domingo, 19 de fevereiro de 2017

Editorial: Lavoura Arcaica no Lasar Segall

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Recentemente, o ministro da Cultura, Roberto Freire(PPS), esteve no Recife. Mais precisamente no bairro de Casa Forte, na sede da Fundação Joaquim Nabuco, onde ocorreu a cessão de um casarão pertencente àquela Instituição para que o MinC o utilize como escritório regional do órgão. Até onde se sabe, a cerimônia ocorreu normalmente, sem o registro de nenhum incidente, diferente do que havia ocorrido meses antes, em evento no Palácio do Campo das Princesas, onde o público presente ensaiou um apupo ao ministro durante a sua fala. Pelo andar da carruagem política, a equipe que trata dos cerimoniais do MinC terá muito trabalho daqui para frente. Agora, por ocasião da entrega do Prêmio Camões, no Museu Lasar Segall, as hostilidades contra o ministro voltaram a ocorrer, desta vez gerando uma espécie de bate-boca entre o senhor Roberto Freire e algumas pessoas da platéia. 

Momento tenso, era natural que surgissem alguns impropérios, uma vez que o ministro falou de improviso, nervoso com as vaias da plateia, se sentindo profundamente desconfortável com o discurso do escritor Raduan Nassar - vencedor do prêmio - que, durante a sua fala - indevidamente antecipada pelo cerimonial - fez duras críticas ao momento atual do país, não poupando nem mesmo o STF das artimanhas que engendraram o golpe institucional. Na opinião de Raduan, o Governo Temer é ilegítimo e golpista, tendo chegado ao poder depois de afastar indevidamente da Presidência da República uma pessoa "integra", numa referência à ex-presidente Dilma Rousseff. O discurso de Raduan foi eminentemente político, expondo as feridas da crise institucional que ora atravessamos no país. 

Em décadas passadas, aqui em Pernambuco, o senhor Roberto Freire apresentava-se como um ilustre representante da esquerda, pertencente aos quadros dos Partido Comunista, aliado de pessoas como Francisco Julião, vinculado à luta pela terra. Há quem afirme que isso era apenas uma embalagem tosca, uma vez que ele foi nomeado pelos militares para assumir a função de advogado do INCRA, numa profunda contradição com a sua militância política. Esses dados são informados pelo jornalista Sebastião Nery, num artigo publicado, que alcança enorme repercussão até hoje nas redes sociais. Certa vez, dialogando comigo pelo microblog Twitter, ele esclareceu que era advogado concursado do INCRA. Mesmo assim é estranha a sua nomeação para aquele órgão, uma vez que regimes de exceção não costumam respeitar as competências técnicas dos seus desafetos. Um bom exemplo disso foi o exílio imposto a intelectuais como Josué de Castro ou Paulo Freire, que propôs um método de alfabetização de adultos que, se não fosse abortado, afastaria o país da vergonhosa cifra de 13 milhões de analfabetos adultos que ostenta. De acordo com a UNESCO, uma vergonha até para os padrões do continente Latino-Americano.

Em sua fala, o ministro Roberto Freire foi, digamos assim, contundente, informando que ditaduras não premiam seus desafetos - e possivelmente também não os nomeiam, mesmo que aprovados em concurso público - e, em nome da coerência, talvez fosse prudente que Raduan Nassar recusasse o prêmio, concedido ainda no Governo da Presidente Dilma Rousseff. Mas, o pior ainda estava por vir. Em uma nota oficial emitida pelo Ministério da Cultura, há, explicitamente, uma acusação da atitude dos manifestante, adjetivando-a como uma tentativa de "desestabilizar regimes democráticos". Vejam a que ponto chegamos. Nós, que lutamos pelo restabelecimento do Estado Democrático de Direito no país, somos acusados de tentar desestabilizá-lo. Alguém precisa ter urgentemente uma conversa ao pé do ouvido com esse ghost writer do MinC. 


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