terça-feira, 23 de maio de 2017

Editorial: Normalidade? Que normalidade?






Os últimos dias do Governo Dilma Rousseff(PT) foram, sem exageros, trágicos. A ex-presidente tornara-se completamente refém das forças que desejavam apeá-la do poder, adotando uma agenda que não havia sido combinada nas urnas com o seu eleitorado de 54 milhões de votos. Afastada do cargo, mas recentemente, percebe-se uma movimentação, das forças que estiveram por trás do golpe institucional que a afastou da Presidência da República, no sentido de castigá-la ainda mais, quiçá com alguma punição no curso das investigações da Operação Lava Jato. Afinal, as delações premiadas oferecem algumas vantagens tentadoras e os indivíduos, completamente enrascados, acabam sucumbindo a essas vantagens, entregando até suas inocentes vovós. Há, por exemplo, grandes questionamentos às vantagens oferecidas aos irmãos Batista, que pagarão apenas uma multa, a despeito do montante de delitos praticados - envolvendo a corrupção intensiva de agentes públicos - com o propósito de auferir dividendos para os seus negócios.

Em razão das vantagens oferecidas pela delação premiada, os irmãos Wesley e Joesley Batista fisgaram alguns peixes graúdos do nosso sistema político, o que, em última análise, paralisou o próprio sistema político. O presidente Michel Temer(PMDB) faz m esforço enorme para aparentar normalidade, mas, todos sabem tratar-se de uma grande falácia. O governo Temer acabou. A grande questão posta é que todas as articulações em torno do afastamento da presidente Dilma Rousseff previa a negociação de uma mandato de transição, sob o controle deste cidadão, até as eleições de 2018. Como observou o jornalista Josias de Souza, no seu blog do portal UOL, não havia um plano "B". Alguma alternativa, na eventualidade de um desastre deste mandato de transição, o que acabou ocorrendo, pegando o sistema político de calças curtas, embora os seus trajes nunca fossem assim tão decentes mesmos. É preciso deixar bastante claro que o nosso sistema político sempre foi muito frágil, com amortecedores de crise bastante precários. 

Na absoluta impossibilidade de continuidade dessa "transição golpista", digamos assim, é preciso transitarmos por uma ponte segura rumo à retomada da normalidade democrática já agora, uma vez que oportunidades políticas são raras. Os opositores das "Diretas, Já' se aferram à Constituição para se contraporem às eleições presidenciais imediatas, baseados no pouco tempo de Governo Temer, uma interrupção que prevê, nestes casos, eleições indiretas. Os golpistas agora são legalistas desde criancinhas, pois sabem que um nome para cumprir um mandato tampão deverá sair de suas hostes. Se desenha, por outro lado, uma confiança da caserna a este nome e surgem personas como o atual ministro da Defesa, Raul Jungmann, além de Nelson Jobim, que também comandou aquele ministério. Estranha o fato do pernambucano não ter entregue o cargo, acompanhando a atitude do dirigente de sua agremiação partidária, Roberto Freire, que pediu exoneração do Ministério da Cultura assim que a crise estourou. 

Sinceramente, não enxergo em Raul Jungmann um bom nome para conduzir esse processo. Caso essa possibilidade comece a ganhar musculatura, convém ficar atento para uma ingerência militar concreta na condução da crise, de consequências ainda mais perniciosas ao comprometimento institucional que já estamos vivendo. As forças democráticas e de oposição deste país devem se contrapor solenemente a uma alternativa que aponte o nome do senhor Raul Jungmann como alternativa à transição à crise. Em última análise, ela pode introduzir elementos ainda menos desejáveis a esta crise, sobretudo em razão de um eventual apoio militar ostensivo ao nome do pernambucano.  

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia(DEM), da base aliada do presidente Michel Temer, mantém um silêncio obsequioso diante da enxurrada de pedidos de impeachment que devem chegar à sua mesa para a sua apreciação. Uma coisa é ignorar o pedido de um cidadão pernambucano, que já foi candidato a prefeito do município de Olinda nas últimas eleições municipais e outra, bem diferente, é ignorar o pedido de impeachment formulado pela Ordem dos Advogados do Brasil, assinado pela esmagadora maioria dos seus conselheiros, embalada pelos telejornais da emissora do plim plim, que faz questão de fazer remissões ao caso Collor e Dilma Rousseff, quando a OAB assumiu a mesma postura. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário