quarta-feira, 8 de março de 2017

Editorial: A lista de Rodrigo Janot



Há críticas contundentes contra os trabalhos da Operação Lava Jato, como aquela que aponta uma certa "seletividade" de seus alvos ou o "dirigismo" não necessariamente republicano de seus objetivos. Sob o pretexto mais amplo - e nobre - de combater a corrupção estrutural no país, na realidade, a Lava Jato, na visão de alguns dos seus críticos, prestou-se ao serviço de ancorar uma rede de manobras com o objetivo de compor a arquitetura montada para derrubar a presidente Dilma Rousseff do poder. Ou seja, a Lava Jato, neste sentido, é uma peça da engrenagem golpista. Além das expectativas iniciais e naturais formam-se uma grande inquietação sobre os nomes de políticos - de todos os níveis e partidos - que deverão ser entregues ao STF pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. Há quem aposte que algumas aves emplumadas não deverão constar dessa lista, por razões conhecidas.  

Existem alguns arranjos políticos que devem ter blindados alguns atores nesse processo de golpe institucional que o país conheceu recentemente. Mesmo antes do senador Romero Jucá(PMDB) ter dito em alto e bom som que era preciso "estancar a sangria", sabia-se, nas coxias, que quem esteve diretamente envolvido nessas tecituras certamente não iria ao sacrifício. Vale aqui sempre a ressalva de que, se, num primeiro momento, a Operação Lava Jato mantinha objetivos claros - e específicos - no conjunto do seu curso e das suas incômodas oitivas, teria avançado para um estágio profundamente perigoso para uma classe política forjada historicamente numa corrupção estrutural que não foi inventada pelos noviços petistas, embora isso não os isente de culpa ou justifique as suas estripulias com o dinheiro público. Concretamente, as investigações da Operação Lava Jato teria elementos para ferir de morte o nosso sistema político, caso não houvesse uma reação desse campo no sentido de puxar o freio de mão,com manobras que visam mudar a legislação que pune a corrupção de homens públicos, assim como jogar um xadrez político espúrio, colocando em postos chaves e decisivos peças de sua extrema confiança, para proteger o rei e os seus súditos. 

Mas, em todo caso, a operação Lava Jato traz no seu bojo alguns elementos importantes, como, por exemplo, a verdadeira aula que ela nos dá sobre como funcionam as engrenagens de corrupção do país, envolvendo atores estatais, políticos e da iniciativa privada. Como disse em outros momentos, com todo nosso respeito aos colegas da FGV, a Lava Jato oferece subsídios de sobra para as suas aulas sobre problemas de gestão da coisa pública. No dia de ontem, brincava com um colega de trabalho sobre qual seria o critério de promoção desses executivos da Odebrecht que trabalhavam no Departamento de Propinas. Creio que eles eram premiados em razão de sua capacidade de corromper agentes públicos. Já pensou? Curioso é saber, igualmente, como essa gente se apresentava nas redes sociais profissionais ou como registravam essa "experiência" profissional em seus currículos. Não tenham dúvidas de que este foi um saldo positivo da Operação Lava Jato: permitir aos brasileiros comuns conhecerem com maior profundidade como funcionam essas engrenagens. Emílio Odebrecht, o patriarca do grupo, informou que a empreiteira, de fato, governou o país nas últimas décadas. Um delatores ouvidos informou que, entre 2006 e 2014 a empreiteira teria movimentado, via caixa dois, a modesta quantia de R$ 10 bilhões. Nunca antes na história de um país chamado Brasil. 

Não creio, entretanto, que os resultados da Operação Lava Jato, possam passar este país a limpo no quesito corrupção. Se, aliada a essa operação que desnuda a dinâmica da teia de corrupção que envolve o nosso sistema político não forem tomadas outras medidas igualmente importantes - como a reforma política, por exemplo, com regras claras sobre o financiamento de campanhas - é quase certo que o caixa dois continue tendo uma sobrevida. O país continuará "inviável" e a nossa democracia continuará sendo um grande mal-entendido, como afirmava o historiador Sérgio Buarque de Holanda. A coisa é tão complexa que no dia de ontem os ministros transformaram em réu o senador Valdir Raupp(PMDB), sob a suspeição de que, mesmo o dinheiro que corria por "dentro", era o resultado de artimanhas irregulares.

Já se antevê, por exemplo, que o presidente Michel Temer(PMDB) não será incomodado pelo TSE, adotando-se aquela mesma lógica das circunstâncias políticas especiais, mesmo sabendo-se da robustês de provas contra ele, arroladas nas delações premiadas dos executivos da Odebrecht. A oitiva dos executivos desmentem, em profundidade, as notas do Palácio do Planalto de que as doações da empreiteira Odebrecht seguiram todos os trâmites legais, de acordo com o que determinava a legislação eleitoral a este respeito. Por falar em robustês, a lista do procurador Rodrigo Janot deve vir bem recheada, com cerca de 170 políticos envolvidos, 900 depoimentos, 77 delações premiadas, 02 anos de operação, 20 denúncias criminais no STF, 28 inquéritos e 55 investigados. 




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