domingo, 9 de outubro de 2016

Editoral: Che, a morte de um revolucionário nas selvas bolivianas.

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José Luiz Gomes da Silva


Hoje completam-se 49 anos da morte do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara, na região de La Higuera, nas selvas bolivianas. Pouca coisa foi publicada nas redes sociais sobre este assunto, o que nos instigou a fazê-lo. Em 2012, um ano depois do lançamento deste blog, publicamos uma série de artigos abordando o que foi a "Campanha da Bolívia", um foco revolucionário liderado pelo médico argentino-cubano, naquele país, que culminou com a sua captura e morte, numa ação conjunta entre as forças militares do país, auxiliadas pela CIA. A série de artigos alcançou um enorme sucesso, sendo pesquisados até hoje, inclusive por norte-americanos, o que não se constitui nenhuma surpresa, uma vez que as academias daquele país constituem-se em bons centros de estudos sobre o marxismo.

Aliás, é de um jornalista americano,Jon Lee Anderson, uma das melhores biografias sobre Che Guevara. Melhor até mesmo do que a escrita pelo cientista político mexicano, Jorge Castañeda. Jon Lee teve acesso aos melhores arquivos sobre o líder guerrilheiro, mantidos pelo Governo Cubano. Como o jornalista teve acesso a esses arquivos é um mistério. O acerto para que Che Guevara integrasse o grupo de guerrilheiro, como médico da expedição, que retornaria à ilha cubana para realizar uma luta armada pela tomada do poder, se deu numa histórica reunião, ainda no México, agendada pelo irmão de Fidel Castro, Raul Castro, que o apresentou a Fidel. Idealista e impetuoso, Fidel demoveu todos os argumentos do argentino sobre as dificuldades que seriam enfrentadas e aceitou a sua condição de que o processo revolucionário não ficasse circunscrito à Cuba, mas se estendesse a todo o continente. Era o desejo de Che, não necessariamente de Fidel, embora depois se soubesse que efetivos militares cubanos estiveram envolvidos em vários movimentos libertários na América Latina e até no continente africano. 

O desembarque - ou encalhe - dos futuros guerrilheiros em solo cubano foi um grande malogro. Sem apoio e acossados pelas forças leais ao ditador Fulgêncio Batista, dos 49 integrantes do Gramma, apenas 14 deles sobreviveram, entre eles, Che, Raul e Fidel. O apoio logístico de um possível suporte da guerrilha urbana, através de Célia Sanches, nunca chegou a ser concretizado, pelas razões expostas acima, inclusive um desembarque que ocorreu em local fora do combinado. Comenta-se que, em conversa com Che sobre os sobreviventes, quando soube que apenas 14 haviam sobrevido, Fidel Castro teria exclamado: Os dias da ditadura estão contados. Sob fogo intenso das forças leais a Batista, naquele momento, Che abandona a sua maleta de médico e empunha o fuzil, tornando-se um guerrilheiro.

A campanha na Sierra Maestra foi muito bem sucedida. Com um pouco mais de 02 anos, os guerrilheiros barbudos entravam em triunfo na capital Havana. Ali mesmo na Sierra Maestra - uma terra de bandoleiros e deserdados - era dado início a um processo político que, no futuro, daria contornos ao governo socialista, como o atendimento médico às famílias e um programa de alfabetização de adultos nos próprios acampamentos dos guerrilheiros. Se é isso o socialismo, então somos socialistas!, teria dito um cidadão ao comentar sobre este período. O fato é que a ação dos guerrilheiros contou com um forte apoio da população local, que fornecia homens e mulheres para se engajarem na luta, assim como alimentos para a manutenção do grupo. 

As articulações políticas de Fidel com membros da guerrilha urbana para assumir a liderança do movimento não foram muito bem aprovadas por Che. Começam aqui a especulações em torno das urdiduras internas entre os líderes guerrilheiros, que culminariam com expurgos e mortes suspeitas, como a de Camilo Cienfuegos. A rigor, aqui acaba o idealismo e abre-se uma nova rodada do jogo político. Castañeda, por exemplo, insinua que Fidel teria incumbido Che de realizar uma missão específica apenas para atrasar sua chegada à capital.

O ímpeto revolucionário de Che Guevara nasceu com ele. Filho de uma tradicional família de classe média argentina, segundo alguns biógrafos, essa inquietude do jovem Che teria despertado ainda na Argentina, onde participou de movimentos revolucionários mesmo antes da campanha da Sierra Maestra. Há muitas controversas sobre a decisão dele em participar de uma luta guerrilheira na Bolívia, principalmente na região de La Higuera. Sobre este assunto, alguns questões precisam ser ditas: a) A decisão de Che em montar um foco revolucionário continental na América Latina havia sido tomada mesmo antes dele participar da guerrilha cubana; b) Apesar de inóspita, La Higuera, a princípio, atendia a dois propósitos da guerrilha: Era uma região fronteiriça e habitada por camponeses socialmente fragilizados, que poderiam ser simpáticos ao movimento, como ocorrera em Cuba; c) Os "consensos" nunca foram bem construídos sobre o foco revolucionário de La Higuera. Os líderes do Partido Comunista Boliviano não consideravam que as condições fossem ideais para uma luta armada, tampouco aceitaram a imposição do nome do comandante Ramon como líder. Em última análise, pode-se dizer que o próprio PCB boicotou o movimento. 

Nada daria muito certo em La Higuera. Sem apoios internos e acossado por forças poderosas, sobretudo ao se tomar conhecimento da verdadeira identidade do comandante Ramon - relevada pelo escritor Régis Debray, sob tortura, quando capturado pela CIA, depois de conhecer o foco revolucionário - a guerrilha acumulou derrotas sucessivas, que minguaram sua capacidade de resistência. A CIA enviou instrutores militares para o treinamento de ranges que assumiram a missão de dizimar o foco guerrilheiro. Antes de Debrey, desertores da guerrilha já haviam entregue a verdadeira identidade do comandante Ramon. Ferido e capturado numa emboscada, Che foi levado - por um brasileiro, o que pouca gente sabe disso - para o famoso grupo escolar da província do vilarejo de La Higuera, onde foi assassinado pelo sargento Mário Téran, sob as ordens do próprio general Renê Barrientos, ditador do país. A princípio, a CIA desejava que ele fosse transferido para uma base militar, com o objetivo de interrogá-lo. Todos os integrantes da guerrilha foram sumariamente mortos, salvando-se as aparências de que morreram em combate. 

No filme de Walter Salles, Diários de Motocicleta, que relata uma viagem que ele fez, juntamento com o amigo Alberto Granado - que morreria em Cuba, onde morava - há uma cena onde ele volta, a nado, para comemorar o seu aniversário num leprosário onde havia atuado como médico. Sua despedida daquela gente é uma das cenas mais emocionantes do filme. Diz muito sobre a sua personalidade. A viagem pelos países da Cordilheira dos Andes também mostrariam os graves problemas sociais do continente, despertando nele o futuro guerrilheiro. Che foi um homem de uma profunda sensibilidade social e idealismo. Merece, portanto, todo o nosso respeito e admiração nesses 49 anos de sua morte. 


P.S.:Do Realpolitik: Com o êxito da Revolução Cubana, o grande amigo de Che, Alberto Granado, fixou residência na ilha. Che ocupou vários cargos burocráticos em Cuba, antes de decidir participar da Campanha da Bolívia, onde se pretendia um processo revolucionário continental. Como Ministro da Fazenda, tornou-se uma aplicado estudioso da economia socialista, acompanhado de perto o que ocorria na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviética, até mesmo criticando algumas medidas tomadas pelos líderes da URSS. Mesmo com o temperamento arredio, segundo dizem, foi um excelente burocrata, chegando cedo à repartição e participando pessoalmente dos famosos planos de meta de produção de açúcar, um dos pilares da economia cubana. Há vários registros dele nesses momentos, inclusive um com o eterno amigo Granado, que não resisti e acabei publicando acima. Apesar da experiência política de corte mais inclusivo do presidente Evo Morales, a região de La Higuera continua sendo uma região onde se concentra uma população com um alto índice de pobreza. A foto onde Che aparece ao lado de outros guerrilheiros é da Campanha da Bolívia, precisamente da coluna que ele comandava. Haviam duas colunas, que se perderam na selva e acabaram nunca se encontrando. Uma delas, como resultado de uma deserção, foi completamente dizimada por forças leais ao governo ditatorial do general Barrientos. Hoje há um roteiro turístico que permite ao visitante do local percorrer as trilhas seguidas pela guerrilha, com pontos específicos, como o local exato onde o Che tombou ferido num barranco e foi capturado. Na série de artigos que escrevemos sobre o assunto, há referências a um famoso rio do local, o Rio Grande, que, segundo relatos, era um rio que o Che gostava bastante. Guardadas as devidas proporções, as agruras que Che passou nas selvas bolivianas foram piores do que a experiência guerrilheira da Sierra Maestra, em Cuba. Isolado no mato, acometido pela asma, ele ficaria até mesmo sem os seus remédios, em momentos de crises agudas da enfermidade, sobretudo se considerarmos o clima frio produzido por aquela cadeia de montanhas que cerca as florestas locais. Discípulo de Louis Althusser, Régis Debray era um escritor, filósofo e professor francês. São comuns abordagens revolucionárias em suas obras, o que talvez possa explicar sua presença em La Higuera. Ele esteve diretamente com Che, nas selvas bolivianas. Uma outra questão que guarda muitas controversas está relacionada a um possível apoio do Governo Cubano ao guerrilheiro, quando a guerrilha já não reunia condições para enfrentar as tropas treinadas pelos americanos. Sobre a decisão de lutar, há uma carta deixada por ele, Che, ao comandante Fidel Castro, onde ele assume total responsabilidade sobre a decisão. A Campanha da Bolívia coincidiu também com um acirramento da relação entre os Estados Unidos e a União Soviética, no contexto da Guerra Fria, envolvendo suas áreas específicas de influência. Um pouco depois da partida de Che para a Bolívia, o Governo Soviético enviou um representante diplomático à Cuba, com ordens expressas de Moscou para que ele não apoiasse nenhum tipo de movimento revolucionário no continente, em função de acertos da URSS com os Estados Unidos. O apoio cubano mesmo, então, teria ficado limitado ao envio de alguns companheiros de guerrilha de Che, ainda na Sierra Maestra, para se engajarem na Campanha da Bolívia. 
  


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