terça-feira, 23 de maio de 2017

Editorial: A ingenuidade do senhor Michel Temer


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Estamos mergulhados num impasse político gigantesco, sem perspectiva de solução a curto prazo. O que se pode pensar, neste momento, é sobre a necessidade de construção de pontes seguras para o futuro. Neste ambiente politico abafado, cria-se uma possibilidade favorável, inclusive, para o agravamento dos problemas inerentes a um golpe institucional ora em curso no país. Crise de governabilidade, crise política e institucional, crise econômica, crise de credibilidade.Ontem, num programa de televisão, um cientista político assinalou que pesquisas apontam que 30% da população brasileira são susceptíveis a uma solução autoritária. Talvez ele nem precisava informar isso, se ficássemos atentos aos cartazes que circulam nas manifestações dos "coxinhas" por todo o país. 

Antes da exibição da série Os Dias Eram Assim, a TV Globo realizou uma pesquisa onde constatou que um contingente expressivo de nossa população não tem a menor ideia do que foi a Ditadura Militar instaurada no país com o golpe civil-militar de 1964. Realmente não dá para acreditar que as pessoas que impunham aqueles cartazes - alguns com erros gravíssimos de língua portuguesa - possam, de fato, fazer ideia do que foram aqueles dias. Um colega de trabalho informou que um parente seu foi detido para averiguações simplesmente porque estava usando uma calça vermelha nas areias de Copacabana. O cidadão era gay. Era um guerrilheiro, quando muito, da liberdade da causa LGBT. Isso não surpreende, se considerarmos o fato de que, durante as manifestações populares das Jornadas de Junho, o inquérito aberto contra os participantes, denominado de "Inquérito Black Bloc", pediu o "indiciamento" até mesmo de um anarquista russo, Mikhail Bakunin, apanhado nos grampos telefônicos.  

O senhor Michel Temer, mesmo diante dos fatos que indicam e recomendam a sua saída imediata do comando do Executivo do país, aferra-se ao cargo, negociando com os líderes dos partidos da base aliada, numa ponta, e, na outra, enfrenta a batalha jurídica que deverá ser travada com o Supremo Tribunal Federal, onde corre um inquérito contra as suas estripulias na condição de Presidente da República. A rigor, parte do sistema político está paralisado e, aquelas reformas que se apresentavam com um caráter de urgência, hoje descansam sossegadamente em banho maria, aguardando o rumo dos acontecimentos políticos. Alguns partidos já desembarcaram da base aliada, mas o chamado núcleo duro, ou seja, o DEM  e o PSDB permanecem aguardando a confirmação, pelo pleno do STF, do sinal verde do andamento das investigações contra o presidente. Até mesmo a competência do ministro Édson Fachin está sendo questionada pelos seus advogados de defesa, uma vez que o rolo da JBF envolve outras operações sobre as quais Fachin não teria "competência" para julgar. Querem saber, inclusive, como se deu o tal sorteio. Não tenho dúvidas - assim como os leitores - de que eles gostariam que outro nome fosse sorteado, se é que vocês nos entendem.

Está difícil a construção de um consenso em torno de uma "agenda mínima', que permita, ao menos, o funcionamento das instituições. Descartada a possibilidade de uma eventual renúncia do presidente, também é igualmente sabido que os pedidos de impeachment protocolados para o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), terão dificuldades de serem aceitos. Procura-se um homem no Poder Legislativo Brasileiro com estatura moral, espírito publico e capacidade de liderança para conduzir uma transição até as eleições de 2018.Está difícil para o leitor identificá-lo? para nós também. Pode-se tentar alguém de "fora", um ex-presidente, um ex-magistrado, alguém que se aproxime do perfil descrito acima. Há também quem veja dificuldades na aprovação da PEC do Miro Teixeira, aquela que pede a convocação de eleições diretas imediatamente. Não vejo porque alguns advogam alguma dificuldade por aqui, uma vez que, dificilmente, o clamor das ruas poderia deixar de ser ouvido neste momento, embora entenda que, pelo regimento constitucional, a eleição teria que ser indireta.  

Aqui pela província pernambucana, o quadro é também de muita instabilidade, uma vez que Pernambuco foi contemporizado com 05 ministérios no Governo Temer. Roberto Freire(PPS) entregou o cargo, creio, aproveitando a "deixa", pois não deveria estar muito bem na condição de Ministro da Cultura.Raul Jungmann, também do PPS, permanece no comando do Ministério da Defesa para não ficar desempregado. É suplente e as chances de assumir a titularidade de deputado são remotas. Bruno Araújo (PSDB), aquele do último voto pela cassação do mandado de Dilma Rousseff - que bradou contra a corrupção nos governos da coalizão petista - chegou a redigir uma carta de renúncia, mas resolveu arquivá-la por orientação do partido. Fernando Bezerra Coelho Filho, embora o PSB tenha desembarcado do governo, permanece como Ministro das Minas e Energias. Aparentemente, não há incoerência aqui, uma vez que sua indicação ao cargo foi praticamente arrancada pelo pai, o senador Fernando Bezerra Coelho(PSB). O ministro da Educação, Mendonça Filho(DEM), é daqueles aliados de primeira ordem. Será um dos últimos a abandonar a nau governista. 

Nesta segunda-feira, o jornal Folha de São Paulo trouxe uma longa entrevista com o presidente Michel Temer. São perguntas bem capciosas, mas sabe-se que, com o apoio dos seus advogados, assessores e apoiadores, certamente, ele já saberia como se sobressair dos embaraços. Michel Temer é uma dessas grandes raposas da política brasileira. Há rumores que indicam que ele preparou a fritura da presidente Dilma Rousseff desde 2014, quando ela foi eleita para o segundo mandato. Na agudeza da crise política que tomou conta do seu governo, como um dos últimos recursos, Dilma indicou essa raposa para tentar por ordem no galinheiro da base aliada. Pois bem. Na entrevista que concedeu ao jornal da família Frias, lá para tantas, ao ser questionado sobre o recebimento de alguém investigado, na residência oficial do Jaburu, altas horas da noite, sem agendamento, com esta pessoa mantido aqueles diálogos pouco republicanos, o presidente se declara uma pessoa ingênua. Tudo menos isso, Michel Temer. 


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