sábado, 17 de dezembro de 2016

Editorial: O princípio da responsabilidade civil e a condução coercitiva do pastor Silas Malafaia





Um dos "Bs" mais emplumados da "bancada do "B" - aquela que esteve dando suporte político às engrenagens que derrubaram a presidente Dilma Rousseff da Presidência da República, através de um golpe institucional, está relacionado à bancada da Bíblia. Muito bem articulados e atuando em diversas esferas sociais, eles não escondem que desejam o poder. Uma das grandes diferenças entre a atuação política dos neo-pentecostais  e a atuação política do setores progressistas da Igreja Católica reside exatamente aí. As pastorais e as comunidades de base da Igreja Católica não atuam com esse pragmatismo religioso.Os tentáculos e as formas de atuação dos evangélicos indicam isso. Nas últimas eleições municipais, por exemplo, eles deram uma demonstração de sua robusta musculatura. Os neo-pentecostais tiveram um crescimento expressivo no último pleito. Trata-se de uma "direita evangélica" que atenta contra alguns princípios laicos ou republicanos da Constituição Brasileira. Aliás, tornou-se lugar comum, entre essa nova configuração de forças que tomou o poder, atentar contra a nossa Constituição, até mesmo em relação às suas cláusulas pétreas. 

Sobre este cabo de guerra entre neo-pentecostais e a resistência progressista da sociedade brasileira, estão aí como exemplos o movimento "Escola Sem Partido", a Reforma do Ensino Médio e a grande disputa ideológica/legislativa sobre questões envolvendo a liberdade de gênero, legalização do aborto, drogas entre outros. O Estado laico brasileiro perde com isto, porque eles desejam impor seus dogmas como sendo os dogmas que a sociedade deve seguir, sem que nos sejam facultado o direito de dissentir. Isso não combina com democracia. Hoje, um dos seus mais ilustres expoentes é o Deputado Federal Jair Bolsonaro, possível candidato às eleições presidenciais de 2018, cuja atuação parlamentar dispensa maiores apresentações. Ele hoje representa algo em torno de 5% do eleitorado, mas não ficaria nada surpreso com uma ascensão meteórica de sua candidatura, ancorado nessas teses retrógradas., mas que ganha forças em alguns segmentos sociais. Quando ele vem aqui para o Recife, sempre atrai uma multidão de séquitos, inclusive muitos jovens, que deveriam canalizar suas energias para defender ideias mais nobres. 

Esta intolerância religiosa e política está nos conduzindo a um desastre coletivo. O país amarga um tremendo impasse institucional entre os três poderes e está à beira de uma convulsão social, agravada recentemente pela aprovação da PEC 55, aquela que trata do teto dos gastos públicos, com reflexos imediatos nos investimentos estatais em áreas cruciais como educação e saúde. Se acrescentarmos o fato de que os "homens honrados" que nos governam estão enredados nos casos de corrupção apurados pela Operação Lava Jato, aí então, podemos concluir por um estado que os sociólogos denominam de anomia social. O que houve no país foi uma cruzada cínica - autodenominada de cruzada contra a corrupção -mas que, na realidade, tratou-se de uma manobra para proteger bandidos. Bandidos que escondem a radiografia que diagnosticou sua corrupção, para não cuidarem da doença, como observou o jornalista Josias de Souza, depois da exoneração de José Yunes, antigo aliado do presidente Michel Temer. Pelas declarações do "executivo de propinas" da Odebrecht, Yunes era o homem da mala.   

Quem acompanhou a reação do pastor Silas Malafaia em relação a esta última operação da Polícia Federal tem aí um bom exemplo dos pesos e medidas que pautam a conduta desses senhores. Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento no curso da Operação Lava Jato - que o fez num aeroporto - mas que a intenção sempre foi a de levá-lo a Curitiba - como se ficaria sabendo mais tarde - o pastor Silas Malafaia usou os seus perfis nas redes sociais para defender a medida arbitrária e desproporcional adotada por aquele juiz do Paraná, argumentando em torno da responsabilidade civil que deveria atingir a todos, inclusive um ex-presidente da República. O princípio de que todos são iguais perante a lei e a ela devem responder sem qualquer distinção. Até mesmo o Presidente do Senado Federal. Sobre o princípio da responsabilidade civil, publicamos por aqui um artigo do professor e cientista político Michel Zaidan, onde ele discute esse tema. 

Quando o princípio da responsabilidade civil bateu às suas portas, o cidadão esperneou, afirmando que não era "bandido"; que a medida era ilegal; que estava sendo vítima de instituições como a Polícia Federal e coisas do gêneros. Não preciso explicitar aqui suas falas mais loquazes, uma vez que seus discursos são acompanhados por milhões de brasileiros em diversos canais. Convém aqui esclarecer ao pastor Malafaia que não é propósito dessa engrenagem "desconstruir sua imagem pública". Os atores escolhidos para este propósito são outros. Ele simplesmente foi apanhado em maus-feitos e, portanto, deve responder judicialmente como todo brasileiro, obedecendo o princípio da responsabilidade civil. Ou ele pensava que estava blindado? Quem "combinou" essa "blindagem", Malafaia, foram os nossos "homens honrados" de Brasília.  

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