quarta-feira, 12 de abril de 2017

Editorial: A lista de Fachin


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Estamos nos debruçando num trabalho minucioso sobre o Brasil da Odebrecht. Logo teremos novidades por aqui. A ideia surgiu depois que um conhecido jornalista e blogueiro anunciou que estava tirando férias e iria aproveitá-las para entender um pouco melhor este país, na realidade, de acordo com as palavras do patriarca do grupo, Emílio Odebrecht, que a décadas era governado pela empreiteira, através do seu nebuloso Departamento de Obras Estruturadas, que não passava de um propinoduto institucionalizado, envolvendo agentes públicos e privados. Se brincar, entro no ramo do folclore político e ainda escrevo outra peça acerca dos famosos apelidos criados pelos gestores desse deparamento para não complicarem a vida dos seus beneficiários. Hoje mais um desses apelidos entrou para a minha lista: Esquálido, que se trata de uma possível referência ao senador maranhense Edson Lobão. 

A lista do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, relator da Lava Jato, que envolve a abertura de inquéritos envolvendo 108 pessoas, onde estão arrolados deputados, ministros, governadores e senadores da república - inclusive os presidentes do nosso glorioso Poder Legislativo. Em certa medida, essa lista ora divulgada poderia significar uma pá de cal no nosso já fragilizado sistema político. Os principais ministros do Governo Michel Temer estão sendo investigados e ele, por muito pouco, a partir de uma interpretação equivocada do ministro Edson Fachin, ficou fora da lista. De acordo com o jornalista Josias de Souza, o ex-ministro Teori Zavasck teria criado a jurisprudência necessária para enquadrar Temer. O que deve ter pesado, mais uma vez, foi o componente político da famigerada governabilidade. Não sei até quando eles vão segurar esta onda, uma vez que não há luz no fim do nosso túnel político.

Lula, o homem da conciliação de classes, capaz de reunir em torno de si algumas dessas personalidades políticas carcomidas, também está encrencado até a medula. Marcelo Odebrecht teria confirmado ter repassado para ele a quantia de R$ 13 milhões de reais. Isso carece de provas, pode não ser verdade, mas é bom seus advogados tomarem muito cuidado na audiência do dia 03 de maio próximo, na 13ª Vara da Justiça Federal, no Paraná, presidida pelo juiz Sérgio Moro. Afinal, o ex-ministro José Dirceu amarga dias horríveis na prisão, com dezenas de anos de condenação, e, ao que se sabe, concretamente, não haveria provas materiais irrefutáveis contra ele. A Lula soma-se o fato de o esquadrinhamento político-jurídico-midiático em voga tentarem encontrar mecanismos de o apearem do jogo eleitoral. Lula tem dado demonstrações de que poderia tentar uma volta ao Palácio do Planalto. Talvez seja uma forma de desancar seus detratadores. É difícil entender o que o moveria numa empreitada do gênero. Já perdi as ilusões quanto a algumas dessas hipóteses. Vamos em frente. Melhor o Lula neste contexto de arremedo de democracia do que viver sob o julgo de um governo ilegítimo. 

O grande problema que se apresenta aqui é a possível inviabilidade política de algumas reformas importantes - como a política - em razão da influência desses apoiadores, como ocorreu no período de governo da coalizão petista. Em sendo assim, vamos continuar neste diapasão, empurrando as coisas com a barriga indefinidamente, o que, aliás, é uma das grandes características deste país. Para usarmos uma expressão do antropólogo Gilbert Durand, em sua bacia semântica, Lula é um ator político perfeitamente assimilado pelo establishment. Tem um forte apelo popular, que hoje é mais maximizado pelas hostes conservadoras do que propriamente poderá ser utilizado como um capital político dos mais empobrecidos. Lula como uma tábua de salvação de políticos como José Sarney, Lobão, Renan Calheiros, sinceramente, não dá para engolir nem  nos termos da realpolitik. Nós já conhecemos muito bem o final deste filme. A elite, de birra, desmancha tudo e nós voltamos a mergulhar nas trevas de num profundo retrocesso político, subtraindo as poucas conquistas e avanços dos setores populares. 

A rigor, precisamos de um projeto político mais consistente para o país, com as condições políticas de implementar as reformas necessárias; suplantar os crônicos problemas das desigualdades sociais e de direitos; aperfeiçoar o nosso processo democrático; alfabetizar os 13 milhões de analfabetos adultos, uma estatística vergonhosa; aprofundar o reconhecimento dos direitos das comunidades quilombolas e indígenas. Convém aqui nunca esquecer que os avanços conquistados no tocante a esses direitos foram suprimidos pelo governo golpista em apenas algumas poucas canetadas. Neste aspecto, faz sentido aqui, mais uma vez, a reflexão sobre a "inviabilidade" de um país chamado Brasil. Hoje um colunista insinuou que uma lista deste tamanho a tendência é dar em nada. Não é improvável que ele possa ter lá suas razões para não acreditar na punição dessa gente. 

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