quinta-feira, 30 de março de 2017

Editorial: Entre golpes de Estado e licores de pitangas.




A blogosfera tem, assim, algumas coisas curiosas. Até bem pouco tempo publicamos por aqui, também em editorial, alguns comentários sobre um livro recém-laçado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Na realidade, um tomo de suas memórias dos dois mandatos em que ocupou a Presidência da República. Nossos comentários diziam respeito a uma suposta tentativa de golpe contra o ex-presidente Itamar Franco, de quem Fernando Henrique era Ministro da Fazenda. À época, FHC estava sendo implantando o Plano Real, fundamental para por em ordem a economia do país. De acordo com FHC, depois daquela escândalo protagonizado pela modelo Lilian Ramos - que posou ao lado de Itamar sem as peças íntimas - um emissário dos quartéis o teria procurado para fazer-lhes seguinte proposta: caso ele aceitasse ficar no cargo de Ministro da Fazenda, os comandantes militares estariam dispostos a apear o mineiro do poder. 

Caso essa versão apresentada no livro por Fernando Henrique Cardoso seja verdadeira, estamos diante de mais um elemento importante para analisarmos os chamados golpe do século XXI, uma vez que os militares não desejavam assumir diretamente o poder, mas encontrar uma opção civil que pudesse fazê-lo. O problema é que as opções civis que surgiram no horizonte não agradavam à caserna. Nenhum dos três nomes da linha sucessória era do agrado dos militares. O Deputado Federal pernambucano, Inocêncio Oliveira presidia a Câmara dos Deputados. O senador Humberto Lucena era o presidente do Senado Federal. O presidente do STF à época, era tido pelos militares como um homem sem pulso, tíbio. Sem opções confiáveis, os militares recuaram, mas pediram a cabeça do então ministro da Justiça, Maurício Correia, cujo comportamento também fora reprovado pelos militares. Moreira teria exagerado na ingestão de álcool durante o mesmo evento do qual participava o ex-presidente Itamar Franco. Mesmo com uma saída honrosa, Moreira foi afastado do cargo. 

A elite brasileira nunca teve o menor respeito pelo nosso processo democrático. O episódio acima apenas evidencia a fragilidade de nossa democracia. Do ponto de vista esquemático - apenas esquemático - para o estudiosos do assunto, fica também a lição de que, já por aqueles idos, cogitava-se soluções golpistas assim não tão tradicionais como aqueles que ocorriam nas décadas de 50 e 60 no continente. Isso merece uma nota ao trabalho que escrevemos sobre os golpes do século XXI. Os quartéis estão sempre em alerta e, infelizmente, esse alerta não diz respeito apenas à sua consagrada missão de defesa da pátria. Até recentemente foi noticiado que um grupo de defensores dos direitos humanos, que atuavam no Uruguai, em julgamento de militares que atuaram na ditadura do país, receberam uma ameaça de morte de um grupo de ultra-direita que se apresentava ainda como integrante da Operação Condor, uma aliança militar que congregava as operações das ditaduras do Cone Sul, responsável por dezenas de assassinatos de opositores em décadas passadas. 

Mas, o mais surpreendente não é isso. Ontem tivemos uma enxurrada de acessos a uma de nossas postagens. Essa postagem foi relembrada durante o editorial em que tratávamos sobre este assunto, notadamente ao invocarmos as diretrizes militares sobre os comportamentos aceitáveis e reprováveis. A Ditadura Militar de 1964 estabeleceu uma harmoniosa relação com o intelectual pernambucano Gilberto Freyre que, assumiu o apoio ao governo militar, numa época bastante delicada, onde assumir posições de direita indicavam uma possível execração pública. Hoje, nem tanto. A foto do jornalista e ex-guerrilheiro Fernando Gabeira ao lado dos lideres do MBL, publicada acima, é emblemática do que estamos afirmando. A direita já não se esconde mais nos armários. Eles estão por toda a parte, na mídia, nos blogs, nas redes sociais. No último domingo, o jornal O Estado de São Paulo trouxe um infográfico sobre a atuação desse pessoal nos diversos meios. Disenterias verbais e decrepitudes morais, nesses tempos bicudos, tornaram-se recorrentes. 

Há quem afirme que o sociólogo Gilberto Freyre, viveu uma espécie de gangorra ideológica, ora assumindo posições progressistas, ora assumindo posições conservadoras. Em certa medida, até poderíamos compartilhar dessa opinião quando se está, em jogo, por exemplo algumas de suas produções. Do ponto de vista político, porém, não vejo como possamos fazer aqui alguma média ponderada. Gilberto traz um DNA conservador desde os primórdios de sua juventude. Sua vinculação à Nova Esquerda ou mesmo sua luta contra o Estado Novo aqui no Recife não passaram de episódios movidos por outros interesses, que estão longe de vincularem-se a algum resquício que seja de alguma convicção democrática. Como já afirmei em outros momentos, a luta contra o Estado Novo não passava de uma luta entre oligarquias. A açucareira, à qual Gilberto era organicamente vinculado, e a pecuarista e algodoeira, que produziu o rebento do China Gordo, Agamenon Magalhães. 

Algumas pessoas nos solicitaram o opúsculo que Gilberto Freyre escreveu sobre a reforma agrária, a pedido de Marco Maciel, para atender a uma demanda dos militares. Já os enviamos. Creio haver, entre os solicitantes, alguém interessado em aprofundar o assunto, o que seria de bom alvitre. Os famosos licores de pitanga surgiram naquele contexto para ilustrar como opositores da tese da democracia racial não resistiram ao seu elogiado sabor, quando os mesmos ainda eram preparados pelo mestre de Apipucos. Há outras histórias envolvendo esses licores, que o leitor poderá encontrar naquele texto específico sobre o assunto. Não sei se o marechal Castelo Branco o experimentou, mas era um fato que ambos se encontravam nas primeiras horas da manhã no famoso Solar de Apipucos. À época, Castelo Branco, o primeiro presidente da Junta Militar, era o Comandante do IV Exército, localizado aqui no Recife. Isso um pouco antes de 1964, o que nos ajudam a concluir que a decisão de Gilberto Freyre em apoiá-los não teve nada de extemporânea. 

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