domingo, 19 de março de 2017

Editorial: Mais um ministro encrencado. A carne é realmente fraca.


Já comentamos aqui com vocês que, principalmente no Brasil, os critérios utilizados para a nomeação de alguém para ocupar um cargo de confiança na máquina pública quase sempre não são orientados pela formação técnica, projeção do indivíduo em sua área de atuação, conduta ilibada, sua independência ou altivez. Outro dia comentávamos por aqui que até uma "licença poética" foi usada para dissuadir a nomeação de um poeta para assumir a presidência de uma determinada instituição federal. Em décadas passadas, ainda no período onde se cogitava realizar as reformas de base no país - os tempos hoje são bem outros - o então sociólogo da fome, Josué de Castro foi cogitado para assumir um ministério no Governo João Goulart. A articulação política foi realizada pelo antropólogo Darci Ribeiro, que convenceu Goulart da importância de se ter alguém com o perfil de Josué de Castro no seu Governo. Como se sabe, além de suas atividades acadêmicas, Josué de Castro também se dedicava à política, sendo filiado ao PTB. Era, de fato, um notável a compor o Governo Goulart. Não estava sendo convidado pela cota do partido, mas em razão de seu lastro de formação técnica, na condição de um intelectual respeitado mundialmente. 

Foi solicitado a ele que mantivesse reservas sobre o assunto. Vaidoso, ele acabou admitindo a hipótese de tornar-se ministro. Foi o suficiente para alas inteiras do partido se mobilizarem no sentido de barrar a nomeação, em favor de algum burocrata da agremiação. Tal mobilização acabou por impedir a nomeação de Josué de Castro, preterido por algum outro "notável" indicado pelo partido. Recentemente, até tivemos uma situação análoga, quando o PP bateu o pé e insistiu na nomeação de um engenheiro para o Ministério da Saúde, quando se cogitava a nomeação de um médico muito bem conceituado para aquela pasta. Possivelmente apenas para sugerir um verniz técnico, republicano ao grupo de auxiliares do Governo Temer, quase todos eles com encrencas a responder na Operação Lava Jato. 

É impressionante como nessa leva de atores do nosso sistema político seja tão difícil encontrar alguém com a reputação ilibada, uma condição absolutamente fundamental para o exercício da função pública. Lembro que, num desses momentos de agonia do Governo Dilma Rousseff - quando ela entregou além dos anéis também os dedos, em concessões que descaracterizaram completamente o seu governo - ficou acordado que um determinado partido deveria indicar alguém para um dos seus ministérios. Pois bem. De uma lista extensa apresentada, nenhum deles passou no crivo das investigações realizadas pelos órgãos do próprio governo. Um conhecido blogueiro e jornalista afirmou que, no Governo Temer, os ministros encrencados não são demitidos. Recebem alta do hospital. Quem acompanha a cena política brasileira, naturalmente, sabe de quem estamos falando. Do ministro e do jornalista. 

Como se não fosse suficiente os ministros de Estado listados na famosa Lista de Janot, agora surge um outro deles com o nome envolvido no escândalo denunciado pelo Operação Carne Fraca, realizada recentemente pela Polícia Federal. O curioso disso é que, como ministro da Justiça, ele é o chefe da própria Polícia Federal. Recentemente nomeado para aquela pasta, o Deputado Federal Osmar Serraglio(PMDB) está sendo acusado, quando ainda era deputado, de interceder junto a agentes públicos para limpar a barra de frigoríficos e abatedouros sob a fiscalização dos órgãos do Governo Federal. Sua relação é com um dos principais nomes envolvido - A PF o acusa de chefiar a organização criminosa - onde há indícios de que Serraglio intercedeu para mantê-lo no cargo, além da gravação de um áudio, onde ele pede a ajuda do amigo, também conhecido como "grande chefe", para evitar que um frigorifico do Paraná fosse autuado. Num país sério, ele perderia a condição de continuar como ministro da Justiça. Num país sério, foi o que eu disse. 

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