terça-feira, 4 de outubro de 2016

Editorial: Barba, cabelo e bigode no ninho da serpente



Resultado de imagem para Geraldo Alckmin/João Dória


Oportunidades, principalmente nessa conjuntura de instabilidade política, não podem ser perdidas. Por essa razão, essas eleições revestiam-se de grande importância para as forças do campo progressista e de esquerda, então bastante fragilizadas. Seria o momento de elegermos atores políticos comprometidos com uma agenda pública que não permitisse, por exemplo, o assédio declarado à Constituição de 1988. Seria importante a formação de uma "bancada cidadã", que pudesse se contrapor à bancada da bala, dos bois, da Bíblia, da berlinda, dos bancos. Um momento único - posto que a possibilidade de eleições diretas em 2018, neste quadro político nebuloso, torna-se uma miragem - de reorganizarmos as forças para enfrentar as batalhas que virão pela frente. Infelizmente, os resultados não são animadores. 

Como disse ontem, manter uma estaca cravada no ninho mais emplumado dos tucanos - São Paulo - poderia representar um êxito capaz de se contrapor aos problemas enfrentados em outras praças. Infelizmente, os tucanos agora se orgulham de fazerem barba, cabelo e bigode naquela reduto, uma vez que ganharam as eleições para a capital ainda no primeiro turno, com o empresário João Dória Junior(PSDB). Pesquisas publicadas pelo Datafolha um pouco antes das eleições apresentavam um cenário de um possível segundo turno, que não se materializou com a apuração das urnas. O esforço final, empreendidos por Lula e Haddad, nos tradicionais redutos da "virada", não foram suficientes para se contrapor à "onda" coxinha, que apoiou em peso o "engomadinho".

As forças democratas e progressistas lançam um olhar sobre o que poderá vir a ocorrer no segundo turno das eleições do Rio de Janeiro, onde o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, enfrentará o bispo Crivella, da bancada da Bíblia. Mas, analisando friamente a correlação de forças em jogo e, observando a tendência do comportamento do eleitorado - sobretudo no que concerne ao apoio de candidatos ultra-conservadores - convém não manter muitas expectativas a esse respeito. O fato concreto é que estamos fragilizados. Ontem, pelas redes sociais, observei muitos internautas xingando o eleitorado paulista por ter deixado o prefeito Fernando Haddad fora da disputa de um segundo turno, consolidando o projeto de poder dos tucanos. É o tipo de comportamento que também não ajuda muito. 

Qual, afinal, o significado dessa vitória das forças conservadoras em São Paulo? O grande problema que se apresenta é que São Paulo, sem qualquer sobra de dúvidas, poderia ser definido como o ninho da serpente, o local onde o ovo do fascismo parece mais bem "aquecido". Os tucanos paulistas compõem um dos núcleos mais importantes do conjunto de forças conservadoras que ajudaram a tomar o poder no plano federal e pretendem tornarem-se hegemônicas nas próximas rodadas do jogo. Há ali, alguns indicadores que nos permitem fazer essa interpretação, como o surgimento de uma polícia política, que já mostrou sua face mais cruel nas últimas mobilizações populares. 

Por outro lado, naquela praça se concentram atores institucionais e atores políticos que tiveram um papel importante na retomada ilegítima do poder pelas forças conservadoras. Ali está a plutocracia paulista,representada pela FIESP, fortes setores da mídia golpista, um MP claramente hostil ao PT, e atores com projeção nacional dentro dessa engrenagem, como é o caso do governador Geraldo Alckmin, dos ministros José Serra e Alexandre de Moraes. Atores políticos que cumprem um papel muito bem definido nesse processo, como possíveis protagonistas dos próximos lances desse xadrez, que objetiva colocar o país como refém dos mais vis interesses de grandes corporações, subtraindo direitos, garantias constitucionais e dilapidando o que resta do patrimônio nacional. 

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