segunda-feira, 27 de março de 2017

Editorial: Porque fracassaram as mobilizações dos "coxinhas"

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O momento é bastante difícil para o país. Até mesmo para coxinhas e paneleiros, que até recentemente saíram às ruas ou bateram panelas para pedir o afastamento da presidente Dilma Rousseff, dando suporte popular à trama institucional que se urdiu com o propósito de afastá-la da Presidência da República sem um crime de responsabilidade que o justificasse. Um procedimento que o bom-senso recomendaria que não tivesse o apoio daquele brasileiro minimamente bem informado, com alguma convicção na democracia. Se a elite manda às favas a nossa democracia - consoante a manutenção dos seus privilégios históricos - quem sabe a classe média poderia ter mais respeito por ela. Não é o que parece, a julgar por essas marchas da insensatez. 

A agenda desse movimento conservador que sai às ruas - quase sempre a partir de encontros na orla - é difusa, confusa e burra. O que eles conseguiram até agora foi mergulhar o país no terreno pantanoso da instabilidade política, da erosão de direitos, do corte de investimento em áreas essenciais, do desemprego e da recessão. Eis aqui uma boa explicação para o "arrefecimento" desses movimentos, a julgar pelas concentrações realizadas no último domingo, dia 26. Uma boa parcela da classe média brasileira é assalariada, formada por servidores públicos. Devem estar sentido na pele - ou no bolso - os reflexos desse arroxo realizado pelo Governo Temer. A agenda para pedir a prisão de Lula, a manutenção da Lava Jato, de apoio ao juiz Sérgio Moro, a rigor, são coisas do passado. A pauta de uma agenda consequente seria bem outra. Creio que até os "coxinhas" - num esforço incomum de raciocínio - já devem ter chegado a esta conclusão. 

O Estado brasileiro está sendo completamente desmontado e com uma voracidade incomum. Eles têm pressa em completar o "serviço". Investem contra os direitos civis de minorias - como LGBT, negros, quilombolas, indígenas -; propõem uma reforma previdenciária draconiana; subvertem a consolidação das leis do trabalho - nem a lista suja do trabalho escravo é divulgada -; além de uma reforma tributária que deverá, como sempre, ser orientada pelo princípio de preservar os interesses dos ricos, sugando ainda mais impostos dos mais pobres. Como observou o sociólogo José Antonio Moroni, em post publicado aqui no blog, até o insuspeito Banco Mundial reconheceu o aumento da pobreza no Brasil. É contra essas excrescências que o brasileiro de brio deveria sair às ruas. Não para pedir a prisão de um ex-presidente que foi quem mais fez por aqueles que ocupam o andar de baixo da pirâmide social, tirando 40 milhões da extrema pobreza e permitindo o acesso de uma legião de jovens empobrecidos ao ensino superior. Agora as IFES poderão até cobrar mensalidades. Já pensou? 

No próximo dia 05 de maio o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá um audiência na 13º Vara da Justiça Federal, no Paraná, onde será ouvido pelo juiz Sérgio Moro, no curso das investigações da Operação Lava Jato. Pelo que tem sido noticiado pela imprensa, o processo envolve a reforma daquele tríplex do Guarujá, supostamente pertencente a Lula, bancado por empreiteiras que mantinham negócios com o governo, o que levanta a suspeita de algum favorecimento. Num encontro recente do PT, acossado, num momento de destempero verbal, o ex-presidente Lula tratou aquele procurador do Ministério Público Paulista de "moleque". Um equívoco, porque atitudes assim apenas reforçam a sanha desenfreada de caçá-lo, manifestada por alguns atores e instituições. Para este dia, movimentos sociais e centrais sindicais estão preparando uma grande mobilização de rua. A expectativa é grande, pois o grau de descontentamento da sociedade brasileira com este governo é bastante acentuado. Agora, sim, teremos uma mobilização de rua com uma agenda, de fato, consequente. 

Há uma grande incógnita sobre como o Governo Temer reagirá a estes protestos de rua e possivelmente a uma greve geral. Há indícios de que aquela sensação de apatia que tomou conta do brasileiro está, aos poucos, sendo quebrada. Acordada de um sono profundo que produziu o monstro do retrocesso político, a sociedade brasileira, finalmente, desperta para a necessidade de ir às ruas defender seus direitos mais comezinhos, como um teto, um emprego, o direito de ir e vir - a violência cresce a níveis assustadores - de comer e aposentar-se. Não queremos aqui ser pessimistas, mas, em circunstâncias assim, a tendência não é das melhores. Convém ir se preparando para um enfrentamento duro com o aparelho repressor do Estado. Como alertava o sociólogo Slavoj Zizek, desde as Jornadas de Junho, esta agenda regressiva também prevê o "endurecimento" do exercício do poder político. 


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