quarta-feira, 17 de maio de 2017

Editorial: Educação: um debate para além das posições partidárias



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Ontem, dia 16, o ministro Mendonça Filho esteve no Senado Federal, atendendo a uma convocação daquela Casa, para uma audiência pública,a partir de um pedido do senador pernambucano, Humberto Costa. Apartes e estocadas de parte a parte, notadamente entre Democratas e Petistas, no final, o debate trouxe à tona alguns aspectos da educação nacional que, de fato, mereceriam uma profunda reflexão de todos os brasileiros, para muito além das colorações ideológicas ou da polarização de caráter intolerante que estamos presenciando hoje no país. Algumas premissas precisam ficar claras. Muitos dos graves "gargalos" da educação brasileira não foram criados pelo PT, assim como é verdade que também não foram devidamente equacionados nos governos da coalizão petista, a despeito dos esforços e das boas intenções. Um desses "gargalos" é o alto índice de analfabetismo entre a população adulta - que hoje atinge 13 milhões de analfabetos - o que coloca o país na posição de décimo entre os países que mais concentram analfabetos adultos entre a sua população, uma situação vergonhosa até mesmo para os padrões latino-americanos. Infelizmente, trata-se de um contingente esquecido pelo poder público, concentrado 90% na região Nordeste, por ironia, um reduto político do próprio Partido dos Trabalhadores. 

Problemas relativos à educação levam tempo para serem contornados. Equivoca-se o ministro Mendonça Filho(DEM) ao atribuir à gestão petista alguns problemas estruturais da educação brasileira, como o baixo desempenho em exames internacionais como o Pisa, da OCDE, onde o país sempre figurou na rabeira em matérias como Ciências e Matemática, em alguns casos levando uma sova até mesmo de republiquetas latino-americanas. É preciso esclarecer, no entanto, que isso não é de hoje, tampouco, como disse, pode ser atribuído à gestão dos governos da coalizão petista. Um outro "gargalo" diz respeito à formação do professor, uma variável que, isoladamente, já foi apontada como uma das principais responsáveis pelo baixo desempenho do alunado em sala de aula. Trata-se de um tema onde os "consensos" nunca foram devidamente construídos, tornando-se uma espécie de "tabu", onde confrontos fratricidas são verificados entre o aparelho de Estado, sindicatos e representantes da categoria. Uma pedagoga traduziu isso muito bem ao analisar o problema a partir de sua formação no curso: Nos ensinam tudo sobre o que não se deve fazer, mas não se ensina o como fazer. Ou seja, o alunado sai versado sobre as principais teorias sobre educação, mas, talvez não saiba preparar uma aula eficiente de matemática, por exemplo, ou mesmo construir estratégias de aprendizagens que, possam, no final, significar a obtenção de bons resultados em sala de aula.É como se no contexto do desenho curricular desses cursos, o cotidiano de sala de aula não merecesse a devida atenção. Como aqui estamos abandonado as "posições", há, de fato, deficiências práticas nessa formação. Falo isso com a nossa experiência de professor de Sociologia da Educação. 

Antes que nos trucidem, desejo dizer que há bons argumentos para uma necessária discussão teórica nos cursos de formação de professores, mesmo concordando que essa prática faria muito bem aos profissionais do ensino. Sem meias palavras ou delongas ideológicas, senador Humberto Costa(PT), bastava vossa senhoria ter informado ao ministro Mendonça Filho(DEM) - se o problema era apenas um cotejo de gestões - que  foram os governos da coalizão petista quem mais colocou filhos de pais com pouca formação formal no ensino superior público. Foi nos governos da coalizão petista que se desenvolveu o maior programa de inserção de jovens no ensino superior público, entre 18 e 23 anos, já realizado no país. Pesquisa realizada pela Fundação Joaquim Nabuco observou que, no universo de 83% desses jovens, os pais não tiveram acesso ao ensino superior, o que representou uma verdadeira revolução na educação brasileira. De acordo com Roberto Mangabeira Unger, se esse processo não fosse interrompido, era com essa contra-elite, formada por jovens de origem social fragilizada - mas com enorme sensibilidade social - que poderíamos mudar a face deste país.Nossa elite tradicional, forjada nos 365 anos de escravidão, tornou-se a mais cruel e insensível do mundo, não respeitando o direito ao exercício de cidadania do andar de baixo, tampouco se lixando para a observância às regras do processo democrático. Quando perdem ele eleições livres, simplesmente vão lá e desmancham tudo. Essa elite tem ojeriza às incertezas inerentes ao processo democrático. 

Quando convidou uma professora ligada à gestão de Paulo Renato para aquele ministério, Maria Helena Guimarães, Mendonça Filho praticamente definiu alguns papeis naquele órgão. Formado em Administração de Empresas, ele admitiu que entenderia de gestão, deixando os assuntos atinentes à educação para a convidada. Durante sua fala na audiência pública, muitos números foram apresentados, o que significa dizer que ele deve entender também de finanças, certamente uma disciplina do desenho curricular do curso de Administração. Vamos realizar uma "auditoria" nessas números, mas é inevitável reconhecer aqui que, no processo de "descarrilamento" do Governo Dilma Rousseff, quando, num último suspiro, ela resolveu adotar a agenda neoliberal dos seus adversários - abandonando o compromisso com a base de sustentação eleitoral do PT - já se tornava perceptível o contingenciamento de verbas naquela pasta. Agora é torcer que, mesmo diante das adversidades de toda ordem, as políticas públicas de Estado para a educação sejam preservadas, o que é pouco provável diante a aprovação da #PecdoFimdoMundo. O Brasil costuma negligenciar o seu "dever de casa".   


  

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