sexta-feira, 28 de abril de 2017

Editorial: A erosão do mundo do trabalho.


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Desde uma época em que estudávamos o Partido dos Trabalhadores com aquele afinco e entusiasmo de outrora, passamos a acompanhar os estudos do decano da Unicamp, o professor Ricardo Antunes, possivelmente o maior especialista brasileiro sobre os estudos envolvendo as relações de trabalho. Nossa aproximação se deu, em princípio, em razão de suas reflexões sobre o Novo Sindicalismo. Ricardo Antunes escreveu um artigo demolidor sobre essa proposta de reforma trabalhista, aprovada na noite de ontem,pela Câmara dos Deputados. De acordo com o professor Ricardo Antunes(UNICAMP), estamos diante de mais uma daquelas "faturas" a serem liquidadas pelos operadores do golpe institucional em curso no país, ou seja, desmontar a Constituição dos Trabalhadores - é assim que eles tratam a CLT - e atender à demanda dos empresários, que desejam uma sociedade de terceirização total. 

Uma comentarista da emissora do plim plim chegou ao escárnio de afirmar que a reforma é boa, seus críticos precisam compreender que existem, de acordo com dados do IBGE, mais de um milhão de trabalhadores que "devem" aos seus patrões, seja uniformes, equipamentos ou comida. Ela esqueceu de acrescentar que são trabalhadores que já vivem sob regime de trabalho semi-escravo, cuja "lista suja" o Governo Temer proibiu que fosse divulgada. Bons tempos aqueles, meu caro Ricardo, em que as mudanças no mundo trabalho ocorriam em razão de circunstâncias motivadas pela própria dinâmica do processo produtivo. Hoje, embora essas circunstâncias não possam ser completamente desprezadas das análises, há algo de novo no horizonte, como o rolo compressor das reformas neoliberais, caracterizadas por sua sanha em extinguir direitos e expectativas de direitos, assim como implodir o Estado de bem-estar social. Sem dúvida um ingrediente a mais nesse processo.

Em nome dessa flexibilização, hoje, pode-se quase tudo nas relações que envolvem trabalho e capital. Como miséria pouca é bobagem, atenta-se, igualmente, contra a estrutura sindical, cortando-se a obrigatoriedade da contribuição às entidades representativas da categoria profissional.Pai, afasta de nós esse cálice, pois o pacote de maldades contra a classe trabalhadora continua. Há um possibilidade concreta de que também seja aprovada a reforma draconiana da Previdência, que subtrai substantivamente os direitos dos tralhadores assegurados pela Constituição Cidadã promulgada em 1988. 

Há nesta reforma uma inequívoca intenção de corroer ainda mais o Estado de bem-estar social. Apesar das alterações cosméticas, em essência, o batom das más intenções continua o mesmo. Foi retirado do mesmo estojo de maquiagem. De cara, ficam de fora de qualquer proteção os 40 milhões de trabalhadores do mercado informal. Isso num momento que indica o crescimento desse contingente, alijados que serão da "formalidade parcial", como já é possível observar através da ocupação das ruas ou do exército de vendedores de água mineral e cremosinhos de todos os sabores. São vendedores de todas as idades e ambos os sexos, o que talvez tenha levado o estudioso sociólogo alemão Ulrich Beck a concluir que vivemos numa espécie de "democracia da economia informal" no país, quiçá, um verdadeiro "exemplo" para a Europa. Entendam como quiserem. 


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