sexta-feira, 10 de março de 2017

Editorial: Um cafezinho com Michel Temer


Adianto aos leitores de que não estamos falando de mais uma anedota do folclore político. Na realidade, o fato foi narrado ao próprio editor deste blog pelo historiador Manuel Correia de Andrade, numa sexta-feira chuvosa de um mê de maio. O professor Correia de Andrade é autor de diversos livros sobre os problemas fundiários da região Nordeste. Um deles - A Terra e o Homem no Nordeste - hoje um clássico, foi escrito a pedido de Caio Prado Júnior que então organizava um grande painel de estudos sobre o Brasil, e pediu ao historiador que ficasse incumbido de dar conta da região Nordeste. Mas, os estudos de Manuel Correia de Andrade também chamaria a atenção de um grande político pernambucano: Miguel Arraes de Alencar, que o convidou para integrar o seu governo. Homem de livros e academia, Manuel Correia de Andrade mostrou-se reticente, uma vez que o "campo político" não era assim a sua praia. Convidado ao Palácio do Campo das Princesas para uma conversa com o político pernambucano, Arraes insistiu no convite. Ainda diante de sua relutância, a velha raposa política pigarreou e vaticinou: quando você receber um político e tiver que negar algum pedido, negue, mas ofereça um cafezinho. Simples assim

Essa é uma historieta que até poderia compor o painel do folclore político brasileiro, tão pesquisado pelo jornalista Sebastião Nery. Mas é a mais pura verdade. Esse fato nos veio à mente depois das especulações em torno de um encontro entre o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin(PSDB) e o presidente da República, Michel Temer(PMDB), encontro ocorrido no Palácio do Planalto. Em política, quase sempre não se revela as verdadeiras intenções, salvo no caso citado acima, onde, de fato, os escritos do professor Manuel Correia de Andrade - um profundo conhecedor da região Nordeste - deve ter pesado sobre a escolha do seu nome por Arraes para compor o seu secretariado. Assim como a pouca predisposição do pesquisador para o meio de campo político. 

Na boca do palco, teria sido um encontro fortuito, para preencher o tempo, de acordo com o governador Alckmin, que teria ido á Brasília prestigiar a posse dos mais novos ministros de Estado. Nas coxias, entretanto, as coisas não são bem assim. O que sabe é que tratou-se de um encontro onde o governador reafirma a sua condição de candidato à Presidência da República nas eleições de 2018, num arranjo político possivelmente acordado durante as tecituras que engendraram a afastamento da presidente Dilma Rousseff do poder. Aliás, no caso de Geraldo Alckmin, a presunção de que o presidente Michel Temer cumpriria apenas um mandato tampão era uma condição fundamental para apoiar aquelas urdiduras. À época, creio, as relações do tucano com a cúpula do partido não estavam assim tão deterioradas. Ele ainda falava como um grão-tucano do bico fino. Depois, ele tomaria uma serie de medidas no sentido de preservar o seu ninho - dos próprios tucanos - negociando a possibilidade de alçar voos com as pombinhas do PSB, com quem estreitou os laços desde então. 

Naturalmente que o encontro com Michel Temer não se resumiu aos cafezinhos e canapés do Palácio do Planalto. Ali, entre um gole e outro, deve ter sido tratada questões relevantes da política nacional, sobretudo neste momento em que estará sendo julgada pelo TSE as contas de campanhas da chapa Dilma/Temer, naquelas eleições de 2014, onde são apontadas diversas irregularidades com o seu financiamento, de acordo com os delatores da Construtora Odebrecht. Irregularidades que o contorcionismo dos ghost writer do Palácio do Planalto não conseguem esconder através de suas notinhas, logo desmentidas pelas evidências fatos descritos pelas delações. Aguarda-se para sexta-feira, por exemplo, uma especie de acareação entre esses delatores para que fique definitivamente esclarecido, por sinal, o que teria sido tratado num jantar no Palácio de Jaburu. Temer confirma uma fala de Marcelo Odebrecht - desmentida por um outro delator - que não se falou em dinheiro naquele encontro. Quem melhor traduziu isso foi o chargista Benett, em charge que ilustra este editorial.

Se, por um lado, é imprevisível o desfecho dos acordos mantidos entre os peemedebistas e tucanos, afinal, como afirmava a raposa Magalhães Pinto, a política muda como as nuvens, por outro lado, tudo parece caminhar para um acordo político que não prejudique o mandato tampão do senhor Michel Temer. Hoje, o ministro Gilmar Mendes admitiu a consistência de provas que poderiam levar à degola o seu mandato de presidente, com a ressalva de que ele poderia ser reeleito presidente através do parlamento, onde possui ampla maioria. Tudo indica ser uma manobra para não desmoralizar completamente o Tribunal Superior Eleitoral, diante de um impasse que aponta que a absolvição de Michel Temer soaria muito mal para aquela Corte, aliás presidida pelo próprio Gilmar Mendes.  

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