sábado, 15 de outubro de 2016

Flávio Brayner: Um certo professor


O antigo Ginásio de Aplicação (hoje “Colégio”) –uma das melhores instituições públicas de ensino do país- oferecia naqueles anos 70, quando lá estudei, um tipo de formação que chamaríamos de “renascentista”: aquele ideal DaVinciano do “Uomo Universale”. Artes Plásticas, Música, Teatro, Francês, Inglês, Alemão e Latim, além, claro, de Filosofia (com Antônio Montenegro, hoje lotado no Departamento de História da UFPE) faziam parte de nossa formação.
Antônio ainda era jovem estudante de Filosofia da Católica, mas verdadeiramente talentoso para a arte socrática da “maiêutica”, retirando de cada um de nós -através de sucessivas questões ou examinando o conteúdo do que afirmávamos- o que nem suspeitávamos saber e nos levava a uma angústia que se prolongava por vários dias e intermináveis discussões. O pátio do “recreio” começava ali, por causa dele, a deixar de ser ocupado por “peladas” para se transformar numa espécie de “Pórtico de Atenas”.

Como todo filósofo, Antônio era para nós um chato que desmontava tudo o que acreditávamos e Deus sabe o quanto é difícil abandonar nossas frágeis certezas e descobrir, ao fim, que você não é o que pensa ser e muito menos o que diz ser. Mas foi a partir dali que nenhum outro professor pode exercer sobre nós sua autoridade pedagógica sem ser interrogado –às vezes com arrogância- a respeito da validade e da legitimidade dos conteúdos que ensinava. E isto às vezes dava muita confusão! Os estudos de filosofia se prolongavam nas sextas à noite na Universidade Católica com Michel Zaidan, Valteir Silva, Antônio Carlos Nóbrega, José Batista, Djalma Gomes e terminavam irrecorrivelmente no Mustang em discussões que varavam a noite. Nós não seríamos nunca mais os mesmo depois daquilo e se, por influência de Antônio, terminei na Filosofia é porque ele já me mostrara, ali em meus verdíssimos anos, que uma vida sem reflexão não valia nem sequer a pena ser vivida!

Quando hoje se critica o suposto “enciclopedismo” de nossa formação secundária (e o Colégio de Aplicação sabiamente passa com sua caravana renascentista enquanto os cães de nossa derrocada pedagógica ladram) e o CAP continua formando alunos de altíssimo nível, facilmente “detectáveis” em qualquer sala de aula, exatamente pelo teor das perguntas e das respostas que formulam, eu começo a suspeitar que a “crise” de nossa educação escolar é, na verdade, um projeto minuciosamente pensado.

Registro aqui, neste Dia do Professor meu reconhecimento e gratidão a Antônio Montenegro e a todos os professores que cultivam em seus alunos esta fusão de uma paixão pelo saber com uma profissão: o melhor presente que se pode dar a uma pessoa.



Flávio Brayner é professor titular da Universidade Federal de Pernambuco

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