sexta-feira, 14 de abril de 2017

Editorial: A delação do fim do sistema político brasileiro.



Não chega a ser a delação do fim do mundo. Por outro lado, não se constitui nenhum exagero em afirmar que a delação dos executivos, ex-executivos e herdeiros da Construtora Odebrecht impõe um cheque mate ao nosso sistema político. Um vácuo político que pode ser habilmente ocupado por algum aventureiro de turno, como observou o jornalista Josias de Souza, com uma agenda política baseada em um "programa" muito simples: o combate à corrupção e aos políticos profissionais. No retrovisor político, embora embasado, já é possível observar crescendo nessa esteira de descrédito do sistema, nomes como os do prefeito de São Paulo, João Dória, e do Deputado Federal Jair Bolsonaro. Os possíveis aspirantes - e até quem está ocupando - à poltrona presidencial do Palácio do Planalto estão absolutamente enredados com as denúncias e inquéritos da Operação Lava Jato. No escopo do sistema, mas cada qual com o seu drama pessoal, sobraram apenas a irmã Marina e o Ciro Gomes. Marina, uma poço de contradições que não consegue livrar-se dos seus dogmas evangélicos. Se perde no primeiro questionamento sobre uma escola laica, a descriminalização das drogas ou sobre a liberalização do aborto. Ciro, um homem sério e muito preparado, mas de um pavio tão curto que pode queimá-lo. 

Quanto a Lula, nós já comentamos ontem por aqui. Nessa reta final, o cerco se fecha em torno de sua condenação no curso da Operação Lava Jato. Está se confirmando a tese de que ele não escaparia de uma sentença condenatória, muito antes de torna-se candidato presidencial às eleições de 2018, onde pretende reeditar uma conciliação de classes, salvando da degola figuras carimbadas desse sistema político estruturalmente corrupto, em nome de um apelo popular que ele ainda ostenta junto aos segmentos menos favorecidos do eleitorado. Já imaginaram que contradição? A corrupção está no DNA dessa gente. Para complicar, assim como as características genéticas, é coisa de que passa de pai para filho, como sugere os Lobões e os Lobinhos, os Cajus e os Cajuzinhos ou maturis, como tratávamos os cajus novinhos em nossa infância. Quem acompanha a lista de apelidos das famosas planilhas da Odebrecht, sabe a quem estamos nos referindo. E, de repente, Lula entra dentro desse esquadrinhamento político, pasmem, para garantir a sobrevida dessas oligarquias políticas carcomidas, garantindo-lhes uma sobrevida e um foro privilegiado. Confesso a vocês que isso tem sido um pouquinho demais para este escriba de esquerda assimilar.

Em nome do interesse público, as áudios com as falas dos delatores foram divulgados. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin assim justificou a sua atitude em liberá-los. Não acompanhamos o Jornal Nacional da Rede Globo, mas, em sua edições matinais, os telejornais da emissora dos Marinhos capricharam em suas edições, não poupando ninguém. Se é verdade que o Lula voltou a ser "massacrado", por outro lado, a edição dos telejornais não pouparam a figura do presidente Michel Temer(PMDB), que teria participado de reuniões com a cúpula do PMDB e da Construtora Odebrecht para negociar dinheiro de financiamento de campanhas, supostamente irregulares. Tanto é assim que o Palácio do Planalto apressou-se em divulgar uma nota negando veementemente as afirmações dos executivos da Odebrecht. A  nota é inverosímel. Nem parece obra dos ghost-writers do Planalto. Tem-se a impressão de ter sido produzida por irmãos traquinas combinando o que vão dizer aos pais na volta do expediente. Como justificar aquela reunião com os principais executivos do Departamento de Obras Estruturadas da Odebrecht?

Em parágrafo anterior, Lula já recebeu sua pancada. A nossa preocupação é com o nosso sistema político, bastante fragilizado por essas revelações, sem que se vislumbre uma luz no final do túnel, ambiente propício para os aproveitadores de turno, como afirmamos antes. Trata-se de um vácuo de poder que será ocupado de alguma forma, possivelmente da forma menos adequada para os interesses de nossa combalida experiência democrática. Aqui, a governabilidade assume os contorno de um "jeitinho". Foi assim quando o ministro Marco Aurélio Mello tentou afastar o senador Renan Calheiros da Presidência do Senado Federal, tem sido assim agora, por ocasião de possíveis equívocos cometidos pelo atual presidente Temer, que, na opinião do Ministro Edson Fachin, na condição de Presidente da República não poderia ser investigado por crimes cometidos antes do exercício do mandato. Numa consulta feita ao STF pelo PPS, quando este partido desejava atingir, na verdade, a chapa presidencial que venceu as eleições de 2014, não foi este o entendimento do ex-ministro daquela Corte, Teori Zavasck, que publicamos a seguir: 

Cabeçalho de despacho de Teori Zavascki sobre recurso movido pelo PPS


Trecho do despacho de Teori em que ele reconhece que presidente da República pode ser investigado


Última folha do despacho de Teori Zavascki, com o aviso de assinatura digital



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