmente, incursiona por matérias desfavoráveis aos atores políticos que eles ajudaram a guindar ao poder. 

A atuação do senhor Michel Temer, assim como a dos seus ministros de Estado é de uma previsibilidade espantosa. Eles chegaram ao poder com um manual a ser estritamente cumprido, consoante acordos celebrados com as forças que deram sustentação a essas urdiduras. Outro dia, conversava com o cientista político Michel Zaidan sobre a pressa com que eles investem contra os direitos sociais, trabalhistas e políticos, assim como contra as politicas sociais redistributivas de renda, traduzidas no objetivo de privatização de serviços na área de educação e saúde, constitucionalmente prevista como funções exclusivas do aparelho de Estado. Se, por um lado, o senhor Michel Temer e seus ministros estão cumprindo um script previamente acertado entre atores e grandes corporações, por outro lado, é preciso saber se esses atores políticos e essas corporações estão "satisfeitas" e se o Temer estaria atendendo às "expectativas" desses grupos de interesse. 

Mesmo entre os conspiradores, vale a máxima de uma grande raposa mineira que fez política durante aqueles tempos em que os militares assumiam os seus atos e admitiam que vivíamos uma ditadura militar. Hoje vivemos sob o jugo de uma "Ditadura Perfeita", que atenta contra os procedimentos e a a substância de um regime democrático, mas seus atores se envergonham ou abominam a pecha de "golpistas" e, "aparentemente" - apenas "aparentemente" - tudo segue na mais absoluta "normalidade", como acordar cedinho, tomar uma ducha, um cafezinho quente, comer um pão com mortadela(ops!) ou umas "coxinhas"(ops!) dormidas, trocar a água e a comida do passarinho... que está na gaiola. O político ao qual nos referimos era Magalhães Pinto, governador mineiro nomeador pelos militares, que dizia que a política é como as nuvens. Ora se apresenta de uma forma, ora de outra.

Durante as articulações no sentido de que os partidos de oposição a presidente Dilma Rousseff apoiassem as armações urdidas no sentido de apeá-la do poder, mas permitindo que o então vice Michel Temer assumisse a nau golpista, naquele momento, as nuvens indicavam que Temer cumpriria o seu mandato até 2018, abrindo espaço para os tucanos a partir de então, pouco provável que através de um processo marcado por tantas "incertezas" como uma eleição direta, daí se entender o pessimismo de alguns sobre a sua realização em outubro de 2018. O mais provável é um "arranjo" legislativo que permita aos tucanos assumirem o leme sem tais "solavancos". Em política - e sobretudo entre conspiradores - acordos são feitos para não serem cumpridos. Algo nos sugerem que Michel Temer relutaria em cumprir este acordo, assanhando-se com a possibilidade de continuar ocupando aquela cadeira. E é aqui que a porca torce o rabo. 

É neste sentido que podemos entender o que se passa nesta semana, onde as revistas semanais como Veja e Época, que não se orientam por nenhum pudor democrático ou republicano, estampam em suas matérias de capa conteúdos desfavoráveis ao núcleo-duro do governo Temer. Veja, inclusive, traz uma entrevista com Fábio Medina Osório, ex-advogado-geral da União, recentemente afastado do cargo depois de divergências com Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil. A entrevista de Osório nos ajudam a entender parte do problema, como a preocupação do governo sobre os rumos que as investigações da Operação Lava Jato poderiam tomar, atingindo aqueles atores que estão "blindados", em razão de sua identidade com o status quo golpista. 

Até aqui, nenhuma novidade. Estancar essa porra de Lava Jato fazia parte dos planos. Dois aspectos, no entanto, reservam alguma surpresa para os leitores desavisados: a) O prazo de validade de Michel Temer não se estende até 2018, mas até o final de 2016. Articulações urdidas por um certo ministro do STF pretendem encurtar o seu mandato e entregá-lo a um tucano; b) Eleições presidenciais diretas em 2018 tornou-se uma grande utopia. Como testa de ferro dos interesses americanos aqui no país, José Serra desponta como um potencial candidato a assumir o leme com a saída de Michel Temer. E as nuvens negras continuam assombrando o nosso cenário politico, que deverá permanecer turvo pelos próximos anos, salvo por uma estratégia correta de enfrentamento das forças populares e democráticas.    




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