sábado, 11 de março de 2017

Editorial: A esquizofrenia da cena política brasileira


Há muitas controvérsias em torno da Obra de Transposição das Águas do Rio São Francisco. Creio que nenhuma delas, entretanto, possa colocar em dúvida a sua paternidade - com todos os bônus e ônus - ao ex-presidente Luiz Inácio da Silva. As controvérsias possíveis, descartada esta sobre a paternidade da obra, vão desde a concepção do projeto à sua execução, marcada por atrasos e denúncias de desvios de recursos públicos, o que não seria necessariamente uma novidade, sobretudo em se tratando de uma obra daquele porte, realizada num país chamado Brasil. Os atrasos trazem no seu bojo os famosos aditivos, que podem elevar os valores antes acordados entre agentes públicos e privados para a estratosfera. E este foi um expediente bastante frequente nesta obra. 

Notadamente sobre a concepção do Projeto de Transposição das Águas do São Francisco, há um bom painel de análises produzidos pelo pesquisador João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, disponibilizado no site da Instituição. Fazemos aqui o registro porque observamos que as análises do pesquisador se orientam por critérios técnicos/científicos e não são movidas pelas picuinhas ou idiossincrasias políticas, mas pelas convicções apontadas pelos seus estudos. Na realidade, João Suassuna colocou-se contra a Obra de Transposição das Águas do São Francisco desde o início, ao apontar uma série de equívocos do projeto, como, por exemplo, a sua absoluta inviabilidade técnica, uma vez que o velho Chico não suportaria tal demanda, já então bastante castigado; a ausência de aproveitamento de alternativas localizadas, uma vez que existiria água no subsolo do semiárido; o "coronelismo" da transposição, uma vez que os beneficiários continuariam sendo as velhas oligarquias locais e não quem, de fato, precisa dessa água, como os pequenos agricultores; os erros técnicos na execução do projeto, que não foram poucos; atrasos e denúncias de desvios de recursos públicos durante a construção da obra, entre outros aspectos.

(Conteúdo exclusivo, liberado apenas para os assinantes do blog) 


P.S.: Contexto Político. Na inauguração de um trecho da Obra de Transposição, em Monteiro, na Paraíba, o ocupante do Palácio do Planalto informou que o país vive um momento pleno de sua democracia. A prisão de Boulos, do MTST, e a censura ao artigo de Eugênio Aragão, publicado no site do PT, parece nos indicar o contrário. Ele também se comparou a Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife, figura notória do enfrentamento à Ditadura Militar instaurada no país com o golpe civil-militar de 1964. Nesta mesma ocasião, o senador Cássio Cunha Lima(PSDB-PB) resolveu passar um sermão nos manifestantes ali presentes, tendo como referência o tema corrupção. Estamos vivendo, de fato, um momento de esquizofrenia da cena política brasileira. 

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