sábado, 18 de março de 2017

Editorial: A carne é fraca

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Nas últimas horas, a Polícia Federal desencadeou uma mega operação denominada por eles de "Carne Fraca". Nunca a PF realizou uma operação dessa dimensão no setor agropecuário, que envolve 40 empresas, entre as quais as gigantes JBS e BRF, além de dezenas de fiscais agropecuários federais, que são pagos pelo erário para a fiscalização do bom estado desses produto para o consumo humano. Como, no Brasil, as instituições não funcionam a contento, em razão de uma espécie de corrupção endêmica ou estrutural, nesses casos sempre há o envolvimento de agentes públicos. É preciso se aprofundar um pouco mais sobre esse novo escândalo, mas já se sabe, por exemplo, do uso de insumos como papelão e produtos químicos nas carnes processadas, além da comprovação de que até carne estragada chegava ao consumidor, tudo devidamente com inspeções compradas através de propinas. 

Cumprindo um script de praxe, há a suspeita da participação de políticos no esquema. Um leitor atento do blog já deve ter observado que, entre os campeões de audiência de acessos aqui no blog está um texto intitulado O novo ministro e a bancada ruralista, publicado em primeira-mão pelo portal Carta Maior. O post é acessado notadamente pelos americanos, que são quem mais acessam os nossos sites, tanto o de pesquisa escolar quanto o de política. Sozinho, este texto já atingiu a cifra dos 13 mil acessos, um indicador nada desprezível. Sempre pensei que o interesse dos norte-americanos em relação a este post estava relacionado à compreensão das recentes urdiduras golpistas perpetradas no país, que culminaram com o afastamento da presidente Dilma Rousseff da Presidência da República. Prefiro continuar pensando assim. 

Mas já há quem suspeite, sobretudo entre os adeptos da teoria da conspiração, de que está sendo montada uma grande operação no sentido de desbancar o Brasil da condição de um dos maiores exportadores de carne do mundo. Outro dia li um excelente artigo escrito por um jornalista conceituado, onde ele invoca o ambiente político favorável, criado com a participação da CIA, que permitiram o golpe institucional no país. Tudo é possível. O fato concreto, no entanto,  é que estamos diante de mais um escândalo que nos remetem à constatação de que este país não pode ser levado mesmo a sério. O Brasil é um país inviável. Um governo com nomes de proa enrascados nas encrencas da Lava Jato; um amplo programa de erosão de direitos e desrespeito às cláusulas pétreas da Constituição Cidadão promulgada em 1988 - como prevê a Reforma da Previdência, por exemplo - e que não consegue sequer assegurar a procedência segura da carne que chega às nossas mesas.

Isso é muito grave. É gravíssimo, sobretudo se atentarmos para fato de que os produtos químicos utilizados - para afugentar o odor característico de carne putrefata - eram cancerígenos com um potencial bem superior ao nitrato usado para dar aquela cor avermelhada aos nossos embutidos. Aliás, a bem da verdade, estamos presenciando um grave momento da vida política nacional, que este escândalo vem apenas reforçar: estamos todos metidos numa grande podridão, exalando um odor fétido,  sem uma perspectiva de saída a curto prazo. Destitui-se uma presidente legitimamente eleita, rasgas-se uma Constituição Cidadão obtida através de um grande esforço nacional, atenta-se contra os direitos mais comezinhos dos trabalhadores... difícil mesmo imaginar onde iremos parar.  


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