segunda-feira, 3 de abril de 2017

Editorial: Renan Calheiros abandona a nau do Governo Temer.


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O senador Renan Calheiros, de fato, tem razão ao afirmar que coisas estranhas acontecem nessa república. Transformado em réu do STF, ele perderia as condições legais e morais de continuar presidente o Senado Federal, conforme entendeu o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, que determinou seu afastamento do cargo. Seus pares, no entanto, viram nessa medida o potencial de representar uma crise institucional de governabilidade, uma vez que, até então, Renan Calheiros(PMDB) era peça-chave na aprovação de medidas propostas pelo Governo Michel Temer(PMDB). No país do "jeitinho", ele foi mantido na presidência da Casa, sob a recomendação de que não poderia exercer o cargo de Presidente da República, no caso de algum impedimento do titular. Estava fora da linha sucessória.  

Neste período, Renan Calheiros(PMDB) vivia uma espécie de lua de mel com o Governo Temer. A relação entre ambos, aos poucos, iria se deteriorando, em razão de embaraços políticos e jurídicos enfrentados pelo senador alagoano. Vamos trabalhar com a hipótese da realização das eleições previstas para 2018, para não dizerem que estamos vendo chifre em cabeça de cavalo. Neste caso, Renan Calheiros(PMDB) preocupa-se em manter-se no poder, preservando o seu foro privilegiado, para não cair nas malhas da justiça comum, mais precisamente na 13º Vara da Justiça Federal no Paraná, onde responde a vários inquéritos no curso das investigações da Operação Lava Jato. Uma outra preocupação de Renan Calheiros seria a de manter o filho como governador do seu Estado natal, Alagoas, onde Renan Filho(PMDB) tentará a reeleição. Fala-se até numa possível aliança com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva(PT), cujo prestígio continua alto na terra dos marechais. No Nordeste como um todo, para ser mais preciso. 

Sabe-se que o conjunto de maldades previstas pelo Governo Michel Temer são extremamente perniciosas e impopulares. São medidas draconianas, que jamais poderiam ser negociadas com o eleitorado em praça pública, em eleições livres. Sua adoção apenas seria possível através do expediente político de um governo de corte autocrático. Eleições diretas, mesmo no contexto de uma democracia representativa tão fragilizada como a nossa, não são coadunantes com essa agenda ora em curso no país. É certo que o povo ainda não despertou o suficiente para o que está em jogo, mas isso é apenas uma questão de tempo. De tempo de sobrevivência, pois a população irá às ruas contingenciadas pelas circunstâncias absolutamente adversas dessa agenda de morte. Morte do emprego, do Estado de bem-estar social, morte dos direitos, da aposentadoria. Como um animal político de faro apurado, Renan já deve ter percebido o tamanho da encrenca que os apoiadores deste governo ilegítimo poderão enfrentar nas ruas em 2018. Creio que até mesmo antes disso, pois, não raro, o afastamento de Michel Temer tem sido cogitado.  

Aqui em Pernambuco, uma pesquisa de intenções de voto indicou que o governador Paulo Câmara(PSB) ostenta espantosos índices de desaprovação do seu governo, atingindo 74% de escore, tornando-o o governador mais impopular da história do Estado. É bom fazer aqui o registro de que ele, assim como o PSB, apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A pesquisa do IPMN (Instituto Maurício de Nassau) foi realizada muito antes do pleito de outubro de 2018, o que recomendaria muita cautela em torno dos dados apresentados. Um fato curioso é que até mesmo aqueles problemas nacionais de corte estrutural, como é o caso do desemprego, estão tendo seus ônus creditados aos governantes estaduais. No fundo, no fundo, os eleitores não estão tão errados assim ao estabelecerem essa analogia. Afinal, é tudo farinha do mesmo saco. O projeto urdido para afastar a presidente Dilma Rousseff do poder contou com algozes em todos os quadrantes, que fizeram questão de estufar o peito para gritarem um "Fora, Dilma". Vejam agora o atoleiro político, econômico e institucional em que estamos todos metidos, e eles - políticos e "coxinhas" - ou seria "políticos coxinhas"? - sentido os reflexos disso, seja no bolso, seja ao habilitarem-se a continuar na vida pública.  

É desse lodaçal e dessa areia movediça que  o senador Renan Calheiros parece tentar livrar-se, preservando, em última análise - como sempre - o seu pirão primeiro. Não deseja submeter-se àqueles naturais incômodas oitivas com o juiz da Lava Jato, tampouco perder a hegemonia de poder que conseguiu no seu Estado natal, através do filho. Pensei aqui - e escrevi - ser pouco provável uma recomposição dessas forças conservadoras da política nacional com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, vejo que me enganei a esse respeito. Afinal, como mesmo afirmou o Renan, coisas estranhas acontecem nessa república. Essa conciliação de classe liderada pelo PT foi desastrosa, mas, em seus dois mandatos como presidente do país, o ex-presidente comportou-se bem aos olhos de nossas elites e da banca internacional, a despeito do flerte com o andar de baixo da pirâmide social. Não seria assim tão surpreendente uma recomposição de Lula pelo centro e à direita do espectro político nacional. Afinal, como ele mesmo dizia ainda na condição de líder sindical do ABC, não importa a cor do voto se ele cai na urna. 

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