quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Editorial: Os problemas de segurança pública em Pernambuco permanecem, governador. Vamos conversar?


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Segurança pública é coisa muito séria. Sempre que comentamos sobre este assunto por aqui é no sentido de construir alternativas que nos permitam conviver socialmente com o mínimo de sensação de segurança. Neste sentido, nossos comentários assumem um caráter muito mais contributivo e agregador - como, de fato, recomenda-se - do que propriamente críticos. Como costumo enfatizar, quando as coisas não vão bem por aqui atingem a todos, indistintamente, embora alguns grupos sociais sejam naturalmente mais vulneráveis. São aqueles grupos que, por sua condição social, são tratados com preconceito pela própria corporação policial. Mas isso já é uma outra discussão, uma vez que nos conduziriam a polemizar em torno do tema do racismo institucional, que não é um privilégio apenas de nossa instituição policial, muito menos o que pretendemos discutir neste momento. 

Há duas semanas que a Polícia Militar do Estado de Pernambuco realiza uma espécie de Operação Padrão - ou greve branca - estabelecendo alguns procedimentos que, de tão violados constantemente, limitam bastante suas ações operacionais, como a exigência de viaturas com documentação regularizada, coletes e extintores em dia, pneus novos etc. Ao se constatar que os policiais militares estão exigindo as mínimas condições ideais de trabalho, conclui-se que a Polícia Militar, em algumas situações, realiza suas operações de forma bastante precária, o que, per si, já se constitui numa grave denúncia sobre a forma como ela opera cotidianamente na segurança pública do Estado. O aparelho de Estado, naturalmente, através dos seus instrumentos legais, adotou uma série de medidas no sentido de estancar o movimento, mas eles permanecem firmes, resistindo como podem, num momento político dos mais conturbados, onde a capacidade de respostas financeiras do Estado são cada vez mais difíceis. Até mesmo quando se trata de honrar aquilo que já é devido, como salários e 13º terceiros. 

O governador Paulo Câmara(PSB) pediu ajuda das Forças Armadas, no que foi prontamente atendido pelo Governo Temer. Logo em seguida, informou que estávamos numa situação de absoluta normalidade. Até gostaríamos de concordar com o senhor, torcendo para que pudéssemos falar neste mesmo tom, mas isso não condiz com a realidade observada nas ruas cotidianamente, governador. Na última segunda-feira, foram registradas uma tentativa de assalto a banco e um assalto a um carro-forte aqui no bairro do Janga, em Paulista, na agência do Banco Itaú. Esta última com ingredientes inspiradores para os melhores roteiristas de Hollywood. Homens num carro preto, camuflado com vidros fumês, fortemente armados com fuzis e metralhadoras, que não permitiriam a menor capacidade de reação dos vigilantes, numa ação ousada, às 15:00 horas da tarde. Na tentava de assalto a uma agência do mesmo banco, no bairro da Madalena, perdemos a vida de um policial civil, ainda jovem, com pouco tempo na corporação. Raro o dia em que não ocorre uma assalto ou explosão de caixas eletrônicos em Pernambuco, numa demonstração inequívoca a atuação de quadrilhas muito bem organizados no Estado, apenas combatidas com um minucioso trabalho de inteligência. 

O Ministro da Defesa, Raul Jungmann, tem repetido como um mantra que não é papel das Forças Armadas tratar de questão de segurança pública. Eles não são treinados para o trabalho de polícia. De fato, como dizem os americanos - e o delegado Padilha por aqui - Eles não sabem "tirar", perseguir bandidos e muito menos realizarem trabalhos de investigações. Eles foram treinados para operações de guerra, defesa, tomada de território e coisas do gênero. Certa vez, conversando com um fuzileiro naval, ele nos informou que passou dias camuflado num esconderijo esperando um suposto inimigo que nunca apareceu, mas que, em nenhuma hipótese poderia abandonar o local. Até suas necessidades fisiológicas precisavam ser feitas ali mesmo. Num outro momento, o deixaram numa mata, por semanas, apenas com uma faca, onde ele precisou comer galinha d'água crua. Certamente, um policial militar - creio que pelo menos aqueles que estejam sendo habilitados para o policiamento urbano - não seria submetido a um treinamento tão rigoroso. Por outro lado, é igualmente difícil supor um soldado do Exército Brasileiro perseguindo um "trombadinha" - ou menino em situação de rua - por aquelas ruas estreitas do Mercado de São José, abarrotadas de transeuntes, ao sol escaldante do meio dia. Em alguns casos, eles nem descem dos caminhões de transportes, gerando um custo enorme de manutenção, algo, creio, que já observado por alguns comandantes militares. A previsão é de eles fiquem nas ruas até o dia 06 de Janeiro.

Como se observa, a nevrálgica questão da segurança pública no Estado continua em aberto, diante de um impasse estrutural, cuja greve branca da Polícia Militar é apenas um dos seus reflexos. Voltamos a registrar aquelas altíssimas taxas de homicídios durante os finais de semana. Já foram registrados até 50 homicídios, dentro daquela tipificação que estabelece os índices de monitoramento dos resultados do PPV, ou seja, crimes violentos letais intencionais. Nem aquele componente de gênero escapa, como o dado qua aponta que nunca se matou tantas mulheres em Pernambuco desde que o PPV foi criado. Até a oposição já se ofereceu para sentar à mesa e discutir com os agentes estatais o PPV. O governador, naturalmente, não se pronunciou a esse respeito. Pensou tratar-se de uma provocação, creio.  


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