domingo, 21 de maio de 2017

Editorial: Legitimidade e assepsia política



Ao analisarmos a narrativa discursiva do presidente Michel Temer (PMDB), não há como deixar de dar razão ao filósofo alemão, Friedrich Nictzshche, que afirmava que toda palavra era uma máscara e todo discurso era uma fraude. A verdadeira intenção de um discurso não está naquilo que ele revela, mas naquilo que ela oculta, que se constitui na essência do discurso, a verdadeira motivação do seu autor. Durante longos anos, o presidente Michel Temer manteve excelentes relações com os irmãos Batista, controladores do grupo J&F. Essa relação era tão próxima que Joesley Batista foi recebido na residência oficial do presidente da República, em anonimato, altas horas da noite, o que, por si, já se constituiria num ato questionável, incompatível com a postura que se espera de quem exerce o mais alto cargo do Executivo Federal.

Agora, a narrativa do senhor presidente Michel Temer é no sentido de desqualificar o senhor Joesley Batista, que teria usado de expediente criminoso ao gravar a conversa entre ambos, além de ligá-lo aos governos da coalizão petista, os quais ele e seu partido, o PMDB, integraram. Mas, vamos considerar por aqui, como informou ontem em seu artigo o cientista político Michel Zaidan, apenas o fato do ponto em comum que unia essa gente, ou seja, o anti-petismo. E o presidente Temer, como logo depois se sabia, mesmo integrando a base aliada da presidente Dilma Rousseff, urdia com a correlação de forças que tomaria o poder através do golpe institucional. Chegou a ser indicado como o seu articulador político. Imaginem!. Primeiro é preciso fazer a ressalva de que a delação do senhor Joesley Batista não poupou quase ninguém do nosso combalido sistema político. Sobrou até para o jornalista Cláudio Humberto, do Diário do Poder, ex-homem forte da comunicação do ex-presidente Fernando Collor, que, segundo ele, recebia uma mesada mensal no valor de R$ 18 mil reais para não publicar nenhuma matéria desabonadora ao grupo. 

Difícil saber como o sistema político reagirá a este tsunami. O sistema político brasileiro está na UTI e respira através de aparelhos. Um governo com uma base de apoio enlameada, com 08 ministros encrencados com a Operação Lava Jato e, agora, um presidente investigado por ilícitos registrados em áudio, além da reprovação do seu comportamento antirrepublicano. Não há, neste horizonte, atores políticos com o espírito público e estatura moral para negociarem uma saída. As casas legislativas são presididas por personas não confiáveis, o que significaria trocar seis por meia dúzia, caso se adote os preceitos constitucionais que, quando foi elaborado, certamente não poderia antever tanta podridão. Numa suposição de um mandato tampão de "Botafogo", quem, com os qualitativos necessários assumiria concorrer a uma eleição indireta no Legislativo? De imediado, já sabe que os poucos homens de bem daquela Casa não teriam alguma chance. Sabe-se que qualquer um poderia habilitar-se, mas, por outro lado, também se sabe que isso é uma grande ilusão. O editor deste blog e os seus leitores não teriam qualquer chance.

Estamos, pois, diante de um grande imbróglio político, sem que se vislumbre uma luz republicana e democrática no fim do túnel, exceto, talvez, através de uma nova eleição, como sugere a voz das ruas, que pedem eleições diretas imediatamente. Eleições diretas sim, com o compromisso de adoção de uma convocação de uma constituinte exclusiva para uma ampla reforma do sistema político. Com essa gente que aí está não é possível avançarmos nesse sentido. O país teria que dar um tempo para uma imprescindível assepsia política, que resgatasse a democracia representativa dentro de novos parâmetros, preservasse os princípios constitucionais da Constituição Cidadã promulgada em 1988; garantisse o pleno funcionamento do Estado Democrático de Direito; e, sobretudo, estancasse essa sangria de direitos sociais que sempre esteve no propósito principal dessa tecitura golpista. Com a poeira mais baixa, já é possível compreender um pouco melhor o que embala a emissora do plim plim: um fora Temer, mas com a mesma agenda. Não se enganem!


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