sexta-feira, 24 de março de 2017

Editorial: Por onde anda a lista suja do trabalho escravo?



Faz algum tempo que não observamos alguma notícia positiva no nosso instável cenário político.Até um vídeo, onde o senador Renan Calheiros(PMDB) aparece jurando inocência, anda circulando pelas redes sociais e a blogosfera. O currículo de homem público deste cidadão dispensa os comentários que poderíamos fazer sobre esse vídeo, ou seja, torna-se desnecessário confrontá-lo, diante das evidências de uma conduta tão conhecida. De Renan Calheiros, pode-se afirmar - como observou o cientista político Michel Zaidan outro dia - que nem a cabeleira dele é  verdadeira.Volto a repetir, o cenário político não poderia ser pior. IDH estagnado, recessão, subtração de direitos, finanças públicas combalidas, índices de desemprego recorde, violações de direitos civis etc. Num contexto político como este, não nos causa estranheza o adiamento, determinado pelo TSJ, da divulgação da lista suja do trabalho escravo, que tornou-se um parâmetro de direitos humanos, ao expor ao público aqueles patrões que violam as leis trabalhistas do país. 

Como se observa, um indicador dos mais relevantes para os movimentos sociais. O Brasil, no último dia 20, foi denunciado à ONU, em razão da omissão da divulgação dessa lista. O juiz Ives Gandra, que dirige o STJ, foi quem determinou a sua suspensão, mas sabe-se que houve pressão do Governo Temer neste sentido. A motivação seria a de preservar - imaginem - os direitos dos violadores da legislação trabalhista. O governo Temer teria instituído uma comissão para tratar da reformulação e aperfeiçoamento dessa lista. Nesses tempos bicudos, parece que a preocupação maior mesmo está com o andar de cima da pirâmide social. As dúvidas sobre o assunto são completamente dissipadas quando se toma como referência a bancada da oligarquia escravocrata, com seus representantes no parlamento, que deu sustentação ao golpe institucional recentemente materializado no país. essa turma deve está mais feliz do que pinto no lixo. E não é para menos. 

Com esta política de desmonte do Estado, o trabalhador nunca se sentiu tão fragilizado. É o seu pior momento. As manobras se sucedem, uma a uma, todas na direção de submetê-lo ao mais vil tratamento, atingindo o seu emprego, a sua aposentadoria, desregulamentando os seus direitos. Se eles não esboçam o menor pudor em rasgar cláusulas pétreas da Constituição Cidadã de 1988, imaginam o que não são capazes de fazer com a CLT, que é uma espécie de constituição dos trabalhadores? Até recentemente foi aprovada a excrescência de uma terceirização permissiva, que atinge em cheio o serviço público. Confesso a vocês que perdi os parâmetros daquelas carreiras exclusivas do Estado. Afinal, que Estado? Seria até natural que houvessem afrouxamento por aqui, quando o propósito é mesmo o seu desmonte. 

Quando se trata da legislação sobre o trabalho escravo, sabe-se que há um forte lobby da bancada da "Berlinda" - este "B" é um crédito nosso, depois de saber que a bancada escravocrata também deu sustentação ao golpe - no sentido de amolecer as regras que tratam desta questão, criando uma licenciosidade no sentido de anistiar os infratores e, consequentemente, permitir novas violações. Os avanços que o país conquistou nas últimas décadas estão todos retroagindo para um patamar bastante preocupante. A agenda regressiva é ampla e atinge sem piedade os estratos que ocupam o andar de baixo da pirâmide, preservando, os privilégios de uma elite que, ao longo dos anos se notabilizaria como a elite mais cruel do mundo, forjada em três séculos e meio de trabalho escravo. 

Por escrever bastante sobre literatura de engenho ou regional, fico cascavilhando livros, dissertações e teses que abordem essa temática. Dias desses , tive uma experiência curiosa. Caiu em minhas mãos a dissertação de mestrado de Carla de Fátima Cordeiro, sobre os personagens negros na obra do escritor paraibano José Lins do Rego. Sou um tanto suspeito, mas recomendo bastante o trabalho de Carla. Ainda com as minhas pesquisas, descobri que a autora acabou ampliando seu trabalho para uma tese de doutoramento, desta vez sobre como era visto o negro na obra do escritor baiano, Jorge Amado. O texto de Carla, talvez em razão dos rigores acadêmicos, é bastante ponderado e comedido. Lá para tantas, porém, como quem perdesse as estribeiras e mandasse às favas os pudores acadêmicos, Carla, ao analisar a "saudade" de escritores como José Lins do Rego e Gilberto Freire sobre aquele Nordeste de tempos idos, ela sapeca: Do que eles sentiam saudades mesmo? da escravidão, dos grandes latifúndios, dos partidos de cana a perder de vista e, possivelmente, das licenciosidades com as mucamas das senzalas. Essa agenda regressiva ora em curso no país parece indicar que nossa elite ainda não mudou o bastante o seu pensamento sobre o assunto.   

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