domingo, 30 de abril de 2017

Editorial: Lula: A História me absolverá!



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve recentemente no Rio Grande do Sul, ao lado da presidente deposta através de um golpe institucional, Dilma Rousseff. Em discurso proferido naquele Estado, Lula fez referência a uma frase do ex-líder cubano, falecido recentemente, Fidel Castro. Na realidade, o título de sua defesa durante o julgamento de exceção ao qual foi submetido, depois de rebelar-se contra a ditadura do sargento Fulgêncio Batista, que infernizou a ilha caribenha durante décadas. Fidel assumiu a sua própria defesa, realizada ainda nas dependências de um hospital onde ele se recuperava, depois da malograda tentativa de tomada do Quartel de Moncada. Ele começa a defesa alertando que a justiça do país deve estar mesmo muito doente, para cometer o desplante de enviar altos magistrados para ouvi-lo ainda num hospital. Castro encerra sua defesa com a frase "A História Me Absolverá". O texto foi transformado em livro e saiu de Cuba clandestinamente. 

Lula, durante o seu discurso em Porto Alegre, observou que está ansioso para o embate com o juiz Sérgio Moro, programado para o dia 10 de maio, mas assegura que não será julgado por alguma coisa relacionada à justiça e sim pelo seu governo. O que está em julgamento é o seu governo, de acordo com o petista. Num novo levantamento de intenções de voto, realizado pelo Instituto Datafolha, divulgado neste domingo, Lula continua aparecendo muito bem na fita, ampliando a vantagem sobre os adversários. Os tucanos continuam sem alternativas, depois do desgaste das denúncias da Operação Lava Jato, salvo se apostarem em nomes novos(?), como é o caso do prefeito de São Paulo, João Dória Jr, que, no momento, tem sido mais um marqueteiro do que propriamente um gestor. Se, por um lado, Lula continua liderando as pesquisas, por outro lado, é vertiginoso o crescimento de nomes como o do Deputado Estadual Jair Bolsonaro, hoje o candidato mais competitivo depois do petista, sobretudo por surfar numa onda bastante conhecida, ou seja, uma tendência do eleitorado ao "endireitamento", fenômeno político mundial. Bolsonaro é uma espécie de nosso Donald Trump. 

Com já disse aqui outras vezes,mas volto a repetir, é preciso tomar muito cuidado com essa performance do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Qualquer analista de pesquisa sabe que isso pode ser apenas fogo de palha, ou seja, não tem consistência a longo prazo ou não resistiria a um segundo turno, onde ele também desponta com alta taxa de rejeição junto ao eleitorado, depois dos desgastes produzidos pela Operação Lava Jato. Depois, tenha ele ou não razão sobre as reais motivações do seu julgamento, o certo é que os operadores do golpe institucional criarão as condições necessárias para inviabilizá-lo de uma forma ou de outra. No mínimo o tornarão inelegível para o pleito presidencial de 2018. Depois, falando francamente, uma nova conciliação de classes com essa trupe de Brasília, interditando reformas fundamentais ao país, não sei até que ponto isso seria salutar. Seria mais uma oportunidade de empurrarmos os problemas com a barriga indefinidamente, num país que, historicamente, nunca "rompe", ou seja, como diria um outro especialista em marketing pessoal, o ex-presidente Jânio Quadros, somos um país de hímen complacente.  

Na realidade, estamos diante de um país destroçado e sem opções políticas substantivas para guiá-lo. O clima de terra arrasada é notório.  É nesta conjuntura que crescem as opções de nomes como o do Deputado Jair Bolsonaro, o sabonete que nos empurraria de uma vez para o precipício. Um leitor do blog observou nos comentários que, o êxito da última greve, aliada à sinalização de um caminho de volta esboçado pelo PSB, pode significar um reagrupamento das forças do campo democrático e progressista, em contraposição à hegemonia de caráter conservador e golpista. É possível que ele tenha razão, mas estamos ainda numa fase de "esboços" de reação ou despertando lentamento do sono profundo que produziu o monstro. Vamos trabalhar para que essa recomposição ocorra e que, já em 2018, possamos construir opções políticas substantivas, capazes de retomar o processo democrático, assim como efetivar as reformas que a sociedade brasileira reclama a séculos. 

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